Natal, nesta data do ano lembramos tantas coisas! Algumas boas que nos trazem saudades, e outras que nos causam dores e sofrimentos.

Como esta história real que passou com duas Amigas, e que eu não consigo esquecer, pois uma delas sou eu.

Esta Amiga foi uma menina muito pobre, vinda do sertão nordestino, onde havia sido criada na mais mísera pobreza pelos tios, pois a verdadeira mãe a havia abandonado com poucos anos de idade.

Embora lhes dessem abrigo, ela passou muita fome, pois a comida era escassa, e sempre foi tratada apenas como uma pessoa a mais dentro daquela casa, e nem tudo que as primas tinham, ela poderia ter, pois a tia também não tinha muito para oferecer, e neste caso, as filhas em primeiro...

Certo dia, uma das primas havia ganhado um anel de metal, destes que vem de brinde em certos doces baratos, ela ao ver o anel no dedo da priminha ficou deslumbrada, como se aquele ‘anelzinho’ fosse uma verdadeira jóia, e pediu a prima para experimentar, para ver como ficaria em seu dedo, e a prima muito sem educação, e aos berros disse: 'NÃO DEIXO, É MEU'!!!

Ela baixou tristemente a cabeça, e calou-se.

Mas no dia seguinte a prima tirou o anel do dedo, e pôs em cima da mesinha, e ela aproveitando-se do descuido da prima, pegou-o e colocou-o em seu dedo, e assim foi exibir a mão no colégio, para que as amiguinhas a vissem usando um anel. A prima que estudava no mesmo colégio, viu e foi para cima dela aos berros, dando-lhes chutes e pontapés chamando-a de ladra, o que causou a sua expulsão do colégio, pelos Diretores do mesmo.

Ela sai correndo, envergonhada diante aos olhares dos colegas, e professores, sem nada poder argumentar, mesmo não tendo a intenção de se apossar do anel, já que pretendia devolve-lo.

Com 10 anos de idade já conhecia o que é um constrangimento, e sabendo que ao chegar em casa, ainda seria espancada pela tia, sentou-se á beira da calçada chorando, e estendendo as mãos e em alta voz, deu um grito dizendo:

Eu ainda vou ter tantos, e tantos anéis, que me faltará dedos para usa-los a todos.

E assim ela decidiu em deixar os tios, e sair pelo mundo afora, em busca da liberdade.

E sem muito a pensar, pegou a pouca roupa que tinha, e deu inicio a sua jornada; como ela mesma diz: (com a cara e a coragem).

Percorreu alguns estados Brasileiros em busca de trabalho, e fez de tudo, foi babá, foi faxineira, arrumadeira, ajudante de cozinha em residências e restaurante, mas nunca se prostituiu.

Quando aos 16 anos, conheceu um senhor, dono de uma Casa de Lanches onde estava trabalhando, que encantado com a sua agilidade e a destreza de como trabalhava, começou a olha-la com outros olhos, e lhes propôs casamento, este senhor teria quase 4 vezes a sua idade, porém tratava-se de pessoa bem cuidada e muito culta, pois era um conhecido Juiz de Direito.

Ela, também começou a sentir muito afeto por ele, pois a tratava como gente, e assim resolveu em aceitar o pedido de casamento, e ele a trouxe para a minha Cidade, onde construíram um lar, pois ele era viúvo.

Este senhor foi o melhor presente que a vida havia lhes dado, e assim fez dela verdadeira Rainha, e ele a tratava como tal, e ela não mais foi empregada de ninguém, e nem dela mesma, pois tinha quem fizesse de um tudo para si, e não mais soube o que era a fome...

E assim, não só os seus dedos, como também o seu corpo, eram poucos para ostentar tantas jóias, que o bondoso e apaixonado marido, lhes presenteava.

Tornamo-nos Amigas, e eu sempre freqüentava a sua casa, e passávamos juntos ‘os três’ e mais alguns convidados, todos os Natais.

Eu adorava conversar com aquele sábio senhor, que era só bondade, e por muitas vezes ela, por ter pouco conhecimento do assunto em pauta, já que nós duas éramos de outra época, e ela de cultura diferente, e não procurava ouvir e aprender o que o marido lhes queria ensinar, sempre me olhava com um sorriso dizendo-me:

Não sei como tens paciência de ouvir tantas histórias de 1900 e antigamente!

Mas eu gostava, fascinava-me ouvir a uma pessoa com tanta sabedoria e experiência de vida, e com tanto conhecimento, relatos de outras eras, recortes dos primeiros jornais que circularam em outros países, e no nosso também, fotos antigas, amareladas e quase que apagadas pelo tempo, imagens de construções, ainda da época dos primeiros habitantes desta cidade.

Como foram construídas, e como fora transportado todo o material para as mesmas. E muitas outras coisas, imagens que nunca havia visto antes, tão próximas dos meus olhos.

