Meu Ontem e Hoje

 

Amigos; pudesse eu hoje conversar convosco através da leitura, creio que vos não me acreditaria como as coisas se passaram no meu tempo.

Desde que me lembra eu o que mais adorava era o miminho da mãe; o pai era aquele que me tirava desse miminho para meu berço.

Só muito mais tarde compreendi o porque, mas não vou dizer.

Um ano mais tarde o que mais apreciava era ter um tostão para rebuçados, jogar a pedrinhas com as rapariguinhas e os rapazinho pequenos como eu.

Mais um ano meus brinquedos eram bogalinhas a jogar ao rapa tira deixa põem, ou então as fósforos queimados, e não queria perder os fósforos queimados; eu estou mesmo em dizer nem que fosse a trampa, ninguém queria perder a trampa.

Gostava imenso de ir com minha mãe apanhar caruma, (agulhas de pinheiro bravo)

Eu trazia meu próprio molhinho, mas gostava de ouvir minha mãe falar do sol da meia noite olhando na directo do mar.

A diferença de ontem para hoje e enorme... ontem vínhamos para a rua jogar o pião e a barra, s. João barqueiro, o eixo, moscamoscada, o esconde lenço, esconde, esconde, fazer rodas com as rapariguinhas a cantar vai o regador para o meio, ou o não te quero.

Não havia medo de nos perder ou ser roubados, não íamos longe, não havia transportes.

Nossos transportes eram os pés, e a roda e barita.

Eu se visse um carro por mês na aldeia me sentia feliz, via de mês a mês o carro do gás, e se pudesse me dependurava nele ate a próxima curva.

O comboio, a estação ficava a 7 quilómetros de distância, a primeira, vez que o vi, tinha nove anos, apenas aos treze viajei nele de uma estação a outra justo para ter a sensação.

Antes de entrar na escola os maiorezinhos ensinava-nos a escrever números e letras, já nos sentíamos grandes por alguém que sabia brincar com nós.

Meus pequenos amigos, podeis continuar a ler, não uso palavras de quilo e meio, meu vocabulário e pequenino, mas afectivo; ninguém precisa de pegar no dicionário.

Já nesse tempo para jogar a bola de farrapos limpávamos um pedaço de terreno não produtivo de todas as pedras, ponhamos barro e pronto estava nosso estádio, para fazer um campeonato entre aldeias da freguesia.

A verdade e que a mãe ia lavar ou cavar o terreno para o semeio ou plantio, nos pobres garotos da rua íamos talvez a saltar as cerejeiras, e mais tarde outras fruteiras; na trepa se rasgássemos as calças cosíamos os rasgos com arame de rede de galinha.

Eu e o Alcino gostávamos de ter a casa cheia de lenha, pequeninos mas lá trepávamos aos pinheiros e eucaliptos para lhes cortas uma ou duas rodadas de canas.

E lá vínhamos carregados, nossos brinquedos de verão eram feitos de arame e cascas de pinheiro manso de inverno, azenhas feitas de varas de loureiro e bugalhos.

Gostava de ter vegetais frescos um pouco fora do tempo, sempre valiam amizades com minha mãe e a mim um pouco mais de pão.

No meu tempo de criança, sabeis que as maquinas dos comboios trabalhavam a racham?

Ha que era racham? Pedaços de pau com um metro de comprido e apesar de dez a 15 quilos depois de seco.

Verdade o carvão extraído nas minas de S. Pedro da cova era quase todo vendido para o estrangeiro e Portugal quase limpou as florestas.

Os carros andavam a hidrogénio, a máquina cheia de carvão não fazia mais de 40 quilómetros e na dava mais quê 40 a hora.

Não tínhamos electricidade, essa era um luxo muito grande, os candeeiros eram muito caros os vidros então usava-se mais a candeia, gastava menos petróleo e se dependurava em todo o lugar, não havia água encanada ainda em muita parte de Portugal não a tem hoje.

O quarto das necessidades era um buraco no fundo do quintal com uma gurita por cima.

Não havia luz nas ruas, dai uma sombra ao luar, inventavam todas as sortes de medos.

As mulheres traziam sempre uma garrafinha de aguardente no bolso da saia, diziam ser para matar o bicho, dois tostões aqui dois ali, imaginai ao fim do dia; bom isto não era geral, mas havia disto.

Do quarto das necessidades ainda saia o adubo da terra; tomar banho?... Ainda hoje me da vontade de rir... fugíamos de casa e íamos nos banhar no rio Pele, mesmo nus sem calção.

As moças amarravam a combinação entre as pernas e nadavam como os moços no rio, para se vestirem íamos para o meio do campo de milho. Mas ainda o pior e que nada dizíamos aos pais, depois era (gibatada) no traseiro, havia um colega que punha uma chapa dentro das calcas, para não fazer doer, o pai mijava de rir e deixava de bater com a fustiga.

Para aprendermos a escrever certo tínhamos cadernos de duas linhas, era preciso encher as linhas, mas nunca sair fora, então as raparigas eram mais perfeccionais a escrever, ganhavam de longe aos rapazes, mas estes ultrapassavam de longe as moças em matemática, no terceiro ano escrevia-se em linha aberta, então ai apareciam os cuidadosos e perfeccionais, eu fui sempre como uma galinha choca a esgravatar.

Escrevia boas redacções mas levava canada pelas faltas e palavras incompletas que erra, erro de carapuça.

Jovens amigos, continuamos na próxima semana de ontem até hoje.


Por: Armando C. Sousa