Hoje é o meu aniversário
06/04/05
Quem haveria de dizer que na minha vida
haveriam de ver passar tantos Papas, todos dizendo que representavam
Deus na terra, fazendo tudo no seu poder para unir as mentes no
seu Deus, mas que tiveram de partir levando sua vida ao poder
da morte.
Verdade! Faço hoje 72 que vi a luz universal, quero dizer
a luz de todos que viram e vêem.
Sinto-me feliz com o destino que alei da natureza me reservou.
Leitores este meu escrito vai mais para aqueles que como eu nasceram
antes do meio do século passado, e que viveram as mesmas
ou quase as mesmas peripécias que eu vivi e sobrevivi.
Todos os de meu tempo se lembram que os carros para nós
eram carros de bois ou vacas ou então de linhas; mas se
um dia passava um pela aldeia, dependurávamos-nos no para
choque até à próxima esquina.
Não existiam cintos de segurança, ou almofadas para
recostar, eram grandes; no banco de traz até se podia fazer
meninos.
Nós éramos os engenheiros dos nossos brinquedos,
mas alguns do mercado eram pintados com tinta bem garrida cheia
de veneno.
Em minha casa não existiam fechaduras. Mesmo as portas
eram seguras com um cravelho de pau, quantas vezes as dobradiças
eram uma tira de couro.
Os medicamentos mais vendidos eram, remédio (das bichas)
lombrigas ou poses vermelho e pente fino para os piolhos; o resto
era chá de cidreira ou flor de mato.
Os detergentes que existiam era Cloreto, e para a roupa sarapintada
das pulgas uma barrela de cinza matava tudo.
Poucos tinham bicicleta, mas não existiam capacetes; a
água para consumo vinha da fonte ou do poço, não
existiam garafinhas de água luso, a nossa maneira de escorregar,
era no penedo grande com uma rama de pinheiro ou um carro ou mota
de pau, sem travões.
Sim aviam alguns arranhões e nem pensos havia, mas com
o rasgar do fundo duma camisa estava o problema resolvido.
Todos íamos para a rua brincar, com a promessa de voltar
ao bater das trindades, e por vezes ainda íamos mais um
pouco batalhar com os morcegos, usando um ramo de pinheiro, isto
nas noites mais quentes.
Os nossos celulares eram um fio e duas caixas, mas mesmo telefone
ficava a dois quilometro de casa, numa estação de
correio improvisada numa taverna.
Quando andávamos ao esconde, esconde, desaparecíamos
da vista.
Íamos para a escola jogando o pião ou de arca e
barita.
Mancos da brincadeira, muitas vezes não havia muletas e
íamos para a escola agarrados a um pau de marmeleiro, ao
meio dia corríamos para casa para comer a sopa, ou se ficávamos
na brincadeira fugíamos ao recreio, com uma fome danada.
Crianças de escola nunca tinham razão, mas na verdade
éramos terríveis; mesmo que os nossos maiores crimes
seriam, o de roubarmos umas maçãs, ou uvas verdes
que serviam de purgante, ou de limpeza de dentes; estes ficavam
duma maneira que não se podia comer por uns bons minutos.
Fugíamos para a brincadeira sempre que podíamos,
mas ninguém tinha problemas com a gordura.
Não havia jogos eletrônicos, mas jogávamos
à barra, ao eixo, á mosca moscada ao S. João
barqueiro, fazíamos corridas, jogávamos com bola
de trapos.
Quando faltava companheiro corríamos para casa de amigos,
mesmo sem bater à porta entrávamos na brincadeira.
Se um de nós tinha um pirulito, era repartido e todos tinham
o seu golinho, e ainda não morri com doença transmitida.
Se nos deixassem, passávamos o dia na brincadeira e só
tínhamos medo da guarda que passava a cavalo.
Ontem como hoje, havia bons e maus alunos, mas ninguém
falava em psicólogos, ou mesmo em ver mal, ou ver as letras
ao contrario.
Havia a hipótese de repetir o ano se aprendia mal.
A liberdade era grande, mas eram maiores nossas obrigações;
desde pequeninos tínhamos de aprender a lidar com as dificuldades.
Aprendíamos a esfregar o chão com o tal cloreto,
a varrer o terreiro e cozinha de terra, regar as plantas com a
água do poço, apanhar as vides da poda, juntar folha
para o ninho do porquinho, ou apanhar landras.
Digo-vos com fraqueza, não sei como consegui sobreviver
e chegar até aos dias de hoje; ao mesmo tempo desenvolver
minha personalidade; apenas com três anos de escola correr
mundo e aprender línguas.
Pensais que era chato viver no tempo de criança?...
Não, não amigos! Éramos mesmo felizes de
pé descalço.
Só não pude suportar ouvir meus filhos chorar com
fome, então imigrei.
Hoje tenho duas Pátrias, mas isso não me torna mais
feliz.
Minha felicidade reside na felicidade de meus filhos e na passagem
de aniversários, quando o sangue de meu sangue se junta
em confraternização.
Por: Armando C. Sousa