Da Meninice à Velhice VI

Mau Olhado

 

Meus queridos leitores, poetas e Familiares, como deveis ter compreendido venho contando alguma fazes da minha vida, ao mesmo tempo, que tudo tem sido muito normal, mas com um cunho de meter medo se não descobrirmos a causa.

Mas a dúvida do verdadeiro mistério continua na nossa vida.

Depois destas peripécias fiquei convencido que se houvesse coisas sobrenaturais, apenas aconteciam aos medrosos, aos que acreditavam piamente que existia diabos.

Num de meus acampamentos como escuteiro, ouve realmente galhofa.

Ora fomos acampar para um choupal junto ao rio Ave, então diziam que as sextas-feiras pela meia noite, passavam serenatas rio a baixo.

Muitos estavam convencidos, menos o chefe, homem dos seus 28 anos, 11 da noite, horas de recolher as barracas, com ordens de ninguém se levantarem sem o clarinete tocar apresentar.

Meia noite e dois minutos o clarinete toca... todos nos apresentamos num segundo, tocou a silêncio, e então ouvimos música a passar no rio, ninguém se queria aproximar.

Então o chefe diz; vamos todos ver, alguns se meteram dentro das barracas encolhidinhos; o chefe eu e Carlos (Sapeiro) lá fomos... depois mais alguns escuteiros atrás de nós; vimos um pequeno barco com uma grafonola que ia tocando um disco de chulas e malhoes... o chefe fez nos ver que tinha um cordel amarrado para o barco não ir longe, ele mesmo tinha preparado tudo isto para ver se acabava com as lendas das serenatas, e os que ficaram nas barracas foram levantados com seringas de água para ouvir a historia verdadeira... não... não existem serenatas mágicas no rio.

Como vos contei noutras ocasiões histórias de criar bicho, mas de me amadurecer mais como homem.

Namorava, o amor crescia com o desejo, tinha necessidade de uma mulher e de viver com minha amada, ela vinha duma família muito devota e cheia de crenças.

Ainda namorava, e me arrepiou o coração ao ver-lhe os joelhos em carne viva cheios de areias, tudo para cumprir uma promessa a Sra. Da Assunção, andando de joelhos a volta do mosteiro no monte Cordova, Santo Tirso.

Minha namorada era muito crente e eu não interferia na sua crença, pois afinal poderia ser eu que estava errado, e assim continuava com minhas duvidas.

26 anos de idade, tempo de tomar conta de meu destino, e iniciar uma vida de casado para poder dar meu contributo a esta grandeza humana do universo.

Meu amor, e ainda minha esposa depois de 48 anos de casados, nos nossos princípios a primeira coisa que tivemos mesmo nosso foi uma filha linda, que ainda hoje é uma mulher bela.

Adorava-a como a ainda adoro, e tinha ela cerca de um ano, sentíamos impotentes que ela tinha muitas dores e chorava dia e noite... Fomos com ela duas vezes aos médicos, mas nada de a ver melhorar.

Ora a família e vizinhos vinham para mim, isso que a menina tem não e coisa de médicos, ela apanhou algum ar mau; se não fores com ela a outro lugar para sarares a menina, nunca te perdoamos a tua falta de crença que existe diabos.

Neste caso, não queria remorsos, nem arcar com os ditos dos vizinhos, família, e da esposa.

Um dia, fomos com a menina ver a bruxa... depois de algumas rezas e prantos, recebemos a sentença; a menina estava possessa dum mau olhado, palavras da bruxa... seria preciso fazer um defumadoiro e o levar ao ribeiro ou ao rio de água corrente.

Teria de ser deitado na água corrente, cerca da meia noite e de costas voltadas para a água, como não queria remorsos, lá fiz o defumadoiro passando a menina em cruz sobre o alecrim funcho e sabugueiro, bugalhos e cascas de alhos e umas pedrinhas de sal...

Cerca da meia noite lá vou eu, levar o defumadoiro no mesmo ribeiro onde vos contei a história, Moinho de Carreiró... depois do moinho voltei-me de costas para o ribeiro conforme instruções da bruxa... e toca a atirar o defumadoiro por cima da minha cabeça.

Ora o ribeiro era ladeado por árvores e videiras, atirei-o, mas o testo bateu numa videira, e vem de cair aos meus calcanhares ainda me queimando com uma faúlha; cabelos arrepiaram, mas viro-me de repente para o ribeiro, chuto o defumadoiro e digo vai filho da puta vai para o mar calhado...

De regresso a casa conto tudo para a esposa que se ria como uma tolinha... ao outro dia vou com a menina a diferente médico que disse a menina tem gazes e prisão de ventre, dás-lhe este medicamento e no banho massageia-lhe toda o estômago e intestinos dando-lhe muita água fervida, verás que a menina vai dormir melhor esta noite.

A Médica riu-se a bom rir, quando lhes contei o que se passou comigo...

Ela disse, sei que custa muito o remorso da responsabilidade, mas nunca mais creias nessas coisas, os médicos encontraram a resposta para os males que tem cura.

E assim seguia a minha vida naquele torrão Norte De Portugal onde as lendas e as figuras dos diabos dominavam as gentes... 99% dessas gentes cresciam nos ditos e ritos da religião católica Romana.

(A seguir capitulo VII - Depressão Após Parto)

Por: Armando C. Sousa