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Da Meninice à Velhice VII
Depressão
Após Parto
Amigos
familiares, e leitores. Apenas vos quero dizer que a vida em Portugal
nesse tempo foi madrasta para o trabalhador.
Da
vida saía o sofrimento do viver, e o desejo de ir mais além,
mas honestamente.
Nesse tempo, alguma coisa que possuíamos mesmo nosso, eram
os filhos, as estrelas, e nem sempre, tínhamos a luz do sol,
que ninguém nos podia tirar, mas em nosso peito pulsava um
coração cheio de amor, cheio de brio de fazer brilhar
os filhos e esposa, esse amor era verdadeiro, e só nosso.
Esse
direito de amar, a ditadura nunca nos pode retirar, mesmo que nos
desse prisão ou escraviza-se, com um mísero ordenado
que não chegava para pão milho e caldo de couves,
com uns graeiros de arroz e meia dúzia de feijões.
Verdade
amigos, esta será a parte que mais me fere, e mais difícil
de contar, mas seria um hipócrita se o não fizesse.
Então
vou saltar para quando já tínhamos três lindas
meninas, trabalhava de noite, saia ás três da manhã,
a esposa cuidava da casa e das filhas, diferença entre as
meninas era de 14 meses em idades.
Vou
lembrar-vos que nesse tempo, não havia TV. Nem livros elucidativos,
proibidos pelo governo e igreja, e a luz, na maior parte das casas
da aldeia, eram a petróleo.
Casa... uma salinha, um quarto. e uma pequenina cozinha.
Não existia quarto de banho dentro de casa, isso era uma
casota no fundo do quintal.
Naquele
domingo de madrugada cheguei do trabalho 3,30... esperava dormir
um pouco e ir ao fim da missa da manhã para encontrar pessoas
que entraram numa excursão por mim organizada,.. claro o
dinheiro não dava para passear, mas como a gente confiava
na minha honestidade, eu recebia 5$00 por semana durante dez semanas
e os assentos para mim e esposa ficavam pagos: mas não podia
deixar atrasar ninguém, ou ficaria com os lugares vagos e
sem os amigos.
Nessa
note a esposa deu banho as crianças, mas a mais velhinha
enquanto a esposa tratava da mais novinha, foi dependurar-se no
lavatório com bacia de barro branco vidrado, e o lavatório
caiu partindo a bacia.
O
sino tocou para a missa a esposa sabendo que precisava de alguma
coisa para lavar a cara, foi deitar a água fora da bacia
grande onde tinha bacalhau de molho.
Creio
que saiu ao pátio, eu estava a levantar-me... veio correndo
para mim já sem fala, balbuciando soes desconhecidos e fazendo
gestos estranhos.
Olhei
para as meninas que dormiam, e fiquei chorando abraçado a
esposa, completamente desvairada, e sem noção do que
fazia ou dizia.
Creio
que ninguém imagina o que atravessava dentro do meu ser...
três anjos sem uma mãe que soubesse o que se passava
a sua volta.
Não
tinha por quem chamar, não podia deixar a esposa sozinha
com as crianças, nem a esposa naquele estado: eu perguntava,
ela assinava para fora e grunhia.
Eu
chorava pensando no meu futuro, e no estado da esposa; as crianças
sempre pensava que as tias as guarda-se e mima-se.
Mas
era preciso tratar deste caso em todas as direcções...
esperava que meu sogro viesse no fim da missa como era hábito
por minha casa.
Assim
aconteceu, minha esposa logo que o viu lançou-lhe as mãos
ao pescoço... vali-lhe Eu... esta obedecia-me cegamente,
coisa que me deixou admiradíssimo; mas era verdade eu era
como um senhor para aquele ser de razão perdida.
Então
pedi a meu sogro para me chamar um táxi para a levar a medica.
E ao mesmo tempo para pedir ao padre da Freguesia para vir ver minha
esposa, poderia ser que a pudesse ajudar.
A
médica disse-me; olha Armando, estamos em frente duma depressão
após o parto...
Respondi, Senhora Dra. mas a mais nova já tem 6 meses de
idade.
Exactamente,
é mesmo nesta idade que acontecem as mais difíceis
depressões.
Armando,
agora escuta-me bem... a família e vizinhança vai
dizer e a firmar que tua esposa esta com o diabo, e vão-lhe
fazer perguntas do outro mundo, coisa que a vão mais confundir,
procura desvia-la desse ambiente, mas lembra-te que lhes tens de
fazer a vontade a essa gente, ou então serás mal querido
e até apedrejado; vou adiantar-te já algum medicamento
que ela vai já tomar, nunca te esqueças de o servir
a tempo e horas, e tem fé que ele vai melhorar com a tua
ajuda.
Convence-a
de que ela nada viu, apenas estava com muito medo do que ouvia falar
em certas conversas.
As
meninas, a mais nova ficou com uma tia casada, a do meio ficou com
a madrinha e sua mãe, a mais velha ficou com a vozinha, portanto
mãe de minha esposa.
O
padre mandou-me e a sua casa com a esposa as duas da tarde, quando
lá cheguei fui informado pela criada que ele tinha saído
logo no fim da missa do dia, e que não voltava em três
dias.
O
taxista, disse-me que tinha um colega, que tinha levado pessoas
nas mesmas circunstâncias, a um padre que tinha sido desforcado,
ou seja, retirando-lhe as ordens de celebrar missa e que ele tinha
feito o serviço a diversos.
Eu
não queria, mas não resisti perante as minhas duvidas
e as crenças da família, todos diziam que tinha que
ser diabo o que se passava.
Eu
queria crer piamente na Médica e no medicamento, ao mesmo
tempo a força do amor que sentíamos, e no respeito
que a esposa nutria por mim, dava-me forcas, então eu continuava
a pisar na sua mente; dizendo que ela não viu nada de sobrenatural,
meus amigos, na segunda feira depois de lhes dar o medicamento,
e num momento de lucidez, minha esposa diz, que no sábado,
depois de eu partir para o trabalho a senhoria veio a casa com um
homem que andou a espetar compassos e tesouras em todos o lugares
da casa, e desta maneira ficou toda a noite acordada e com medo,
mas logo caiu outra vez a grunhir e feroz para alguém presente.
Estava
comigo um cunhado, portanto irmão da minha esposa, o mesmo
que me enviou logo carta de chamada para imigrar para França,
nessa, altura meu cunhado passava ferias em Portugal.
Então
foi esse meu cunhado que foi com o táxi pegar o tal padre,
para fazer as rezas e água benta para regar minha esposa.
Chegou
cerca da meia noite... preparou um cântaro de água
vinda da fonte, este depois de cruzes e mais cruzes, dizia que benzeu
a água.
Então
atirava canecos de água contra minha esposa, esta estava
com a combinação já quase toda colada ao corpo,
este dizia dá-me um sinal quando saíres.
De
repente atira a água mesmo com forca na vagina, a esposa
arrepiou-se e abriu a boca, e diz o padre, o diabo deu-me o sinal
que pedi.
Ela
vai ficar assim uns dias, mas com este crucifixo nada mais tem a
temer...
A
seguir capitulo VIII - (A cura estava no medicamento)
Por:
Armando C. Sousa
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