Carta
Lida no Paraíso


Perdoa-me mãe, por ter passado tanto tempo sem te poder abraçar, sem te beijar, sem poder banhar minha alegria no teu sorriso brando e te dizer. Mãe, tantas vezes tiraste pão de tua boca para calares meu choro, já eu era grandinho.

Em pequenino, tantas vezes adormeci de cabeça encostada a teu seio, talvez mamando de teu sangue.

Depois que o pai morreu, não tinhas trabalho nem dinheiro, vivíamos numa ditadura sem complacência, com nos vivia a fome e a piedade.

Tu Mãe, querias que eu moldasse a chave que abriria todas as portas, mas não tinhas dinheiro para me dares lápis e cadernos, contigo aprendi as primeiras letras escrevendo no chão do terreiro.

Desde criança que aprendi contigo a fabricar todos os canteiros do quintal, para termos couves feijão e batatas e alguns graeiros de milho para engordar a sopa.

Amava-te mãe, mas tinha 26 anos e sentia a necessidade de homem e faltava-me o carinho de uma mulher. Casei-me Mãe, deixando o casulo que me fez homem.

Os filhos chegaram, o pão cada vez era menos para os criar.

Imigrei para França, para poder ter mais pão para a esposa e filhos.

Sim Mãe, os princípios foram duros, mesmo muito duros, mas sabias que só a força de vontade e fé seria capaz de vencer; essa força nunca me abandonou.

Abraçamo-nos quando vim buscar esposa e filhas a Portugal, outra vez Mãe, te apertei e beijei quando viemos de França para tuas netas e minhas filhas figurassem de três Marias na Procissão do Sr. dos passos em Ruivaes; meu torrão natal.

Mãe, fascinava-me tuas palavras quando me dizias que no Canada não cantava galinha nem galo, era como um imã com extraordinária força que me atraia a estas paragens onde me encontro.

Queria ver o sol da meia noite de que tu me falavas... queria ver o porquê, quando os Primeiros Portugueses que por aqui passaram, disseram (cá nada) o que originou o nome CANADA...

Mãe como sabes tenho filhas nascidas em Portugal, uma filha nascida em França e dois meninos nascidos no Canada... nossa casinha é grande que chegue, seria um gosto enorme ter-te junto a mim a ti Mãe, tu que fizeste de teus peitos vida para me amamentar, goste de minha esposa seria ter uma vozinha para nosso filhos junto a nós, e meus filhos, e de meus filhos ter alguém em que se refugiar...

Mãe por favor, e pelos anjos diz-me que vens... os bilhetes para o avião seguira na volta do correio...

Beijos e abraços para todos irmãos cunhados e sobrinhos, para ti mãe recebe todos os beijos com que me cobrias quando o medo me invadia originado muitas vezes pela perrice... esperando ansiosamente que me digas que vens para esta terra fria, onde o calor dentro de casa e de amor. Juntos um dia, iremos ver o sol da meia noite...

Abraços muitos abraços Mãe... na volta do correio espero um sim.......

Deste teu filho Armando.


NB. Dias passados antes desta carta lá chegar recebi telefonema que minha mãe tinha morrido, a carta voltou. Talvez que minha mãe a tivesse lido no Paraíso...

Por: Armando C. Sousa