10 de Junho
Decorria
o ano de 1964 eu esperava ansiosamente que os serviços
Camarários me entregassem os documentos para imigrar para
França por carta de chamada.
A corrupção era grande nesses dias e só depois
de o empregado responsável receber a quantia que via que
era necessária me entregou os papeis.
Depois de tudo decorrido, foi marcado o dia 10 de Junho como dia
da partida rumo á felicidade.
Manhã cedo uma mala e um saco estavam prontos a partir;
eu sentia-me ansioso, não temia enfrentar trabalho desconhecido,
língua diferente ou dificuldades de diversa ordem; só
pensava em partir para a França.
Bendita França que abriu a porta aos famintos; dando-lhes
esperanças; deu confidência ás habilidades
de tantos milhares de camponês ; deu dignidade de trabalho
e abriu o sorrir a tantas crianças; enfim ao lembrar-me
que meus filhos iriam deixar de chorar de fome e de frio.
Dava-me coragem para enfrentar a despedida da filha mais nova
de 14 meses ; ela escondia a cabeça como brincando; depois
peguei na mais velha de tez anos e meio, beijei-a muito pedindo-lhe
para nunca deixar a Mãe chorar; diz sempre á mãe
que o pai vai voltar e vai sempre para onde a mãe for;
levantei no outro braço a menina dos caracois de ouro,
dizendo com apenas vinte e seis meses já conheces a miséria
e vais conhecer a separação; mas eu vos prometo
que voltarei para vos arrebatar a esta cozinha de terra, ao fumo
desta rama verde de pinheiro e ao trabalho de ires pedir á
Tia Tina e aos avozinhos um pouco de pão para matar a fome;
com a ajuda de Deus vós não sereis obrigadas a servir
senhoras. trabalhar sim mas com dignidade.
Não queria chorar, era preciso ser forte para deixar esposa,
filhas, mãe, irmãos e amigos; quelhas e caminhos
com tantos segredos das noites de juventude; sabiá que
iria sentir solidão mesmo do badalar dos sinos; do cheirinho
do alecrim no socalco da casa onde morava; flor e cheiro das mimosas
que cresciam do outro lado do muro, das luzérnas do sol
filtrado por entre as folhas dos eucaliptos e seu maravilhoso
cheiro; iria sentir a falta da água fresca a tilintar nas
fontes; a vós da nossa gente, o ver nascer do sol por entre
as montanhas, ou o por do sol dando reflexo ao enorme espelho
do mar, tantas vezes o mirava do alto do monte, para além
de Vila do Conde e Povoa de Varzim; espelho que tantas vezes me
fez pensar o que haverá par além !...
Enfim via todos os familiares presentes chorando com a incerteza
estampada no rosto; eu estava confiante e como um Zé maluco
peguei numa flauta feita de bambu e procurei imitar a musica de
uma cana verde; então vi entre as lágrimas um sorrir
dos familiares; peguei na mala e no saco e parti junto com meu
cunhado Américo ,via estação de S. Bento,
dali Pompilhósa Rumo Vilar Formoso; nesse dia 10 de Junho
antes de chegarmos a Vilar Formos a P.I.D.E. recolheu todos os
passaportes ; foram-nos entregues duas horas mais tarde ao entrar
no Comboio SUL EXPRESSO via Irum Espanha , em Andaya tomar o comboio
com destino ao princípio da vida feliz duma família
gerada em três países e dois continentes ; se me
dão licença deixem que agradeça publicamente
ao autor das cartas de chamada; Domingos e Celeste Maia.
É este o 10 de Junho que eu festejo; foi o ultimo que passei
com medo da ditadura; mais tarde venho a saber que foi nesse dia
centenas de anos a traz que morreu o maior de todos os poetas
numa pequena e velha casa a traz da Sé de Lisboa; pobre
e abandonado, só uma mulher Javanesa que lhe foi sempre
fiel assistiu aos últimos suspiros ; desdes então
considero este dia que CAMÕES entrou no reino da tranqüilidade
, depois de ter escrito em verso a Epopéia dos descobrimentos;
mesmo depois de ter sofrido a humilhação do desterro
desdém do amor por Catarina e a pobreza. Camões
tanto deu á língua Portuguesa escrita através
de todos os Continentes.
É este o meu dia; o dia da lusofonía. Como dia de
Portugal só conhecia o dia da Restauração
o primeiro de Dezembro; 10 de Junho deveria ser o dia do imigrante
sofredor, dia do convívio e minorar a solidão da
língua, cozinha jogos e costumes, dia da nossa lusofonía.
Q. donde e como nasceu a idéia a deste dia da morte de
Camões ser o dia de PORTUGAL ?... Responda se souber, por
favor?