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Da Meninice à Velhice X
Mais
Três Filhos
Meus amigos,
poetas, escritores e familiares... estes escritos como disse, nunca
tiveram a intenção de descrever os meus dias de passagem
por este jardim criado pela natureza e completado pelos homens que
de tanto querer fazer o vão destruir.
Queria
apenas relacionar o medo e as coisas naturais que causam o medo.
Este
medo que pode ser doença para dissolver os átomos
celas mais sensíveis de nosso pensamento que podem ficar
como um disco arranhado, ou ainda pior, como um moinho que em vez
de fazer farinha apenas poder triturar o grão.
A
verdade é que minha esposa saiu desta reciclagem ainda mais
mulher, disposta a enfrentar um outro mundo muito mais exigente
e inteligente do que aquele em que vivíamos em Portugal.
A
vida melhorou drasticamente com muito trabalho em França,
passamos a não dar ouvidos as coisas da igreja; éramos
cristãos não praticantes.
Apenas
um dia ainda com a mania no exibicionismo viemos a Portugal ver
a família, mas para fazer figurar na procissão do
Senhor dos Passos em Ruivaes, minhas três filhas, como as
figuras das três Marias.
De
passagem deixai-me dizermos que foi a ultima vez que abracei e beijei
minha mãe.
Em Franca minha esposa deu a luz mais uma menina, que lhes foi dado
o nome de Marie France, e deixai-me dizer-vos que estava em prefeita
saúde, e ciente de que queria um rapaz, mas veio outra rapariga.
Aqui
a concordata, e o governo, meteu mais uma cavilha nas minhas relações
e a igreja e a ditadura não autorizaram o nome dado na pia
do baptismo a minha filha para o passaporte, foi-lhe modificado
o nome para Maria Franci.
No
Canada, nasceram mais dois rapazes que elevaram a família
para o lindo numero de seis filhos.
Mas
éramos felizes e com responsabilidade na sua criação,
com limpeza sem fome nem necessidade de coisa alguma... apenas eu
teria de ter responsabilidades no trabalho.
Principiei
a trabalhar numa pequena companhia onde trabalhavam só conterrâneos,
terrivelmente habituados a hipocrisia para sobreviver.
Eu
não podia trabalhar em semelhante ambiente onde o sócio
encarregado dava as mãos a cerveja e hipocrisia.
Um
colega mineiro sabendo do ambiente encontrou um trabalho para mim
na (Denisao ) mina.
A
1.500 metros no fundo da terra, se extraia o material mais mortífero
que faz rolar a ciência e o medo da liquidação
deste planeta... o Urânio... ali se fartasse a pequena luz
que trazíamos no chapéu ficávamos em total
escuridão, a mercê de todos os pensamentos que nos
infringiram desde criança.
Os
Deuses cresciam descomunalmente, os diabos formavam-se em batalhões
a todo estouro da pressão da pedra, ou pressão de
ar nos canos que faziam trabalhar os martelos.
A
mina era enorme, com mais de 400 quilómetros de túneis,
toda a coragem e todo o cuidado era pouco, o perigo nos espreitava
de cima, estávamos no fundo da terra onde nos ensinaram que
ficava o inferno... sendo verdade, trabalhava no meio dos diabos
.
Estremeci algumas vezes mesmo sabendo os motivos dos estouros, mas
minha mente se povoava das coisas terríveis que a crença
que estava entranhada no pensamento povoava o ambiente.
Um
dia meus filhos e esposa apareceram no meio de toda aquela confusão
de medos e tremuras, parei um momento, e disse com meus botões,
assim não posso trabalhar e ganhar o pão para meus
filhos, tenho aqui deuses e diabos a barrar-me o caminho e fazer
o contrario do que venho pregando.
Estava
enchendo uma (raiz) era um poço onde os camiões vinham
encher de pedra partida.
Então num gesto calmo como se fosse verdade agarrei dois
diabos e atei-os pelo rabo, e zaz dentro do poço, e logo
pedras para cima.
Neste
momento foi deus que me veio a memória, com todos os castigos
e promessas, e pego nele e atiro-o no poço, e disse, não
quero mais que me apoquentes, preciso trabalhar aqui para ganhar
pão para meus filho.
Pensarei
em deus, mas não nesse que vos pintais, pensarei naquele
que nunca ninguém viu, mas criou todos os microorganismos
donde viemos.
Vós
não me apoquentais mais, ou entrais outra vez no fundo do
poço... Amigos e poetas, foi hora em ponto, nunca mais quis
saber nem duma coisa nem de outra, vivi o resto do tempo sem estremecer,
mesmo as coisas aconteciam se tivessem de acontecer...
Um
dia estava sentado numa pedra com o colega a tomar um copo de café,
de momento um estrondo uma bola de lume, uma pedra saída
da pressão do gás. tinha atingido meu colega numa
perna, deixando-o em mas condições.
Tive
de o descer as costas por uma escada de madeira bem estreita, leva-lo
para estação e telefonar para vir a ambulância.
Eu apenas fui atingido com um pequeno fragmento numa perna.
Trabalhei
no fundo durante dose anos, outros tantos a cima com uns pequenos
problemas de acidentes.
Alguns
de meus colegas morreram e outros contraíram (celicause),
celica no fundo dos pulmões que os levou a câncer de
pulmões.
Meus
filhos foram educados na religião católica ate fazer
sua confirmação, depois lhes cortei as amarras nas
asas...são livres como passarinhos, sempre em vôos
altos mas muito perto do ninho.
Em
poucos dias completo 74 anos, ainda cheio de vida, deixo escrito,
um dia que eu feche os olhos para o ultimo repouso, as minhas cinzas
devem ir alimentar a natureza que me criou, daqui mais uma vez vos
digo, vossos deuses e diabos são o medo de morrer, mas nem
por isso vos fazem mais prefeitos.
Com
mais este capítulo procurei explicar as coincidências
dos deuses, dos diabos e dos medos, que tem em tudo uma explicação
bem natural... sem milagres nem castigos.
Por:
Armando C. Sousa
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