Da Meninice à Velhice V

Acentuação das Dúvidas

 

Depois de um dia de trabalho que tudo corria maravilhosamente, boa produção sem avarias no tear, o dia estava mesmo chegado ao fim, quando a correia partiu, a lançadeira entalou causando uma media (rebentadela) na teia.

Todos queriam partir para ir ao almoço.

Eu logo pensei amanha de manha cedo, vou procurar reparar tudo antes do inicio do dia de trabalho, disse a minha irmã que iria mais depressa possível, e se o portão abrisse mais cedo iria reparar a teia.

Bom, desta vez escolhi o caminho por entre os montes e um estreito carreiro por entre penedos e tojo, mas sem sombras de pinheiros ou eucaliptos, apenas tojo paredes e penedos, no fundo do valado uma fonte onde diziam que era uma fonte encantada que se ouvia muitas coisas.

Seguia despreocupado assobiado; de momento abriu o luar, logo em minha frente os trajos duma mulher enorme a cerca de 50 metros do carreiro; arrepiei, e gritei, ao mesmo tempo um trotar como se fossem muito animais... isto durou um segundo.

Recompus-me e me encaminho para a figura de mulher, ou me tolho ou sei quem é, pensava.

Aproximei-me mais um pouco, e como por encanto a mente se abriu, e vi que se tratava duma grande pedra bicuda, que estava ali para demarcar terreno, e ninguém ter a ousadia de a mudar para roubar terreno.

Mas que essa pedra estava coberta de musgo acinzentado e encima, mais escuro que com o luar o musgo escuro formava a forma da cabeça de mulher de xaile.

Como se diz de noite todos os gatos parecem pardos, e a pedra aparecida de gente; segui, mais calmo... mais abaixo dois cavalos pastavam nos arredores dos campos, já de colheita feita.

Eu olhando de quando em vez para traz cheguei a aldeia e lugar de trabalho, prometendo a mim mesmo de voltar pelo mesmo sitio para verificar...

O meio dia chegou, eu até corria para passar naquele lugar, onde alguma coisa ouvira, e a grande mulher quase me tolhia...

De regresso vi que afinal na bolsa junto a presa dos barulhos e feitiços, pastavam mais de uma dúzia de vacas e cavalos, o que me explicou o barulho que ouvi.

Creio que teriam ido beber, ou algum animal no cio, formava luta e correria.

A pedra que pareceu mulher lá estava lá estava, e mesmo de dia pessoas com o olhar bulido se podiam enganar.

Mas verifiquei bem que era uma grande pedra; ao mesmo tempo pensei no susto que tive, e se eu deitasse a correr, depois iria afirmar que era coisa rui que por ali andava.

Falando com meus colegas ria-me dos ditos, dos milagres na mente da gente tímida, e que afinal quem ganhava era o padre que arrecadava as grandes promessas, feitas e pagas por gente simples e cheia de medo.

Ora as beatas na confissão lhes contavam o que eu dizia, e que não queria crer nas (dominus bobiscos) que o padre cantava.

Então este queria se vingar, e denunciar-me como comunista; coisa que eu não sabia o que era ser comunista, mas o que diferenciava a verdade da mentira hipócrita diferenciava.

Valeu-me neste caso a minha hipocrisia, e entrar para escuteiro numa freguesia vizinha.

Assim ele não me podia denunciar como herege, e perigo para o regime Salazarista, de quem o padre de minha freguesia era um bufo.

Verdade que eu ate gostava do padre onde eu era escuteiro, pelas histórias que contava que dizia se ter passado com ele.

Um dia contou que fez a confissão das crianças da primeira comunhão, e perguntou a uma se ela sabia onde estava Deus.

A criança logo respondeu, Sr abade Deus esta naquela (casotinha) no altar... o padre riu e disse; sabes Deus esta em toda a parte a nos ver.

A criança perguntou; então também está no nosso forno?…

Então, disse o padre, eu respondi que sim... logo a criança, eiiiiiiii que mentira que nos nem forno temos.

Outra história que eu não esperava do Padre.

Contava ele... uma noite um senhor principiou a sonhar, que voou muito alto e chegou ao céu... ficou admiradíssimo com tanta beleza e musica suave.

Então tocou e lhe apareceu São. Pedro que lhe disse entra, entra meu filho, anda ver a vida dos homens na terra.

O homem entrou e o que viu não o deixou impressionado... eram milhões de lamparinas de azeite, e São Pedro lhe diz, isto representa a vida de cada um na terra, as que tem muito azeite vão durar muito na vida, as que tem pouco estão quase a morrer.

O homem convenceu São Pedro a dizer qual era a dele... coitadinha estava próximo de se apagar, de tão pouco azeite.

São Pedro diz, este é da tua sogra e esta.... ele olha, e viu a lamparina da sogra que estava cheia... S. Pedro continuou, este pertence... mas ele não quis saber mais nada... toca a molhar o dedo na da sogra e a escorrer da dele, molhar no da sogra e escorrer na dele... São Pedro olhou para trás viu... deu-lhe um berro... o homem acordou com o pinico na mão, molhando e escorrendo na boca da esposa, molhando e escorrendo na boca da esposa.

E assim foi passando minha juventude, até me casar, já passava dos 26 anos, sem nunca deixar de ouvir lentas histórias das mouras encantadas, bruxas e feitiçarias...

Mas nunca fui senhor da verdade... em todo o caso, vivia muito mais afoito, mas sempre na dúvida, até que...

 

(No próximo capitulo VI - Mau Olhado)

Por: Armando C. Sousa