| Da
meninice à velhice II
Meus amigos e familiares, como vos deveis
recordar deixei ficar o gado no campo do corgo, Para castigar o
malandro do lavrador te ter dado com a soga que me pisou o rabo
e me ter castigado em ter de ir para acama com meia sopa de nabos,
sem pão.
Corri
sempre com medo que fosse cace, mas também tinha medo do
castigo de minha mãe que apesar do mimo que me dava gostava
de ver as coisas direitas e sem prejuízos.
Sabia que iria levar uns safanões, mesmo assim seriam muito
mais suaves a soga que me pisou bem a ponto de não me poder
sentar.
Minha
mãe ficou surpreendida por eu correr tanto e esbaforido,
uma distancia de sete quilómetros e quatro deles sempre a
subir.
Minha
mãe sentou-se comigo e quis saber o que se passara... desci
as calcas e lhe mostrei o traseiro negro, dizendo foi o velho do
lavrador por eu trazer as vacas e boi mais sedo do campo, mas eu
não tenho horas, e ouvi um assobio como me tinham dito e
vim, e ainda só me deram meia malga de sopa de nabos sem
pão...
Mãe,
peguei nos socos e no casacinho e vim com o gado... deixei-o fechado
no campo e corri ate aqui, sei que a Mãe me vai castigar,
mas será muito menos que levar com a soga.
Minha
mãe abarcou-me cobriu-me de beijos, misturados com muitas
lagrimas, dizendo não filho, não serás castigado,
existe aqui o mesmo cantinho, e o pão será menos uma
migalha a cada um, além disso preciso duma companhia para
ir apanhar caruma ao monte... (caruma eram agulhas de pinheiro)
o vizinho alfaiate ao saber do caso, ria-se, e pediu a minha mãe
para me deixar estar com ele a aprender a alfaiate, mas só
depois da páscoa me daria ordenado, mas me daria alguns tostões
para meus lápis e papel, já que gostava de escrever.
Este
Sr. pertencia a um clube de teatro, pediu a minha Mãe para
me deixar ir, para fazer o papel de Carriça no Filho Pródigo,
e também de pequeno diabo, na Morte de Abel, este Alfaiate,
era o responsável de me levar aos ensaios e trazer a casa...
Tenho
saudades do Alfaiate, Manuel Faria, que tantas vezes às escondidas
me dava alguns escudos, indicando-me sempre o caminha da honestidade.
As
noitinhas de pois de regar as Plantas, havia minha mãe a
deitar o terço, reza antes das trindades... ao deitar o terço,
depois de um padre nosso, perguntava... já deitaste de comer
aos coelhos?... mais uma ave Maria... e tu Carolina já foste
buscar água para o almoço?
Depois
de uma glória, e Manuel tu já solastes os socos, parece
que os vi um pouco usados?
Muitas
vezes meu Irmão Manuel ja estava na brincadeira com os colegas
no largo vizinho aos chutos nas bolas feitas de farrapos, ou jogando
a malha com outros maiores.
Ali
naquele largo, que ficava a vinte metros de nossa casa, era o centro
onde se juntava toda a rapaziada da aldeia.
Era ali que aos domingos ao som de uma viola ou concertina se dançava
ate as pernas tremer, e era ali que os mocos combinavam as maiores
malandradas, ou façanhas.
Para
nós mais pequeninos, era ali que se iniciavam as corridas
de arca, ou se jogava ao eixo (moscamuscada) jogo de perícia
e de saltar ou o pião, mesmo a bogalhinha, ou ao bicho.
Era
na escadaria do pátio do Franklim que se contava as mais
belas historia, e as mais rudes, de meter medo mesmo nos sonhos.
Era
ali que se falava dos diabos a solta, dos sítios onde aparecia
o diabo, desvendavam o lugar onde aparecia gatinhos que vinham tamanhos
de cavalos, deixando-nos todos a tremer, era naquele lugar que as
lendas cresciam, tornando-se em histórias de terror.
Foi
ali naquele lugar que o padre chamava rua da amargura, que principiei
a duvidar de que no meio de tudo, havia muita mentira.
Na
minha mente principiou a luta; verdade e religião; minha
mente dizia que a religião, era uma maneira de negócio,
e uma maneira de controlar as mentes fracas e doentes com o medo...
o dinheiro entrado nas caixinhas dos santos, tornavam os padres
riquíssimos... depois usavam o pecado, mortal e o diabo para
aumentar o medo, e tudo revolvia a volta desse medo e dos espíritos
malignos, e das historias avassaladoras, reforçadas pelas
orações no fim da missa... pai nosso... para nos livrar
dos espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as
almas...
Se
não pagares tua promessa, serás excomungado... e as
confissões principalmente das mulheres?... como se fosse
um grande tanque onde a pessoa caia e ficava lavada.
Eu ainda não sabia o que era, e ele a perguntar se eu já
as fazia... bradava aos céus.
(Próximo capítulo III)
Minha
Adolescência
Por:
Armando C. Sousa
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