Meus Olhos Não Vê Verdades

 

Meus olhos virados ao espelho, e não querem acreditarem no que estão a ver
Minhas mãos tacteiam pelo líquido de limpar os óculos... são limpos...
Minhas mãos voltam a procurar o líquido, desta vez para limpar o espelho.

Uma voz que só eu poderia ouvir, diz-me; Armando, não limpes tua memória, olha o relógio, anda com ele para traz, minuto a minuto, vais encontraras dias, muitos dias, depois... vais ver que semanas não são nada, encontraras meses muitos meses...

Agora olha para ti; que estão a dizer tuas pernas da tua barriga?... Direito já não consegues ver o que sempre foi teu prazer... agora vais ver, que o espelho te vai dar uma ideia... nisso nem os meses que formaram anos, muitos anos conseguiram domar tua mente, mas tua mente precisa de ajuda.

Fecha teus olhos e fantasia aquelas noites depois da ceia, quando tu a dançares com as moças belas, mais garridas, mais bonitas da aldeia, fugindo para o escuro do caminho...
Para que lhes pudesse roubar um beijinho.

Oh que negrura entra em meu coração...porque me fazes lembrar estas coisas?...

Hoje todas são pó... estou aqui a pensar, levanto ao céu uma oração, para me livrar desta lembrança negra; desta paixão, deixei de as ver na mocidade, porque minha mente as foi buscar agora?

Meus olhos estão fixos no espelho; dento do peito meu coração chora... agora são os amigos, nas noites de rejoada, canecas de vinho verde, na cozinha do Sr. Domingos Monteiro.

Os fados cantados pelo amigo Joaquim Sacramento, para a Fernanda Monteiro a Isaura A Fernanda Pinto.

Tantos... já foram para terra da verdade... o Joaquim as últimas palavras dizia que estava rico, nunca mais os vi; depois de partir em busca de trabalho e mais pão... talvez fosse melhor assim, ele se esquecem, estava rico, talvez, mas muito pobrezinho no saber respeitar amigos... parti; ganhei outra pátria para meus filhos... aprendi a amar... aprendi que o racismo e um dos maiores inimigos da paz.

Reconheci que era conduzido por muita mentira, muitas crenças em bruxas e lobisomens... deixei ficar os diabos e espíritos malignos que andavam pelo mundo para perdição das almas... meu espelho esta a ver-me a rir dessas estupidezes de pensamentos... mas ainda hoje atormentam milhares de Portugueses que vieram dessas paragens.

Estes, nunca conseguiram vencer o medo, incutido por benzedeiros e religiões, com promessas a santinhos, para os espertalhões encherem o saco.

Nunca me esquece as horas de alegria passadas cantando a lareira com irmãs e irmãos de minha esposas, eram 11... como unhas pegadinhos aos dedos, assim eram eles, eu os adorava, mas tive de partir.

Muitas vezes fui a Portugal, gastar fortunas com a família... tantas vezes os convidei a vir ver outras terras outros costumes outras tecnologias... nunca tiveram tempo para vir ver a grande família que se estendia juntos aos grandes lagos, no pais do sol da meia noite...

Mas a soberba em uns, o querer serem maiores e mais espertos noutros, a inveja noutros desmoronou o amor de família... na última vez que lá estive os juntei todos numa noite de salgadinhos, mesmo uma família imigrada em França esteve presente... mas vi bem que estavam divididos em claques.

Para mim foram os dias mais negros de minha vida... ver uma família despedaçada pela grandeza e ganância.

O momento era quase de luto, cheguei para ver uma cunhada ter um ar de ataque, no mesmo dia de chegada... entrou em coma e morte depois de voltarmos.

Vi vidas destroçadas pela ignorância e tradições...vi tanta hipocrisia para manter grandeza... este ano não fui ao norte; mas estive três semanas no Algarve... mas ninguém da família nos quis ir dar um adeus ao Algarve...

As minhas pernas não mentem, ao dizer que estão cansadas de tantas viagem a levar amor, sem encontrar o calor dos natais de outrora, das Páscoas primaveris; dos meus anos de namoro, do nascer a primeira filha, que mesmo com pouco, eram alegres.

Hoje em Portugal já não se encontra aldeias comunitárias e solidárias os vizinhos só procuram provocações, com a fuga as leis...

Aqui nossos natais continuam a ser passados em família... não usamos as mentiras do pai natal nem do deus menino... foram essas mentiras que mais me feriram em criança, estou a olhar para o espelho, sei que não esta sujo nem mente, sou eu que me sinto jovem apesar dos meus 74+.

Com maturidade desejo que a juventude viva em todas as mentes e que a dor não seja mais que um morango molhado em chocolate bem negro, passado a uma boca com lábios de cereja.

Por: Armando C. Sousa