E, o tempo passou. E um certo dia viajamos para o Rio de Janeiro, para fazer algumas compras, ‘preparativos para a chegada do Natal’ e havíamos deixado ele bem, sem problemas de saúde, fomos despreocupadas, como fazíamos todos os anos. E ao voltarmos, tivemos uma desagradável surpresa, ao sabermos que ele havia sido internado de emergência, numa Clínica Cardiológica, e logo nos dirigimos para lá.

E minutos após a nossa chegada, ele veio a falecer, como se estivesse apenas nos esperando para, dizer-nos adeus, e partir para sempre.

Ah! Como sofremos a perda daquele maravilhoso pai, que tanto nos ensinou, e tanto tinha, a nos ensinar.

E assim continuamos Amigas; E eis que logo chega o dia do Natal, e o que faríamos nós sem a presença daquela pessoa tão importante, e tão querida?

Sentíamos sua falta mais veemente, pois era uma das ocasiões, em que ele assumia magistralmente e com muita doçura, elegância, e dignidade, o seu posto de chefe de Família, á cabeceira da mesa; o seu lugar de costume.

Então pensamos como seria a nossa noite de Natal? E assim ela resolveu que faria tudo como antes, seria uma ceia como ele gostava que fosse, com qualidade e fartura...

E assim foi feito...

Mesa posta, cheia de iguarias, cadeira vazia...

Nos olhamos e nos abraçamos, cheias de dor choramos, e em nada tocamos, e saímos para a rua, sentamo-nos na beira da calçada próximo ao portão.

Choramos, a lembrança daquele homem, que era como um pai, e já não mais estava entre nós fisicamente, mas sentíamos a sua presença marcante, como se ali estivesse sentado, naquela cadeira vazia.

Ficamos em silêncio, corroídas pela dor. Quando num repente, vimos um jovem desconhecido, usando apenas uma bermuda (embora caia alguns pingos de chuva, fazia muito calor, pois estávamos em pleno verão) ele atravessou a rua olhou-nos, e entrou numa casa em frente.

Logo a seguir ele voltou e veio em nossa direção, trazia nas mãos um prato com rabanadas, e dois copos descartáveis, um dentro do outro, e uma garrafa de vinho, chegando diante de nós ofereceu-nos o que trazia, desejando-nos boas festas.

Olhamos uma para outra sem nada entender, e aceitamos; ele pôs o vinho nos copos, e a seguir pôs as mãos em nossos ombros e disse; Feliz Natal! E acrescentou; Não chorem!

A seguir retirou-se, dirigindo-se a casa de onde havia saído, e antes de entrar olhou para trás e acenou, atirando- nos um beijo e entrou...

Continuamos mudas sem ter o que falar. Comemos as rabanadas e tomamos o vinho em silêncio, creio ter sido esta a melhor ceia, deste triste Natal.

Em seguida fomos para dentro de casa, e olhamos mais uma vez aquela mesa solitária, embora sortida de boa comida, doces, frutas, champagnes, e vinhos, das melhores safras e procedências.

Mas nada igual, aquelas singelas rabanadas e aquele vinho, que sequer olhamos a marca ou a procedência, e que nos foi oferecido por aquele jovem desconhecido que nos estendeu a mão, e nos deu o conforto, e que deveria ser o Anjo que todos esperam, quando o desespero já não encontra a saída.

E assim ficamos as duas sentadas a conversar, a esperar que a noite findasse, e o dia voltasse a raiar, pois havíamos combinado que ao amanhecer iríamos agradecer aquele desconhecido ‘Anjo do Natal’ o que havia feito por nós, e já que fomos surpreendidas pelo seu gesto, e não havíamos agradecido.

E assim foi feito. Pela manhã fomos até a calçada para ver se víamos ‘Aquele Anjo’ mas não o vimos, pensamos que poderia estar ainda a dormir, pois ainda era cedo.

E assim resolvemos por bater na porta para que pudéssemos falar com ele... E para nossa surpresa chega o dono da casa, e então pedimos que ele chamasse o rapaz, que lá estava na noite anterior, e a qual não sabíamos sequer o nome. E o homem respondeu; que já não mais havia lá ninguém, pois a casa estava alugado para uma família desconhecida, para que passassem somente à noite de Natal. E cedo já haviam partido...

Nos olhamos mais uma vez e agradecemos pela informação, e vimos que jamais teríamos chance de dizer-lhes: Obrigada!

E assim em todos os Natais, nos lembramos daquela imagem de Homem, com a sensibilidade de Anjo, a nos oferecer rabanadas, vinho, e afeto!

‘Nota’ Esta jovem senhora, hoje tem uma excelente situação financeira, pois o marido deixou-a muito bem, vive em companhia das mesmas serviçais! Mas... Vive só... Como eu!



Por: Pequenina