Ah, como me aviva a mente, as recordações do passado, de quando menina, na minha inocência dos contos de Fadas, nas crendices contados pelos adultos, como o Lobisomem, o Saci-Pererê, as bruxas, os bruxos, o Boitatá, e o Bom Pai Noel.

Quando nos aproximávamos da data já estávamos em festa, a esperar a noite do Natal, não sabíamos o que querer, ou o que pedir, não importava o presente que fosse, mas queríamos ter na casa, a presença do bom velhinho, e acreditávamos que ele viria, como dizia a mãe, a avó, e a minha meiga “magrinha” queríamos vê-lo de perto, e com isso passávamos a noite em claro a vigiar que ele chegasse (escondidas da mãe, que nos punha para a cama mais cedo) ou ele não viria se estivéssemos acordadas; (dizia ela).

Um certo ano, tivemos neste período uma forte tempestade, que se alongava por dias.

E para nossa tristeza ouvíamos a mãe a dizer; este ano vejo que o Pai Noel não virá, pois não poderá romper tamanha tempestade, ele está velhinho e poderá pegar um resfriado, (estas palavras eram motivos de grande tristeza para nós).

Morávamos nas Salinas, longe de tudo e de todos, apenas uma meia dúzia de vizinhos a centenas de metros de distância uns dos outros, e os trabalhadores, que nesta época iam-se para suas casas em outro município, a passar o Natal com a família, ficavam apenas os que não tinham famílias, e os que eram necessários a casa…

Chovia, trovejava, e ventava sem parar, o mar estava agitado, com a chamada (ressaca) e não havia passagem para os carros, pois ele avançava e atravessava a estrada como uma cachoeira, desembocando na lagoa.

E eis que chega a véspera do Natal, e a tempestade continuava cada vez mais forte, e a nossa esperança de ver o Pai Noel, ia se consumindo.

Mas sempre há uma saída, pela manhã o Pai disse a mãe que ia a Cidade, (a mais de 35 km. de distância) ela foi contra, pois não havia como passar com o carro na chamada (possas) onde o mar fazia sua passagem para a Lagoa, interditando a estrada.

E assim o Pai falou; eu vou a cavalo, tenho que ir, porque é preciso!

E logo mandou que o (Batista) selasse um dos cavalos, neste caso, o (cavaquinho) pois era o mais alto, e mais veloz.

E mesmo com toda a (ladainha) da mãe a dizer que ele estava maluco, em arriscar-se ao mau tempo, ele pôs a capa e se foi, debaixo de chuva, vento, e trovões.

Lembro-me que não vimos a sua volta, mas depois percebemos que já estava em casa, após a longa e difícil viagem.

Imaginem que ficamos curiosas, eu e as irmãs, o que teria feito o pai sair com tanta chuva, vento, e trovões? Não era de costume, ficarmos atentas a tais acontecimentos, mas tudo era motivos de desconfianças.

E de mansinho fomos sondar o que o pai havia trazido da Cidade, coisas que não fazíamos era mexer no armário da mãe, (ela nunca nos permitiu tal coisa) mas foi o que fizemos as escondidas.

E para nossa surpresa, não sei se boa ou má, lá estavam os presentes que o Pai havia trazido da Cidade, e que por certo, pegou com o Pai Noel, para não nos deixar sem, já que chovia muito, e o bom velhinho poderia pegar um resfriado (como disse a mãe)!

Ficamos caladas, pois não éramos loucas em deixar que a mãe descobrisse que invadimos o seu armário. E a seguir, já a mãe mandava que fossemos dormir, que já estava na hora, mesmo assim nada mais falou, se o Pai Noel viria ou não, e obedecemos indo nos deitar..

E o pior foi que, embora ficássemos acordadas para conferir o facto, não vimos o Pai Noel pôr os presentes na mesa da sala (como sempre) sabemos que pela manhã, eles lá estavam, (e eram os mesmos que vimos escondidos, dentro do armário da mãe)! “risos”

E daí, ainda passamos alguns anos, acreditando que o Pai Noel, havia mandado os presentes pelo pai. E mais alguns anos, a esperar pelo bom velhinho, nas noites do Natal…

Obs.: Até hoje eles não sabem da nossa descoberta, nem o irmão, que não participou, pois sempre teve a (boca quente) só que o nosso (Pai Noel) desta vez, não usou o seu Trenó com as suas Renas, e sim o seu lindo cavalo branco, chamado (cavaquinho)...

E hoje ao comentar este facto, com uma das irmãs, confesso que chorei...

Chorei com saudades de minha inocência, e da minha infância, e ela olhou-me, e eu pude ver que também chorava...


Autora: Pequenina
22/12/07-20:35
Música na Voz do: Ribatejano