Anos D'ouro

 

Naquele dia princípios de outono, as árvores estavam ficando com as folhas amarelecidas pelo tempo, anunciando os fins de suas vidas.

Com uma brisa suave, muitas delas rodopiavam vindo cobrir a relva ainda verde do parque.

Alguns ninhos já se viam a descoberto, os passarinhos tinham voado deixado ao sabor do vento aquele berço, construído com tanto ardor para receber os ovinhos, que se tornaram em lindos e esbeltos passarinhos.

Naquele dia, Alcino caminhava lento com sua bengala, mas sem nela se apoiar; debaixo do outro braço o jornal.

Na pequena vila onde Alcino durante uma parte de sua vida ganhou seu pão a mineiro, era conhecido como homem entendedor e amigo de seus amigos, mas o destino o tramou, dois filhos que quiseram ter uma formação no exército, parte de sua vida andavam em missão de paz.

Com os conhecimentos de seus filhos, sua filha em quem Alcino tinha esperança de manter a solidão muito longe de seu ser, ela também se casou com um homem do exército.

Movendo-se de missão em missão, e ela sempre o acompanhava, por duas razões, seu marido precisava dela, e ela dele precisava.

Alcino, sem ser um velho carcaça, enterrava-se nos anos, depois que sua esposa foi arrebatada à vida, pela terrível doença de câncer de mama.

A operação foi muito tardia, depois de seis meses de espera, sem tratamento de radiação devido à falta de meios pessoais, e de conhecimentos políticos na cidade em que se alojou depois da mina de urânio onde trabalhava ter fechado enchendo mais de 400 kl de túneis com água.

Tudo isto é inacreditável, mas é o preço que a pobreza tem de pagar, juntamente com falta de convivência com gente no devido lugar, os nossos políticos, estão mais interessados em se promover a si mesmos de que na saúde de seus constituintes...

Alcino localizou um banco no parque, onde o sol era filtrado por entre as folhas que ainda restavam nas arvores.

Sentou-se quase a meio do banco, depondo a bengala a seu lado, entranhando seu ser na leitura nas noticias que o jornal do dia trazia.

Estava muito absolvido quando uma vós feminina soou a seus ouvidos, dizendo, chegue-se para lá benzinho, quero mastigar umas codinhas que trouxe da terra, a voz soou não estranha, mas sem a reconhecer; Alcino fitou a mulher que lhe falava com autoridade e determinação, e respondeu eu conheço-a de algum lado Sra.???

Sim conheces-me, talvez desde o enterro de meu marido, que morreu na mina entalado por um caminhão que rebentou a mangueira de ar dos travões.

Não me digas que vens do Norte também das minas de urânio!?...

Sim, venho; e vim trabalhar para uma casa como criada de crianças, mas o patrão era mesmo como um caranguejo com mãos para todos os lados, ou por outra era um porco com mãos de polvo, e então estava para ferver o leite quando ele estendeu os tentáculos ao meu traseiro, não teve mais nada dei-lhe com o tacho na testa deixando-o marcado com um limãozinho.

Peguei na minha bucha e no meu saco e sai, agora se queres comer comigo come, porque este banco irá ser meu quarto, e minha cama esta noite.

Alcino olhou para a Maria Zebrina, abanou com a cabeça dizendo; mulher, isto aqui não é o Norte Oeste do Ontario, não te quero ver morta ou no hospital amanhã.

Se queres podes ter um quarto na minha casa... ela respondeu morreu o meu marido e gostava da porradinha com ele, mas não sou uma puta.

Eu também não te estou dizendo isso, mas se queres ter um quarto para remediares o tempo que quiseres, estou te a oferecer de bom coração, talvez em troca dum serviçozinho... ela levantou-se e já ia com o saco, Alcino ergueu a bengala para se defender e disse; o que quero dizer por me passar uma camisa ou um par de calças, Maria Zebrina olhou de cima a baixo o Alcino, dizendo afinal tu não és assim velha carcaça, com jeitinho...

Dizendo, olha, se te desfizeres desta bengala, pondo o pé em cima do banco o Alcino tremeu olhando as saias, e Zebrina dum lanço rápido partiu a bengala.

Maria depois de comer a bucha deu a mão a Alcino a judiando-o a levantar-se do banco.

Bom, até tua casa servirei de bengala, se não poderes caminhar deita a mão sobre meu ombro, que ainda posso contigo...

Mas Alcino parecia ter deixado os anos e o reumatismo encima do banco do parque, naquele dia.

Um ano mais tarde, e num passeio meu às Caraíbas, num aeroporto de uma das ilhas vi Alcino tirando uma criança dum carro de bebê, e entregando o bebê a Zebrina, dobrando o carro estalando-o no tronco do taxi, e desapareceu, com a Maria Zebrina, talvez gozando os anos d'ouro depois que foi a dureza de sua vida de Mineiro.



Por: Armando C. Sousa