Da Meninice à Velhice III

Minha Adolescência

 

Nesta continuação vamos falar do meu lugar e das lendas que aterrorizavam as gentes.

Ainda era criança, mas adorava ler, meu pai tinha sido, um dos mais letrados do lugar, e primeiro Presidente do sindicato têxtil, eu me orgulhava muito, e também queria aprender e saber.

Morreu de antraz, quem sabe se o motivo fora movido por ódios de partidos?
Nesta minha tenra idade de 11 anos ouvia maravilhas a seu respeito.

Então os livros que restavam no pequeno armário, para mim eram um refugio; devorava-os, e repetia-os... soube depois por minha mãe, que uma grande parte dos livros que formavam a pequena biblioteca da família Sousa, os tinham roubado, quando do enterramento de meu Falecido Pai.

Nesse tempo, segunda guerra mundial estava em ponto alto, entre os aliados e os Alemães, eu procurava ler todos os pedacinhos de jornal, que encontrava, ia mesmo para a taberna para ler o jornal, o que me valeu alguns safanões e pontapés.

Manuel Faria o Alfaiate muitas vezes disse, porque este não ter Pai, abusais, e resolveu, este assunto; principiou a obter o Jornal para que ele eu podássemos ler na oficina sem ter problemas com os Homens sem consciência do lugar.

Bem cedo pediam minha opinião sobre Hitler e sobre Salazar, este ultimo considerava-o chapéu de três bicos, usando medo e mentira para governar, deixando seu povo morrendo com fome e doença, sobre isto poderia escrever bastante.

Posso dizer-vos que nesse tempo alastrou por todo o Portugal a (varíola negra) que matou e marcou dezenas de milhares; a Febre tifóide foi outra grande peste que atingiu meus dois irmãos, muitos milhares morreram.

Sobre Hitler dizia, ele está errado fazer guerra com a ambição de obter uma raça única...

Creio que só haverá paz quando todas as raças se misturarem, se tratando todas como humanos, assim vençam as diferenças de religiões, que diga-se a verdade, nesse tempo muito pouco conhecimento tinha das mentes poluídas que ameaçam destruir este paraíso, e aniquilando a raça humana.

Nessa idade, claro que ia assistir a missa, mas nada percebia, porque era recitada em latim; em maio gostava de ir ao mês de Maria para vir na brincadeira ou cantar com as raparigas na volta á aldeia, isto sem nunca me impressionar com o mistério da religião tão fácil de desvendar.

Tudo rodava a volta do medo... com medo do inferno vinham lendas, de diabos, moças a correr o fado, se nascer sete raparigas de um casal, uma correria o fado, numa hora teria de correr sete montes, sete fontes, sete pontes, sete encruzilhadas, e sete portelos de Cão.

Outra lenda que deixou gago o Sr Ernesto Casemiro, era a do penedo da fraga do monte S. Miguel o Anjo... penedo de que falo no conto (Picota de lagrimas) e ainda (Lá longe)

Ainda havia os ditongos de que andar de noite sem lume atrairia o diabo; neste caso muitos que fumavam, com um cigarro acendiam outro para afugentar o diabo, quem não fumava quantas vezes tinham uma (churrasca) que acendiam para fazerem a caminhada.

Lendas dos maus olhares, que deveriam ser combatidos com um defumadouro, e deixado a arder numa encruzilhada.

O próximo que passasse pelo defumadouro ficaria com o mau olhado... o defumadouro eram brasas num testo de barro com alecrim arruda bugalhos e cascas de alhos, umas pedrinhas de sal, e pronto, as bruxas metiam o dinheirinho ao bolso, diziam que seria pelas rezas que fariam ao tirar o cálix do sacrário ao celebrar a missa.

Os crédulos e medrincas, pagavam bem as pêras e andavam sempre a tremer.

Outra lenda era de quando uma mulher dava a luz, teria de por as calças do marido, cruzadas nas costas, até se realizar o baptizado do recém nascido.

Outra ainda seria de fazer um jantar com uma galinha preta, para a sorte permanecer na família.

Outra lenda seria de levar as crianças ao mar, dar uma galinha preta ao São Bartolomeu e fazer-se mergulhar sete vezes nas ondas que surgiam.

Claro, quem ganhava era o padre, a galinha preta era vendida dezenas de vezes.

Outra lenda era que uma mulher que amamentava poderia ficar sem leite... e logo se dizia que foi a gata que o roubou a comer alguma espinha dessa mãe.

Então o remédio seria fazer uma sopa com minhocas e o leite voltava... amigos; vi minha mãe a fazer essa sopa para minha irmã.

Ali naquele largo se falava de tudo, e os que se diziam mais afoitos, organizavam sempre partidas para os fazer correr e tremer.

Uma das vezes um que se dizia sem medo, trabalhava no turno que saía as duas horas da manhã, então o esperaram ao passar ao cemitério, e de cima dos ciprestes atiravam pedras de pólvora a arder... o valente corria a bom correr com medo dos espíritos malignos que andavam a solta; isto claro na sua mente, ao ver o lume a cair...

Eu vivia na dúvida, dias afoito, dias com medo... o medo desapareceu completamente... como vos conto no meu poema (Diabos Atados)...



Espero que tenham tido boa leitura...

Próximo numero será sobre medos e realidades

Por: Armando C. Sousa