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Da Meninice à Velhice
Tinha
apenas cinco anos quando meu pai morreu, não amigos, não
tinha o sentido da perda, mas quase logo senti a falta de sua mão
sobre meus ombros ou minha cabeça.
Perguntei a minha mãe? Onde esta o pai!?
Ela
respondeu a chorar; teu pai não volta; talvez esteja no céu...
Logo odiei o céu, por me levar meu pai adorado.
Perguntei
a minha mãe onde era o céu, pois o queria ir buscar
de volta.
Então
ela se sentou, sentando-me no seu regaço, com beijos me disse,
dizem que existe o céu, mas na verdade daqui para baixo,
onde teu pai foi enterrado, pois não poderia ficar aqui a
empestar, ou daqui para cima onde o sol e a lua, pousa seus raios
de calor, ou os reflexos de prata, que por vezes trazem o medo nas
suas sombras, nada sei.
Apenas
te digo filho, estamos em maus lençóis, sem pão,
e sem dinheiro.
Logo
me mostrou os púcaros de pingue vazios, a salgadeira sem
carne, e a masseira sem pão; teus irmãos com menos
de dez anos, tua irmã com doze ainda não arranjou
emprego, não sei como sobreviver...
Logo
o padre proibiu minha mãe de ir a igreja enquanto não
pagasse a oferta, as bulas e os indultos; minha mãe não
tinha um tostão e chorava, chorava, e nos chorávamos
com fome, comíamos alguns bocados de pão que os vizinhos
nos davam, as calças e camisa, eram só remendos e
buracos, meus irmãos não tinham lápis para
a escola, minha irmã deixou a escola para dar os livros a
meus irmãos, eu estava na idade de entrar na escola, mas
não podia ir descalço e sem livros.
Minha
mãe e meus irmãos me ensinarão a escrever as
primeiras letras no chão do terreiro; minha irmã tinha
ido trabalhar, depois meus irmãos, a levar picos ao ferreiro
para aguçar, e ganhar uma miséria de um escudo por
hora.
Minha
mãe me deu umas sandálias de pano azuis e fui para
escola, assim, ja podia ir a igreja, mas porque não engatava
aquelas ladainhas, que para mim não faziam sentido, levava
canada e uma galhofa dos colegas, depois tudo engatei sem saber
o que toda aquela palhaçada queria dizer, meus colegas não
eram melhores que eu, apenas mais hipócritas.
Vivíamos
na mais terrível ditadura e no meio da segunda guerra mundial,
onde Salazar era um chapéu de três bicos, não
havia guerra, mas este governo exportava nosso pão.
Este fez uma concordata com a igreja, e os padres eram os maiores
informadores da PIDE e muitos amigos meus bateram com as costas
no Limoeiro no tempo de minha adolescência.
Tive
medo do padre da freguesia e entrei para escudeiro na freguesia
vizinha, era como uma manta para me defender da mentira e maldade
do padre da minha freguesia.
Sim,
verdade! Fui hipócrita, mas era minha única defesa
contra a mentira poderosa dum padre malvado.
Se
trabalhava... sim desde os sete anos fabricava todos os cantinhos
do quintal com minha mãe para ter feijão batatas e
couves para matar a fome.
Fui
servir aos dez anos para o lavrador vender milho a minha família,
o que não o fez nas duas semanas combinadas.
Então
tive ordens de ficar ou vir outra vez para casa... mas nesse dia
senti a soga pisar-me o corpo, com medo mijei mesmo na cama.
De
manha cedo teria de levar o gado para o campo do corgo, campo com
um grande couval para ser vendidas as couves pelo natal, duas semanas
depois.
Verdade
o gado composto de 13 cabeças entraram no campo, fechei-o
com a cancela e corri para casa sem para; o destroco foi visto ao
meio dia quando me levavam a côdea de pão rapado.
Então, com ainda 10 anos e meio fui para ajudante de alfaiate,
coisa que ainda hoje sou eu que ajeito minhas calças ou prego
botões.
Depois
fui tecelão, fiandeiro, Ajudante de electricista, em França
fui mação e chefe de equipa de (cofragem), formas
para cimento sem nunca deixar de ser honesto, dar meu sangue pelos
colegas de trabalho, e o rendimento para que os superiores tivessem
orgulho de me acarinhar como trabalhador, procurei aprender com
as poucas possibilidades que tive na escola e na universidade da
vida...
(A seguir: Meu Medo)
Por:
Armando C. Sousa
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