Alcino VIII...

 

O Ornelas recuou com rapidez três passos para evitar o tacho que bracejava no ar, e ao mesmo tempo que dizia, desculpe, desculpe, Carmina... eu só queria que você ouvisse sua filha a tocar o piano e aquela vos de anjo a cantar...

Carmina pousou o tacho e foi para a porta ouvir sua menina que tanto adorava e tão pouco lhe podia dar... ao passar, deixou cair suas mãos sobre as mãos de Ornelas, com um sorriso pediu mil desculpas... As lágrimas caiam-lhe e principiava a tremer, ao ouvir o tocar do piano... coisa que a menina nunca tinha feito nem visto…

Carmina compôs-se e disse... filha, anda-me ajudar a limpara esta louça; temos de seguir... Ornelas aproximou-se, pondo as mãos suavemente nas mãos de Carmina disse; sua filha e uma criança... eu pagarei dois ordenados mínimos a você, mas nunca autorizarei que sua filha trabalhe antes da idade, em minha casa; eu mesmo ajudarei a limpar a louca se me autorizar...

E pegou numa toalha de limpeza... Carmina meia amuada e envergonhada passava-lhes a louça... de momento Carmina parou: olhou para o Senhor Ornelas, triste, de lágrimas a cair e lhes perguntou...Estamos aqui e ainda não sei o que será meu trabalho.

Sim Senhora... vamos dar uma volta pela casa, mas o que eu queria era que tu olhasses por tudo nesta casa, e que falasses comigo alguma coisa que te chamasse a atenção de maior importância... sim, sim; disse Carmina; vós quereis toda a atenção... e como membro do governo qual a atenção que dais ao nosso lugar de palhotas... estais a deixar tornar-se tudo num deserto: para saberes o que é pobreza, o convido, Senhor Ornelas... a entrares onde eu entro, sentares onde me sento, comeres como eu como e dormires onde eu durmo...

Neste momento vem a correr a menina que também cantava e tocava... ao grito de contentamento e de triunfo Carmina virou-se de repente, batendo com a cabeça no lado do olho direito de Ornelas que tacteando ajoelhou e caiu; desacordou ao ver sua mão ensanguentada, corte no sobre olho, com a forca do embate com a cabeça de Carmina...

Anisa ficou espantada ao ver o homem ajoelhar e cair sem movimento... Mãe!... O que fizeste?...

Carmina debruçada sobre o homem escutava seu coração, que ao por o ouvido no peito, seus lábios tocaram seu rosto, fazendo-a corar ao pensar que já passaram anos sem sentir a barba de um homem tocando na sua pele cheia de desejo.

Carmina não sabia o que fazer... não sabia como ligar o telefone, nunca telefonou em sua vida.

Anisa vem beijar a mãe e disse, mãe, porque não me das um pai assim?... Gostaria assim duma caixa com, musica...

Ao levantar-se para pegar em água e a por sobre a ferida, Carmina disse; filha tudo acontece porque o destino o quer... e eu pobrezinha só com este vestido, saído do saquinho de Alcino, desprezada pele homem que foi teu pai, não posso ter ilusões...

Já neste momento o homem se levantava ouvindo as palavras de Carmina quando esta de costas voltadas pegava em água... este voltou a deitar-se fingido desacordado... o pano lavava o rosto, as mãos passavam demoradamente; Ornelas fazia um esforço para não estremecer ao sentir o bafo desta mulher tão perto de seus lábios, mulher por quem principiava a sentir calafrios e desejos...? Seria que a principiava a adorar?...

Levantou a cabeça e seus lábios tocaram... Não sei se o preto se põe vermelho, mas Carmina ardia de pudor e desejo... levantou-se dizendo, primeiro terás de comer o que eu como e dormires onde eu durmo... por agora minhas desculpas; sente-se e descanse... eu terei de me ir, o Xavier chegara antes de estamos na palhota.

Amanha estarei aqui para receber suas ordens e trabalhar, aprendendo os costumes da casa; hoje vou levar algumas ameixas para Xavier se regalar quando chegarmos...

Anisa puxava pela saia da mãe perguntando... Deus e mau? Ou e o destino que e mau?...

Queria um pai que tivesse assim uma caixa de fazer cantar... podes ter um assim, mãe?...

Por: Armando C. Sousa