Fonte do Néctar

 

Subir em águas do douro, rio que foi caminho de sonhos de tantas raças... leito que saciou tantas bocas e encantou tantos olhos, margens onde repousaram tantos corpos cansados e nos esconderijos de seus penedos construíram seu primeiro abrigo, formando ali seu lar, e talvez sua aldeia.

Era meu sonho deixar meus olhos regalar-se com as mil e uma maravilhas admiradas das águas correntes mas calmas, ver o pitoresco que a paisagem oferece a todo o visitante desse recanto de sonho.

Neste ponto, agradeço a meu sobrinho Miguel me conduzir ao cais de Gaia, ponto de partida; nunca lá chegaria devido à má sinalização das estradas Portuguesas em lugares que deveriam ter prioridade para encaminhar o turismo.

Já no cais, onde tomei o barco Douro Azul, admirava a ponte centenária construída pelo engenheiro Francês que tem seu nome ligado a muitas maravilhas européias, ali admirava as muralhas imponentes que guardavam a cidade das investidas de gentes que procuravam abrigo e a fertilidade da terra, do rio e suas margens.

Os palácios se erguiam amontoados como recordações da opulência de reinados do passado, com eles as torres de catedrais se erguiam ainda mais alto, lá estavam como nos fazendo recordar um passado onde os jesuítas escravizavam as gentes a seu belo prazer, até que entrou o Marquês de Pombal.

Oposto a esta magnitude, Gaia e o monte da Virgem: outra maravilha em mim gravada.

Mas nunca única, pois o mundo está repleto de maravilhas construídas pela mão do homem ainda muito mais belas, completando desenhos de Deus.

Porto bem visto acima da estrada marginal era uma tristeza, com seus casarios degradados pelo abando das populações que deixam a capital nortenha a um ritmo de 8 pessoas por dia, a subida do rio nos proporcionou a vista de enormes monumentos de cimento, quero falar das pontes se são sem dúvida obra de orgulho da engenharia nacional, mas ao mesmo tempo muitas vinhas e aldeias quase num abandono total, como se a vida já não fizesse sentido... mais a frente surgia vida com linda arquitectura de prédios com linhas desenhadas pelas raízes de imigrantes, mas desta vez sem vinhas plantadas, via-se esses socalcos com lindas oliveiras como estas fossem espectadores nos anfiteatros virados para o palco que era o rio onde navegava.

Mais à frente as montanhas todas queimadas, mas onde o verde principiava a surgir, queimadas talvez para instalar ali uma corrente de aerólitos cortando o nevoeiro com suas enormes hélices aproveitando a energia que o vento e pródigo.

Ao lado do douro seguia o comboio atravessando montanhas nele arrastava turistas para irem visitar a fonte do néctar que inebria, faz cantar e dançar o vira; falo do famoso vinho do Porto bem conhecido em todo o mundo.

Os painéis que meus olhos enxergavam era da magia, e faria falta um Miguel Torga para os descrever; casarios enormes dos Ferreirinhas, dos Cruzes, e tantos outros, como o Segrans e sua capa preta imponente nos seu 25 metros de altura; subimos duas açudes, uma delas de 35 metros, obra de arte da engenharia que tornou o douro navegável sem necessitar de bois a arrastar as rebelas.

Régua a vista, entramos no verdadeiro anfiteatro, desta vez as vinhas eram espectadores, ali víamos o enorme trabalho feito pela mão do homem onde era case impossível ser feito por máquinas, aquela enorme fonte do néctar, socalcos de 4 metros de altura por uma faixa de terra em pedregulho amarelo, com a mesma largura, vinhas regadas pelo suor das gentes que a trabalhavam cantando para esquecer as horas, cada palmo de terra tem recebido o suor de centenas de vida, as videiras plantadas pelo pai do primeiro rei, regadas pelo orvalho do rio douro, recebem o açúcar do sol dourado num conjunto que a natureza foi pródiga para o douro donde se extrai o maravilhoso néctar conhecido em todo o mundo.

Ao beber um porto, pensa nas gotas de suor derramadas pela gente que tornou possível esse (golinho) chegar até a ti.

Assim foi o culminar duma viagem que durou 7 horas... com pequeno almoço e almoço regado ao melhor vinho.



Por: Armando C. Sousa