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Como Portugueses, Não Vi Portugal
Verdade
meus queridos leitores, é mesmo uma vergonha dizer uma verdade,
mas a verdade é que eu mentiria se o não dissesse.
Nasci
na freguesia de Ruivães Concelho de Vila nova de Famalicao.
Ate
aos 8 anos de idade o mais longe que conhecia fora de casa e o caminho
da igreja; mesmo essa, eu não queria ir, depois de apanhar
um puxam de orelhas dado pelo padre João; por entrar na igreja
descalço.
Verdade,
eu não tinha calçado algum- tinha 6 anos quando meu
pai morreu, não entrava dinheiro algum em casa, mesmo assim,
o padre queria a oferta, dinheiro igual a pelo menos uma rasa de
milho e pagar bulas e indultos...
Um
dos motivos de minha aversão aos homens de batina... bom
também conhecia os carreiros para o monte de S. Miguel do
Anjo.
Do
alto podia ver o espelho do mar e sonhar...
Aos
dez anos o mais longe que fui foi a Requião ao monte da Crus,
a um magusto de escolas, que deflagrou numa guerreia de pedras entre
rapazes de diferente freguesias...Era cerca de hora e meia.
Claro
a pé, nunca tive dinheiro para uma bicicleta, mas principiei
a trabalhar aos 10 anos e meio.
Não
te rias; isto era tempo de ditadura.
Cresci,
mas nunca tive direito a voto. O padre escolhia quem deveria ser
votante.
Aos
19 anos, diversos colegas foram presos, e eu entrei para escuteiro
numa freguesia vizinha para me livrar da perseguição
do padre João.
Foi
o meu maior momento de hipocrisia...mas livrei-me de umas semanas
de calabouço quase certas...não que eu foce político,
nada disso; não sei o que é ser político...
nunca ia a missa da igreja da freguesia, e o padre odiava-me.
Casei-me,
e o mais longe que tinha ido, duas vezes a Braga e Bom Jesus, uma
vez a Guimarães ver o Castelo e a estatua de D. Afonso Henrique,
duas vezes à Povoa de Varzim, ver o mar....sim o mar, que
tanto me atraia em criança. Todo isto cerca de trinta quilometro
de raio de minha cozinha de terra...
Antes
de imigrar fui a Valença do Minho e Viana, e o mais longe
a Vale de Cambra.
Mesmo assim as dificuldades foram muitas para isto...
Imigrei
para Franca, logo que pode fui ver a cidade da luz,...torre, Opera
Versalhes, Campos Elisios, Portas de Orleães, e muito mais.
Fascinava-me Coimbra, talvez pela Rainha Isabel Inës de Castro.
Ou Pelo Rei D. Diniz...ou ainda pelos saberes daquela gente influenciados
pelos doutorados; mas nunca pode lá chegar.
Imigrei
para o Canada; Pais frio, gente de coração gelado...
recordações dos Portugueses com quem convivi...na
sua mente, o dinheiro os fazia superiores, e afinal vi-os ficar
pelo caminho, sucumbindo ao peso da ignorância.
Eu
também sofri confiando neles.
Ao
enviar meu passaporte para renovar, nunca mais apareceu...Agencia
ou no correio se extraviou...sem passaporte Português, sem
possibilidades de o rever devido as leis Salazaristas de 1962, preparadas
para o efeito... então vi um pouco de Portugal como filho
bastardo do Pais, duma mãe Pátria que me serviu de
madrasta.
Com
passaporte Canadiano, vi um pouco de Portugal e ilhas; apenas obtive
os meus documentos no ano dois mil...depois de me considerar o Canadiano
Forçado perante o Cônsul em Toronto, este resolveu
me dar o passaporte numa hora.
Tarde
de mais para ter uma casinha no torrão que me viu nascer.
6
filhos compreenderam a podridão que ainda existia em Portugal,
resolveram ver outras terras; outras gentes, e admirar a beleza
que existe por esse mundo alem viajam como verdadeiros Canadianos,
eu acredito que todos deveremos poder ter uma ferias por ano, e
ver gentes e terras diferentes, para melhor compreender as diversidade
de pensamentos.
Depois
de tantos anos apenas ficou em mim gravada a língua de minha
mãe.
Todos
os que me compreendem são meus irmãos na Língua
que Camões tanto diversificou.
Coimbra...
essa vive em mim, nas baladas e serenatas e fados dos estudantes..
Hoje,
10 de junho de 2009, aniversario de minha partida para a França.
De
encontro a liberdade.
Por:
Armando C. Sousa
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