Da Meninice à Velhice IX

Acordou Para a Realidade

 

Amigos e familiares, como deveis ter compreendido, tem sido muito dolorido para mim, ter aberto tantas feridas, deixando minha memória a sangrar, ao mesmo tempo será um pequeno testemunho das vezes que caí e me levantei, com a ajudada de familiares e amigos, venho correndo este vale de torturas e alegrias.

Como ia dizendo depois daqueles momentos sublimes de prazer e medo de o perder, tornei-me para o outro lado a soluçar e a pensar o que poderia sair deste acto louco.

A esposa ficou de bruços na cama por uns dez minuto, de momento levanta-se a chorar e olhava para todos os lados... gritava, onde estão minhas meninas, onde estão minhas meninas... procurei acalmar minha esposa com beijos e abraços; entretanto a mãe trouxe a mais velha das meninas.... foi uma grande festa que a esposas fez... mas voltaram os gritos, e a Olguinha e a Licinha?... Onde estão?

Grande foi meu sacrifício para lhe poder explicar que estavam, uma com a madrinha e mãe da madrinha, e a outra com a irmã mais velha.

Mas vamos lá velas, peguei na Sãosinha ao colo e outro braço por cima do pescoço da esposa, e lavamos, mas logo a ela, eu levo-a pela mão, pois quando não estás, não posso andar com as três ao colo.

Chorei de alegria ao ouvir minha esposa dizendo frases tão acertadas, depois de quatro dias de desespero, e quase ter perdido as esperanças duma solução para a loucura em que ela tinha imergido.

Cerca de duzentos metros que teríamos de andar para chegar a casa da minha comadre e cunhada. Conversamos, mas a esposa ficava períodos calada, como pensando.

A certo ponto diz armando quero que venhas comigo levar duas velinhas ao santíssimo quando estiver aberto...sei que o padre não me deixa ir ao altar mor acende-las; mas quando ele o abrir eu as acenderei no altar da senhora... com a mesma intenção...

Chegamos e a( Licinha )estava brincando na rua com a Titia... foi uma festa para a mãe e a menina... queria trazer-lha com ela.

Foi quando tive a ocasião de dizer, temos de conversar mais amor...

Sentamo-nos e eu disse a minha esposa, não voltaremos mais à casa onde morávamos, logo ela me respondeu, eu também não quero ir, a senhoria andou a meter tesouras e compassos nos quartos, e eu tive muito medo no sonho, ao ver o falecido Matías, corpo cheio de pelo e pés de cavalo, quando o luar se descobriu... foi por isso que prometi as velas ao santíssimo.

Calei-me sobre o assunto e voltei a dizer, sabes amor, vamos morar para a casa da falecida (Catorze)... mas tenho de levar um carro de mão para retirar as pulgas todas... sabes a casa esta fechada a mais de um ano.

Precisa ser caiada toda, ver se faltam algumas telhas, por uma capinha de cimento na cozinha que e de terra batida, escaldar bem cá fora onde era o ninho do cão.

Preciso de um (vidom) e encher-lho de água e fazer lume ate a água ferver, e escaldar tudo com água e cloreto.

Promessa foi feita, mas nunca mais quis falar com o padre que fugiu para não ter de nos dar conforto nas horas negras de minha vida, e esconder que afinal não existia tal coisa de magia branca.

A esposa recuperou dia a pós dia, depois com outros medicamentos, a alegria voltou, o amor pela vida também, mas desde essas ocasiões uma menina de 9 anos ficou sempre de noite em minha casa, para dar conforto e espalhar o medo se possível.

Com respeito ás pulgas, tive de retiras tudo que tinha vestido, e afogar a roupa no (Vidom) de água a ferver, fiquei todo mordido, no fim do trabalho da lavagem e pintura.

Com minha esposa recuperada, mas sempre vigiado pela medica, e as pessoas mais chegadas repreendidas de falarem em assuntos de crenças e diabos, em junho de 1964 imigrava para a França.

Comigo viajava a esperança, a força do amor, a imagem de minhas filhas era a semente da felicidade, a disposição de me esforçar ate às ultimas forcas, e com vontade férrea, nem o sangue as escorrer das mãos me podia reter: eu sabia que as tinha as mãos mimosas, que seria preciso as calejar à força da dor e do trabalho.

Três semanas depois, chegava primeira remessa, com essa remessa os medos da incerteza desaparecia e o coração enchia-se de confiança num futuro que se transformaria em canteiros de jardim através dos anos.

Cinco meses mais tarde, chegaram-me a saudade de ver a esposa e filhas, voltei para passar o natal em família.

França estava ser reconstruída depois da segunda guerra mundial debaixo do plano Marshall, era muito difícil arranjar uma casinha com condições para satisfazer a seguridade social.

Consegui nas horas vagas e com a ajuda de amigos transformar em habitação, um lugar que tinha servido de tecto a animais... foi aprovado pelo governo Francês e em Julho do ano 1965, estávamos reunidos em Portugal, tratando dos documentos para esposa e filhas imigrar também para Franca.

Em França não existia lenda de mouras, fadas ou diabos, principiamos um aprendizado da língua.

Povo muitíssimo simpático, não regateavam tempo para explicar e fazer minha esposa e filhas falarem o Francês.

Estávamos no jardim da felicidade, tínhamos três filhas... queríamos um filho, um macho.

As meninas eram tão espertas como bonitas, dessa forma angariavam para nós muitas amizades, eram o centro de atenção da aldeia, o que me valeu aprender a língua Francesa rapidíssimo... dois meses mais tarde carta de condução e o primeiro carro.

Estava ultrapassado o martírio do medo e do diabo da ditadura.

A seguir capitulo X - (Mais Três Filhos)

Por: Armando C. Sousa