A Chave de Bem Fazer

 

Na verdade gente querida, a chave que abre nosso coração de cristão, sem que seja preciso fazer-lha entrar na fechadura, é o som macio e magico da palavra Natal...a musica e o sorriso quando temos razão para sorrir.

Jovem com os meus 9 anos, alem de vivermos muito pobres, também era querido pelas gentes da Aldeia... creio por fazer parte do plantel que ensaiava e o drama teatral (O Filho Pródigo)
Verdade, representava o pequeno Carriça.

Era criado do Sr. Prior... na representação; tirei um ninho, e tinha os passarinhos presos numa gaiola...

O Sr. Prior chamou-me sem se mostrar mau e disse... vez como tu foste mau?... A estas horas já andam as pobres avezinhas saltando de ramo em ramo procurando seus filhinhos que eram o seu enlevo.

Em verdade principiei a chorar lembrando-me de minha mãe como estava aflita quando eu desaparecia do lugar onde brincava.

Chamava-me e dizia anda depressa que te vou dar um naquinho de pão…

Eu corria pelo pão e pelos beijos.

Então ajoelhei aos pés do Sr. Reitor e disse, perdoe-me, se o senhor Reitor me autorizar eu serei para estes passarinhos Mãe, Pai Avo e família toda... Senhor eu prometo que os soltarei logo que eles possam ganhar a sua vida e nunca mais farei minha mãe aflita.

Então no fim da sessão o homem que fazia o papel de reitor disse; Armando, estamos chegados ao natal... eu te levarei ver o presépio e te darei umas alparcatas... era este o nome dado a sandálias de pano azul...

Desde desse dia a palavra natal era musica a meus ouvidos... Já sabia que não existia Pai natal nem menino Jesus, coisa que minha mãe me tinha dito quando nada tinha para me dar, e viu meus socos sobre a lareira.

Mesmo assim adorava a Palavra Natal, sabia que raparia o tacho de fazer aletria, uma das iguarias do natal.

O Senhor que representava o papel de Sr. Prior, cerca das dez horas da noite bateu na porta e quando fomos abrir este disse: prometi de levar o Armando ver o presépio, a senhora Balbina o autoriza a ir?...

Tirando debaixo do capote transmontano uma travessa de rabanadas quentinhas, ofereceu a minha mãe que neste momento chorava dizendo, mil obrigados... palavra doce esta de é Natal... não esperem pelo fogo.

O Sr. Serafim apenas disse, aceite porque e natal... Meu irmão Joaquim também foi... meia-noite estávamos nas janelas a ver o fogo e comer rabanadas... era Natal... festa de famílias, paz e amor entre os homens...

No dia de natal não andava descalço... tinha umas sandálias de pano azul, Natal era a chave do bem.


Por: Armando C. Sousa