|
Da Meninice à Velhice IV
Medos
e Realidades
Leitores
e amigos,... como disse no ultimo capitulo, que poderíamos
falar dos medos à realidade.
Verdade
o que vos disse a respeito do largo, esse, era o lugar palco de
todas as coisas, dos grandes acontecimentos, até aos mais
dilacerantes gritos da desgraça.
Ali
se principiava namoros e se discutia casamentos.
Ali
nasceram os grupos de teatro, que desapareceu com o desenvolvimento
e o aparecimento do cinema, mas o de futebol, ainda hoje existe,
este com o nome de Ruivanence Atlético Clube.
Como
posso dizer, dali, os meninos se faziam homens, e os mais afoitos
se faziam correr como meninos.
Do
lugar do calvário ao lugar de O’res se atravessava
um lugar muito escuro e com má fama. de aparecer o diabo
aos mais valentes.
Um
dia, um desses afoitos parou, para beber meio litro de vinho na
tasca da tasqueira no calvário, dois malandoes logo pensaram
de o fazer correr, esse lugar era chamado areal, caminho muito estreito
com pinheiros e eucaliptais muito cerrados.
Ora
os dois pegaram num atilho (corda
muito fina que se usava para os liças dos teares)
e o ataram no alto do eucalipto junto ao muro, ao passar o tal valentão
puxavam o eucalipto até chegar ao chão, do outro lado
o outro amigo fazia o mesmo, não tinha subido a lua, não
havia vento, apenas aquele encarrapito no silencio da noite, dava
um tom sinistro, a um ser sozinho e com todos os diabos na mente,
deu acorrer, e só parou no largo onde estavam colegas a conversar,
pouco depois apareceram os dois que faziam o eucalipto bater com
as ramas no chão, e contaram o sucedido, para confirmar,
que os medos devem ser confirmados antes de iniciar boatos, sobretudo
não ter medo porque todas as coisas tem uma explicação
muito natural.
O
valentão ficou envergonhadíssimo, mas todos prometeram
de averiguar os factos, mesmo com os cabelos tão erguidos
como de um porco espinho.
Foi
ali naquele largo que se organizaram as primeiras festas não
religiosas das freguesias vizinhas, e diga-se de verdade o povo
estava sequioso que isso acontece-se.
Mesmo
contra as pregações d6s *adres das freguesias vizinhas,
juntaram-se muitos milhares de pessoas...e os padres que teimaram
de rezar o terço a mesmo hora fizeram-no de igreja vazia.
Mas
vamos falar dos medos e das realidades... o meu aprendizado de alfaiate
durou quase até aos catorze anos... tempo em que minha mae
quis que eu fosse trabalhar para tecelão, assim fiz meu aprendizado
na fabrica da Santa Ana, ficava a seis quilómetros da minha
aldeia.
Eu
como toda a gente vivia na duvida de ser ou não ser verdade
muitas coisas, mas sempre procurar rectificar antes de correr e
iniciar boatos de lobisomens, fadas, bruxas, diabos ou corredor
do fado.
Verdade
amigos, eu ouvia falar, mas não conhecia nada destas coisas,
mas se anda-se de noite sozinho, ao mais pequeno barulho me arrepiava,
e tinha de ganhar coragem e forca para verificar o que acontecia,
por vezes quase desejava de as ver, ou ter uma certeza que tudo
era mentira.
Um
ano no principio de Outono, faltou a água nas albufeiras,
a electricidade quase totalmente vinha da forca da água,
como esta não chegava para toda a industria, foi dividida
em turnos.
Onde
trabalhava, entrava-mos, quatro da manhã, e saíamos
ao meio-dia.
O
caminho muito estreito e escuro derivado a muito pinheiral, eucaliptais
e vinhedo cobrindo o caminho.
Sempre
caminhava com minha irmã e uma outra rapariga, que vinha
com sua mãe, do lugar do Calvário.
Um
dia essa moca demorou, e minha irmã decidiu esperar mais
um pouco, talvez tivesse adormecido, mas deveria vir.
Eu
decidi de ir andando, depois de atravessar a aldeia lá ia
eu cantarolando para espalhar minha mente de tudo que ouvia falar,
mas na realidade eu era muito afoito, e procurava a certeza para
sossegar meu pensamento.
Noite
escuríssima, ao passar ao cruzamento de Pé de Vila,
bati com os socos em qualquer coisa e me queimou o pé...
era um defumadouro para arredar mãos olhados invejas ou diabos,
o cabelo se ergueu, mas logo acalmei dizendo com meus botões.
Pobre
mentalidade... e logo para me dar coragem disse alto, venham lá
os cabrões dos diabos, mas nada surgiu, e eu segui já
mais descansado.
Não
tinha andado 500 metros, ouvi o milho a rugir, e logo por entra
as pedras que dividiam o campo, sair uma coisa que passou entre
minhas pernas, e logo outra (maiorzinha), volto a me arrepiar, mas
logo ouço xi...xiiii xiiiiiiiiii.
Ri
de mim mesmo, e fiquei logo sossegado, logo me lembrou ser uma raposa
atrás dum coelho quando este fez xiiiiiiiiiiii... certeza
que se isto se passasse com algumas mentes fracas, tinham corrido
a bom correr e inventado historias do diabo por estar presente o
cemitério, lugar onde se dizia que por ali paravam os maus
espíritos.
Este
era cemitério da Freguesia de Delaes um dos mais airosos
da redondeza.
Fiquei
muito mais ciente que os ditos e lendas eram naturalmente cridos
pela mente enfraquecida dos homens.
Depois
destas peripécias segui com tranqüilidade para meu dia
de trabalho.
Minha
irmã e a moça como vinham atrasadas correram pelos
atalhos para chegarem a tempo da hora de entrada.
Este
foi o acaso e a naturalidade, para eu me rir sobre muitas histórias
contadas por meus colegas, e fui acumulando a ideia que não
existia diabos, e que os padres mentiam a fazer a oração
no fim da missa.... para que nos livre dos espíritos malignos
que vagueiam pelo mundo para perdição das almas.
No
próximo capitulo...
(Acentuação das Dúvidas)
Por: Armando C. Sousa
|