Remexer na Minha Infância


Depois que minha máquina cerebral principiou a gravar sonhos, e a ensacar dissabores, meu corpo franzino principiou a sentir o que era fome, o que era frio, o que era falta dum pai, principalmente o quanto necessário seria o saber.

Desde desse tempo o sonho de ter papel e lápis para escrever e aprender, enchia minha ainda pequenina mind.

O ter de principiar a escrever na areia e nela aprendendo, como hoje ainda vejo tantas crianças em países africanos a fazer o que eu fazia, faz-me remexer no esterco de minha infância, mas isso mais purifica meu ser, e me dá alento para escrever e não deixar impune esse tempo de governos ditadores.

Aqueles dias de jogar o pião, ou o botão, o correr com a roda, de dar topadas nas pedras e sangrar, o cair e rasgar as calças e ficar com medo das conseqüências que talvez sofresse por as ter rasgado, mesmo que as calças tivessem remendo sobre remendo.

Aqueles dias que estive servindo num lavrador para poder ter mais pão e aliviar as dificuldades da família e de minha mãe.

Aqueles tempos de ver a soga no ar para me pisarem o corpo!... Dez anos que eu tinha, que sabia eu, e que defesa tinha nas mãos dum louco, e num país com ditadura?...

Digam-me se deveria continuar a sofrer, pondo tudo no saco e fechar?... Ou se minha vingança esteve de acordo com o tratamento...

O filho tirou-me das mãos do pai para não me dar mais, mesmo assim, tive terríveis pesadelos durante a noite, a ponto de mijar na cama.

Ao outro dia deram-me como castigo guardar seis bois quatro cabras e duas ovelhas num campo, que dum lado tinha um (couval) lindo, para vender pelo Natal para coser com o bacalhau e batatas; do outro lado um naval.

O campo era quase um trapézio, assim eu não podia acudir aos dois lados, sabia que o não podia fazer e que teria a soga a pisar mais.

A minha pequenina mind trabalhou em minha defesa, mesmo calculando os prejuízos que causaria... levei o gado, eram sete horas da manhã, a filha disse-me que me levariam o almoço quando fossem ao naval pegar nabos para vender.

Foi quando eu levei o gado, meti-o no campo e os deixei sozinhos para castigar o sucedido ... corri todo o caminho para casa.

E contei a minha mãe o sucedido; minha mãe disse-me fizeste mal; deverias vir para casa ontem quando te bateram com a soga; mas filho de porca capada não se descapa.

E ai que vou perguntar...? Deveria eu meter tudo no saco amarrar e esquecer?... Ou reciclar e escrever maravilhas com essa tinta que me negaram em criança?...

Remexi em meu lixo e encontrei ouro; o meu infortúnio enraizou em mim a vontade de saber, de aprender, de contar, para que os vindouros se não esqueçam que nada cai do céu; tudo pode vir se nunca esquecer de sonhar, teu sonho envolvera a tua vida inteira.

Não podes meter sonhos no saco do lixo.

Se lá estão retira-os e dá-lhe vida não te importes com os parasitas que lá estão, tu mesmo es formado por milhões de micro organismos; nunca aprendas o caminho para o bar, porque não tem saída, escolhe o caminho das estrelas, mesmo sendo no momento sonho, será realidade no futuro. Veja Júlio Berna.... chamaram-lhe louco, e tudo se tornou realidade... o grande poeta que foi Antônio Pessoa.

Também apelidado de louco.

A mim amigos! Dái-me o nome que quiseres, que eu serei só o que sou, mas se não estou de acordo, não escondo a cabeça na areia.

Foi meu tempo de criar seis filhos, os educar, fazer casamentos, criar netos, de ver a felicidade entrar nos seus lares, de poetar para todas as religiões, pois sem ser ateu, me considero mais agnóstico, procuro o caminha da paz, mas com religiões apenas chega a guerra, e teria de chamar mentiroso a todo o ser que não quisesse crer no que minha mind dita-se.

Procuro ainda o sonho de por tudo que escrevo em livros, para que os vindouros, possam rever um pouco desse lixo que alguem quer esconder ou enterrar; quem sabe encontram tambem o caminho que eu encontrei com o trabalho.

Fiquei sabendo que a chave que abre todas as portas é o saber, o material que a forja é cadernos e lápis, a oficina é a escola, mas o modelo que é o mais importante... sim esse modelo será o professor; mesmo que te pareça lixo agora, veras que vais retirar um tesouro ao abrir ... meu tesouro foi pequeno porque a ditadura não me deixou completar a chave, tive de abandonar a escola com dez anos, para seguir procurando o pão.

Completa a tua chave; amigo! Mesmo olhando e remexendo este meu lixo de criança.



Por: Armando C. Sousa