Alcino VII...

 

O sorriso do homem triste foi-se alargando quanto mais fundo olhava, sim, este pensava, mas esta e a mulher que vendia a esteira e lhe ofereci trabalho, mas a minha casa vai parecer como anos atrás quando a minha querida olhava por esta casa... o cruel destino ma roubou...

Carmina levantou-se e olhou o homem de frente dizendo toquei na campainha, ninguém respondia fui entrando; mas este jardim ressequido e cheio de ervas daninhas, não resisti e principiei o trabalho.

As ameixas estavam caindo pelo chão... Senhor, eu tinha fome e juntei-me a minha filha regalando-me com elas.

Senhora, creio que já viu... me chamo Lambu e Ornelas esta marcado no cartão que lhes dei.

Senhor Ornelas, eu não sei ler!... E nem tampouco me lembrou que minha filha e capaz de ler.

Tua filha ler?... Sei que e uma crueldade não dar escola ao sexo feminino... mas gostaria de ver... tenho uma grande biblioteca onde ela se pode regalar quando vier contigo... este riu, como se fosse impossível a criança saber ler...

Anisa vamo-nos: o senhor Ornelas não acredita em mim... pobre sou, mas sou honrada no porte e no que digo... mas por outra, o senhor tem razão de duvidar... entramos e Anisa demonstrara ao senhor que sua mãe sempre diz verdades.

O Senhor Ornelas ficou deveras embaraçado, mas franqueou a porta, a criança logo entrou, percorrendo como o olhar as maravilhas que via sem saber o que.

Este deu a mão a Carmina para a encaminhar dentro de casa, mas esta tremia como uma vara verde.

Tantos anos que não sentia a mão de um homem tocar a sua...depois seu pudor subiu ao rubro ao relembrar a sua mocidade, esquecendo-se que era ainda muito jovem, e naquele dia tinha olhado o caco de espelho dependurado entre as palhas que forravam a palhota onde vivia.

Depois daquele banho refrescante viu que ainda era bonita com seu cabelos luzidios e cortados quase rentes, lembrou-se que casou aos 17 anos, mesmo que Xavier tenha quase 12 anos Carmina ainda não tinha trinta... Carmina entrou e o Senhor Ornelas fez-lha sentar suavemente numa cadeira junto ao piano, onde se encontrava a sua filha Anisa...

Este pegou num livro que entregou a Anisa... esta de pronto leu Amor de perdição... por Camilo Castelo Branco.

Esta logo perguntou a sua mãe, o que quer dizer amor de perdição?... esta ficou embaraçada... mas respondeu... filha, isso quer dizer como eu te dedico tanto carinho que fico perdida sem ti; Coisas assim filha...

Ornelas suspirou lembrando-se do grande amor roubado tão sedo ao seu carinho... amor que o ia enterrando, mas os meses passaram, e depois que ofereceu trabalho a Carmina, renascia uma esperança de ver voltar os dias sorrir.

Era atraído pela aquela mulher que viu na feira; que lhes disse se não precisas não compres; outros virão que precisam... tudo como quem lembra o ditado; não gastes teu dinheiro em coisas inúteis, pois podes morrer a pedir.

Lembrou-se de sua grandeza e de ver tanta pobreza, mas só ele não poderia virar o mundo; mas poderia ser uma peça do quadro que procuraria dar mais uma ideia para modificar as mentes a favor da humanidade irem mais longe, mesmo sabendo com o egoísmo existente, ninguém poderá salvar o mundo de tanta fome e ignorância...

Ornelas perguntou a Anisa; gostarias de brincar com o piano?... Ela disse não do que se trata... então Senhor Ornelas levantou a tampa de resguardo, e apareceu um teclado todo em marfim...

Anisa ficou de boca aberta ao ver-lho por os dedos e uma musica maravilhosa suou eram como gemidos que ouvia sua mãe cantarolar...

Ornelas disse a Anisa acompanha-me deste lado do piano...Anisa como se fosse um prodígio principiou a acompanhar-lho e a cantar... que linda voz a menina tinha.

Minha mãe minha amiguinha
Tem-me amor de perdição
Me aconchega e acarinha
Vê-se negra para me dar pão
Tive um pai que nos deixou
Fiquei com minha mãe sozinha
Anos passam, não mais voltou
Ho! Ter pai, com uma bela casinha
Tenho como deus Alcino
Deu-me o dom de saber ler
Amo e confio no meu destino
De toda a miséria vencer.

Ornelas encantado deixou a Anisa sozinha e foi ver o que se passava com Carmina... esta na cozinha em frente a uma pilha de pratos e potes preparava-se para os lavar, quando um não sei que lhe bateu no ombro a fez estremecer e levantar um tacho como defesa, que lhe estava na mão...

Por: Armando C. Sousa