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O Sonho das Desfolhadas
Tantos
anos que eu parti do meu torrão por esse mundo fora procurando
trabalho e pão; que minha vida foi passada, esquecendo o
sonho.
O
voltar a minha meninice era impossível, mas viver recordações
de menino estava a meu alcance.
Um
dos motivos porque escolhi o mês de setembro para voltar a
Portugal e abraçar familiares e amigos; por um lado tarde
de mais, parte dos amigos tinham falecido, mas ainda abraçar
uma cunhada de 83 anos, parecia saudável, mas quis o destino
que apenas esperava ver a única Irmã imigrada, conversando
algumas horas cheia de alegria, para depois no mesmo dia da nossa
chegada ser acometida por uma trombose deixando-a paralisada de
um lado e em coma.
Estes
foram momentos de muita angústia, tive medo de minha esposa,
esta de saúde precária que não resistisse ao
choque.
A
vida não tinha terminado para nós, tínhamos
de seguir o nosso destino, embora com tristeza seria preciso viver,
voltar ao seio de nossos filhos que ficaram longe, no Canadá.
Nosso
torrão, os dois fomos visitar a vila fronteiriça de
Valença, dali Almoçar no Grande Braseirão do
Norte, e dali visitar amigos em V. N. de Cerveira.
Ali
o destino queria que víssemos mais uma vez o passado de menino.
As
desfolhadas minhotas... esqueci e saltei ao ver para amostra, já
uma meda de milho para desfolhar, mas o cartaz anunciava carros
e carros puxados por bois Barroso de grande cornos a luzir; raparigas
lindas vestidas nos mais lindos trajes regionais minhotos, com o
pescoço a vergar ao peso do oiro que lhe cobria o peito.
Expectativa
e ansiedade entrou em nosso ser, esperando viver horas que só
em criança vivi.
No
arraial junto a igreja matriz de Cerveira de todos os cantos e da
vizinha Galiza se juntavam para dois dedos de conversa, e aqueles
de voz mais afinada desafiar os tocadores de concertina que eram
aos bandos.
Os
conjuntos Minhotos cantavam as mais belas cantigas do nosso tempo;
como esta;
O
Senhora do Alívio que dais a quem vos for ver
Dou chouriço do fumeiro, Pão e vinho para beber
O Senhora do Alivio que dais a quem vos rezar
Dou-vos alegria dos campos para ver os bois a lavrar.
As
cantigas mais populares e picantes de nossos tempos se ouviam por
todo o arraial enchendo a barriga de riso e a mente de alegria.
Mas
e emoção surgir ao ver os carros acarretando o milho
para a desfolhada, cada carro vinha ladeado pelo rancho do lugar,
belas mocas e rapazes cheios de saúde e alegria cada um com
seu garrafão cheio de vinhos que seria distribuído
pela multidão que estava presenciando um dos mais belos momentos
vividos em nossa juventude...
A
meio século que não via carros de milho puxados por
bois guiados pelas mais belas moçoilas do lugar, as outras
de açafate à cabeça cheio de pão e chouriço
para a multidão.
Na
desfolhada apareceu muito milho rei, certos casais levavam a espiga
para desfolhar à margem do rio Minho.
Os
ranchos dançavam lindas modas, no vira geral, quase chorei,
meus pés eram pesados como chumbo, então realizei
que já não era criança, passava dos 73 anos.
Mas
comi chouriço e pão de milho e bebi do verde, mas
pela ultima vez, eu gostei meu estômago quase que arrumava
comigo, a desfolhada foi de arromba, e como era tarde dormimos na
casa do amigo, em cama estranha, dancei o vira deitado.
De
manha acordei sonhando com a desfolhada, mas realizei que pela última,
mas esta vez foi real.
Por:
Armando C. Sousa
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