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Quem Me Dera Ser Boi…
Amigos,
tenho no pensar uma dúvida do que somos, e como procedemos
e porque assim agimos.
Sei
que pode existir um vírus na nossa memória que pode
apagar tudo que lá posemos tantos anos atrás.
Podemos
não nos recordar do que estamos a fazer, quando apenas somos
distraídos com uma voz um ruído que não esperávamos.
Verdade
hoje depois de responder a uma pergunta de minha esposa, procurei
saber o que estava a fazer.
E
lembrei-me que procurava uma determinada faca...
Andei
alguns minutos procurando, sem nada encontrar...
Minha
mente continuava movendo como um disco partido, pensando e tocando
sempre o mesmo fado, ou só a mesma quadrilha sem nunca chegar
ao fim.
Então
lembrei-me que estava perdido da memória e precisava de rever
em que ponto me perdi.
Neste
momento dei uma grande risada ao entrar em meu pensamento uma passagem,
tinha eu nove anos de idade... minha esposa ouviu minha risada e
veio ver o que se passava...
Perguntando
o porque; contei-lhe que procurava a faca partida e não a
encontrava.
Ela
riu; pegou na minha mão e levou-ma a altura dos olhos.
Então
vi que andava procurando a faca com ela nas mãos... o que
prova, tantas vezes estamos tão perto das coisas e tão
longe da realidade.
Sentei-me
com ela e disse, o nosso primeiro beijo faz hoje 52 anos... me lembra
bem que foi na cancelinha, e hoje de faca na mão não
via ou lembrava que a andava a procurar.
Creio
que meu pensamento viajava bem longe no passado; o que me lembrou
foi o que me fez rir...
Meu
pensar parou exactamente com tua pergunta, e principiou numa viagem
louca ao passado.
Lembrou
de minha irmã que já faleceu e dos meus 9 anos e o
tempo da segunda guerra mundial e da fome que passávamos.
Minha
mãe não podia muito e minha irmã andava sempre
a procurar onde arranjar a comprar milho ou farinha no mercado negro.
Num
desse domingos de manha ela levantou-me da cama e disse, anda comigo,
não quero ir só, e vais comer o pão que desejares;
só não podes meter ao bolço.
Ora
para mm foi o céu que se abriu naquela promessa, e ao toque
do sino da missa primeira, já ia-mos a caminho, eram duas
horas a pé o lavrador que tinha prometido de vender milho
a minha irmã.
Depois
de nos saciar de pão e aguardente, a tal cachaça de
bagaço da uva; minha irmã Carolina carregava uma rasa
de milho, eu meia rasa.
Voltando
a casa; apenas a dez minutos da casa, principiou a chover torrencialmente;
logo pertinho ficava um portão fechado da quinta do capitão;
mas tinha uma cobertura cerca de dois metros onde nos abrigaríamos.
Ali
estava-mos esperando que a chuva passasse para seguir e não
molhar mais o milho.
Foi no momento que dentro do portão, ouvimos MOooooooooooooooooo.
Minha
irmã riu muito e disse hoooo quem me dera ser Boi....
Perguntei
porque querias ser boi?
Ela
me respondeu, porque o boi esta ali falando talvez com a vaca, barriga
cheia e sem estar ao frio, e nos aqui cheios de frio, fome, molhados
e cansados...
As
lágrimas corriam na minha face ao contar esta cena a minha
esposa...
Esta
carinhosamente tirou-me a faca da mão, beijou-me e encaminhou-me
para o quarto.
Por:
Armando C. Sousa
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