Páscoa do Meu Tempo de Criança

A Todos Desejo Páscoa Feliz

 

 

Verdade Amigos, sou um dos pássaros muito raros desse tempo, estou cá para vos contar como era a Páscoa nos meios rurais do Minho, onde as casas eram muito velhinhas, mas com algumas senhoriais dos tempos da nobreza.

Era menino quando teve inicio a segunda Guerra Mundial, Portugal estava a sair das revoluções da dinastia e entrando em ditadura, onde os podres tinham todo o poder...

Quaresmas era tempo negro para os trabalhadores, a industria Têxtil estava a dar os primeiros passos, mas já principiava o monopólio.

Difícil conseguir teias para o tear de mão, era preciso pagar bulas e indultos a igreja ou corria o rico de ser nomeado pelo padre que estava em falta, ou (pupado) pela vizinhança instigado pelas beatas da missa de todos os dias, com corno e funil.

Era preciso pagar a decima e oferta ao padre... no meio do inverno, não havia meios nem para o pão.

Quantas vezes chorava com fome, e adormecia com a barriga vazia, que crescia com o ar e a água.

Esperava-se que os padrinhos poderem dar o folar mais sedo, para a haver alguma coisa de comer com a cevada com um pouco de mel... sem dinheiro para o açúcar e principiava a ser racionado causa a brutal guerra.

Na semana de Páscoa, era de trabalho para caiar as casas rapar os caminhos de ervas daninhas, e alisar-lhos dos buracos causados pelo inverno...

No ar reinava a esperança de umas calcas ou camisa nova... a alegria de ver passar a cruz de ajoelhar, de ir beijar a casa do vizinho que daria um pouco da rosca de Valongo ou Aviltes.

As mimosas davam o inicio da primavera... tantas flores amarelinhas... tempo de ir dizer a doutrina e o confessar.

A alegria passeava pelos caminhos e carreiros da aldeia, vinha a crus e mordomos e o senhor abade, entraria em nossa casa, os ajudantes da missa com a campainha que anunciava a chegada do Senhor ressuscitado.

O sábado aleluia, de manha lá estava-mos para estourar o judas a paulada.

Nas casas mais abastadas havia vinho do melhor e pão-de-ló presunto e salpicão.

E andavam os homens ajudantes com a cesta para os ovos, e um saco para o dinheiro, o tal folar para o padre...

Os ovos eram guardados em casa senhoriais para serem vendidos e o padre iria receber o resultado...

A freguesia era grande e teriam de a percorrer entrando em todas as casas, mas sabia-mos que poucos tinham quarto de banho em casa.

As necessidades eram feitas naquela guarita no quintal... uns com acento, outro só com um buraco, nestes metia-se as mãos entre as nádegas e as pernas para não desequilibrar...

Numa destas ocasiões de aperto o padre teve de ir, e foi a uma casa onde tinham pintado com alvaiade e óleo de linho sem aceleração de secagem... imaginai quando ele levantou a batina e assapou o Cu no buraco... viu-se no diabo para se livrar dessa situação, mas ficou de batina pintada e o rabo também...

Os mordomos dos ovos usavam esconder uns tantos e de quando em vez iam no buxo para dar de águas diziam, mas daquela vez os dois queriam dar de corpo, estavam bem apertados e como era uma casa senhorial os dois correram ambos queriam ser o primeiro.

Embrulharam-se e toca de lutar pela porta, ate se zangarem e entrar em luta... os dois caem... com os bolsos cheios de ovos, estes se esborracharam... ficando o fatinho novo e a opa cheia daqueles ranhos brancos dos ovos sarapintados de amarelo...

O dono da casa deitou a mão aos dois que já estavam também todos borrados e a vomitar de tanto ter bebido nas casas anteriores...

O padre chegou de batina pintada e creio o resto também... e ali excomungou os dois que não poderiam ser mordomos da cruz, ou doutro santo...

Sem homens do ovos; a campainha continuou a tocar, e o padre a der a beijar o senhor ressuscitado... o armando cheio de canas de foguetes e todo contente, porque o dono atirou as amêndoas aos garotos e eu era um deles...

A noitinha no largo da aldeia as concertinas tocavam e a dança continuava a luz do luar.

Estávamos na primavera, a terra germinava nova vida, dando princípio a renovação.

Por: Armando C. Sousa