Vésperas
de Natal, faltando apenas poucos dias para as comemorações,
data esta, nada agradável para mim, traz-me
tristeza, e recordações.
Na
verdade devo ter algumas razões para tanta
tristeza, mas muitas não consigo encontrar
motivos para tal, ou talvez a minha mente negue-se
em lembrar, poupando-me dores e sofrimentos...
Esta
noite eu nada dormi, foram longas horas, tomada
por intensa nostalgia...
Creio
que começo a sentir o peso da solidão,
e a enxergar a dura, nua, e crua realidade...
Olhei
da janela, e vi que ainda estava meio escuro lá
fora, as luzes da rua ainda acesas, o vento sul
soprando frio, o mar agitado, levava suas brancas
ondas até a praia, desmanchando-se na areia...
Tentei
em telefonar para alguém, precisava falar,
precisava sair daquele torpor, que me deixava louca,
mas foi em vão, ainda era muito cedo, e eu
já estava arrependida por tê-lo feito,
não devemos despertar as pessoas, com os
nossos problemas, já que pouco passava das
04:00h da manhã.
E
quase que por milagre, o telefone tocou e eu atendi,
era um amigo, conversamos por alguns minutos, mas
creio que ele não entenderia o porquê
de minha "maldita" angústia, e
assim...
Resolvi
ir queixar-me com o meu mais fiel Amigo, o Mar!
Ninguém
melhor que 'Ele' o meu Mar, para ouvir-me, acalmar-me,
e dar-me conselhos, mesmo que ás vezes bravio,
sempre esteve junto a mim, nos momentos mais difíceis
da minha vida...
E
logo eu lá estava, molhando os meus pés
naquela água gostosa, fria e relaxante, numa
caricia pura, sincera, e verdadeira, do meu amado
Rei, o Senhor Mar...
Ainda
estava meio escuro, olhei ao longo da praia, e vi
que alguém se aproximava, era um homem, e
pelas vestes, vi que era um pescador, chegando da
pesca antes do raiar do dia.
Parou
diante de mim, cumprimentou-me com um sorriso, e
de estalo fez-me uma pergunta bem direta "que
eu não gostaria de responder" Que fazes
aqui á esta hora, e com este tempo chuvoso;
pensas em te afogar, ou pegar um resfriado?
Eu
respondi; Não, eu só estava a admirar
o vai e vem das ondas na areia da praia...
Observei
aquela face ainda jovem, mas sofrida, com sinais
de beleza, desgastada pelas noites sem dormir, em
busca do sustento...
Novamente
olhou para mim e disse-me; Olha moça, eu
não sou desta cidade, estou aqui de pouco,
mas sei quem és, conheço-te de vista;
e acrescentou, vejo-te todos os dias á beira
mar, parece-me sempre assim, triste, e muito só...
Eu
pensei; "nunca vi este homem antes". Mesmo
assim respondi; Sim, eu adoro o mar...
Logo
vi que o dia já estava a clarear, mesmo com
o céu meio nublado, pelo mau tempo...
E
com um sorriso ele falou; Desculpe, eu não
me apresentei, e foi dizendo o seu nome; e quando
fui falar o meu, ele interrompeu-me dizendo; Não
precisa; eu sei como te chamas, e também
conheço as traineiras do teu marido.
De onde eu vim, ele é muito conhecido por
lá, como bom homem, e bom patrão...
"Ah! Que triste recordação"
Eu sorri, sem nada dizer...
Então
ele me fez um convite dizendo; Já que estás
aqui, vamos até ao meu barraco, preciso de
um banho e de trocar esta roupa molhada, enquanto
isso, toma-se um café fresquinho...
Percebi
que se preocupava comigo, talvez por conhecer o
tal "marido" e não pensei duas
vezes; acompanhei-o, sem mesmo saber quem era, e
o que me esperava. Confesso que não me causou
medo, mesmo porque, nada seria pior do que eu estava
a sentir naquele momento...
Caminhamos,
e logo a alguns metros da praia, estávamos
no que ele chamava "meu barraco" o que
tinha razão...
E assim ele bateu na porta, e eu percebi que felizmente
ele não era só, e assim, senti-me
mais segura...
Logo
veio uma jovem mulher, muito alegre e simpática,
que abrindo a porta com um sorriso disse; Entre,
e não repare, como vês é um
barraco de pobre, mas és bem vinda!
Entrei,
e vi que dentro daquele "barraco" reinava
uma certa paz, e felicidade, simbolizada por uma
pequena árvore de Natal, feita de um galho
de uma planta nativa da região chamada casuarina,
que nasce ao pé da lagoa, e das salinas...
Estava linda, ornamentada com algodão, algumas
bolas coloridas, e papel alumínio "deste
usado na cozinha, para embalar alimentos" que
dava um falso reflexo de iluminação,
o que não havia...
Ele
então, cheio de carinho para com ela a esposa,
apresentou-a dizendo; esta é a minha companheira
de quase oito anos, e o será para sempre,
temos dois filhos lindos, que é a nossa riqueza.
E
concluiu referindo-se a mim; Esta moça é
a esposa de (?) das traineiras... "mais uma
vez faltou-me á voz"...
Logo
os miúdos; acordaram com a nossa chegada,
e vieram juntar-se a nós, um menino e uma
menina "pobres, mas saudáveis e bem
cuidados"' que logo se agarrou ao pescoço
do pai; ainda com as vestes molhadas, enchendo-lhe
de mimos...
Enquanto
a mãe dirigia-se para o fogão, já
que a sala e a cozinha, tomavam o mesmo espaço.
E
logo exalava um delicioso cheirinho de café,
e que me foi servido em uma caneca, com rosquinhas
de supermercado, também deliciosas, enquanto
ela se desculpava, por não haver xícaras
para servir...
Embora
o café, estivesse meio fraquinho "fora
do meu costume" mas extremamente saboroso,
e temperado com amor...
Fiquei
ali mais um pouco, enquanto o pescador se banhava,
e trocava suas vestes molhadas pela água
do mar, ela conversava comigo, como se me conhecesse
de algum tempo, mas sem nada indagar sobre mim,
sobre a minha vida "isto foi ótimo"
...
Já
com o dia claro resolvi voltar a casa, não
sem antes prometer, de lá voltar outras vezes
para revê-los, e tomar aquele cafezinho...
E
ao sair, eles me acompanharam, até alguns
metros fora do "barraco" E quando nos
despedimos, ele olhou-me e disse:
Tenha
cuidado contigo, és uma bela moça,
e nem sempre encontras por aqui á esta hora,
pescadores honestos e respeitosos... Há muitos
de fora, e corres o risco de cair nas garras de
um destes, ou nas ondas do mar...
E acrescentou; "eu poderia ser um desses, já
que não me conheces, mas não o sou"...
Ouvi,
e balancei a cabeça, agradecendo e concordando
com o que ele dizia.
Voltei
á casa, já meio tarde, mas sem me
importar com á hora, nem com o trabalho,
afinal tratava-se de minha vida, e de minha própria
conscientização, e me pus a pensar
na lição, que a vida acabara de me
dar.
Que nem sempre a felicidade está naquilo
que desejamos, que buscamos a qualquer preço
alcançar, no impossível, no inatingível
e imaginário mundo das ilusões...
E
sim nas coisas mais puras e belas da vida, até
mesmo num "barraco" na simplicidade de
um casal, numa árvore de natal improvisada,
no sorriso de duas crianças, e até
ao lado de um bom homem honesto, como este valente
e bondoso pescador...
E
quando eu lá voltar, contar-lhes-ei tudo
sobre mim, do meu estado civil, e sobre o tão
falado e conhecido (?) "ex-marido"...

Autora:
Pequenina
14/12/05-05:20h