Cochicho e Quadrilha

Capitulo 2°


Manhã cedo a barraca militar onde dormia o Cochicho foi cercada, este foi preso, e logo no tribunal militar, foi condenado por agredir a um superior, as causas porque este agrediu o sargento não foram tomadas em conta, nem como atenuante.

O castigo seria grande se os Republicanos vencessem a guerra civil.

Os amigos de Cochicho ficaram indignados, mas nada poderiam fazer, mas sempre que tinham oportunidade atiravam notas e noticias de como os republicanos avançavam, a carta constitucional de 1919 dava poderes à democracia, prevendo-se mortandade e miséria no país, a monarquia iria cair mesmo com o Herdeiro ao trono ainda vivo.

A pobreza era ainda mais castigada pela pressão dos dois lados que não eram mais que hipócritas, e todos queriam o poder.

Dona Justina foi avisada numa nota anónima, que se deixasse de proteger Amélia ou seria punida, mas já dona Justina tinha mandado construir uma casinha pouco mais que um barraco para abrigar Amélia, esposa do Cochicho.

Esta casinha foi construída no monte flor mesmo acima da fonte de Ores num outeirinho antes pouco do monte de S. Miguel o Anjo.

Neste meio tempo um dos amigos de Cochicho ficou de sentinela à prisão, e logo combinou com os colegas, de se tornarem refractários, ao fugirem daquela unidade que fomentava a guerra civil; assim se formou a quadrilha de Cochicho sendo os colegas que o escolheram para chefe pela sua astúcia e determinação e respeito pelas mulheres.

Todos estes refugiados fugiam duma lei que ainda não existia, mas que os obrigavam à força do fogo a fazerem atrocidades sem lei.

Na retirada, armados até aos dentes, não se esqueceram dos mais belos exemplares cavalinos que pertenciam há unidade Militar.

A quadrilha foi se instalar na serra de Vermoim a qual descia para a freguesia de Telhado onde alguns dos mais abastados revolucionários tinham seus passos ou palácios, um destes foi juiz na sua condenação militar.

Havia uma diferença destas quadrilhas, das outras quadrilhas de ladrões, estes roubavam aos ricos, e sempre que podiam assistiam a pobreza.

Quantas vezes pegavam nos seriais em excesso dos lavradores, o sino tocava a rebate e os seriais no adro para a pobreza se servir com a quantidade estipulada, ou o castigo chegava.

As jóias eras distribuídas por gente sem casa, estas entregues ao verdadeiro dono em troca dum pedacinho de terreno para fazer uma casinha. Com o pagamento de foros por ano no preço duma galinha e uma dúzia de ovos.

Os grandes Senhores compilam com essas ordens com medo da justiça da quadrilha, e por ultimo medo da população que crescia em aldeias, e já não eram mais criados desses grandes senhores, minha mãe tinha dois teares de madeira onde tecia mantas passadeiras.
E o mais fino linho, ate que principiou a nascer a industria mecanizada, com a mesma mentalidade de exploração.

Uma noite chuvosa onde o vento tornava em rajadas e assobiava, as folhas dos eucaliptos batiam, tornando-a mais tenebrosa, os passos do senhor de Telhado um dos principais revolucionários tiveram a visita da quadrilha do Cochicho, estes depois de plantar sentinelas nos pontos mais estratégicos.

Constava-se que este senhor usava os espojes da guerra civil a seu favor e dos seus colegas de campanha.

Havia festa rija, o terreiro estava cheio de coches, e os cocheiros dormiam, exepto dois que faziam urgias com duas criadas, mas estes foram bons de dominar e encerrados num dos estábulos, que ali teriam lugar para as coisas mais bizarras.

Os outros, para lá levados também poderiam presenciar a festa ou participar nela...

Os criados de cozinha foram encurralados na dispensa da cozinha, e a sala estava repleta de pares uns que dançavam de copo na mão, outras já sentado nos joelhos deles, elas com os largos vestidos encobrindo o cenário, noite de orgia principiavas no passo senhorial.

Homens foram desarmados de suas espadas de grandeza senhorial... a recolhas das jóias iniciaram-se; mulheres apenas poderiam guardar os brincos, e os homens o relógio, Cochicho advertiu, todas as mulheres serão respeitadas, mas não podem encobrir nada, se o fizerem serão despojadas, quartos e armários foram abertos, as riquezas eram enormes que foram carregadas em carros dos cocheiros... o dinheiro era enormes quantias, que tinham sido recolhidas em campanhas de guerra.

Cochicho levantou o lenço que cobria a sua face dizendo no meu próximo para o Senhor de Telhado, no meu próximo reencontro contigo terás de recorrer a tuas armas pois quero te matar com armas iguais e aprenderes a respeitar a lei.

Apenas uma senhora procurou esconder no seio o mais belo colar que tinha sido recolhido a uma princesa do trono Portuguesa, que seguidamente fugiu para o exílio.

Esta, por uma estucada certeira ficou com o vestido no chão e o colar recolhido por um dos homens de Cochicho.

Os homens, foram-lhes retirada a roupa, e metidos quarto do segredo e bem fechados, as mulheres num outro quarto apenas com uma janela gradeada, com a promessa se o alarme fosse lançado antes do nascer do dia, a próxima seria morte.

A fama da quadrilha do Cochicho corria montes e vales, estes eram os heróis do povo que os chamava justiceiros e a pobreza sempre respeitada, eram sim malfeitores, tirando aos ricos e dando aos pobres.

Entretanto Amélia refugiada também nas montanhas de Vermoim, do seu amor e casamento com o Cochicho tinha lhes nascido uma filha. O que determinou a partida para fora de Portugal.

Nos dias próximos a esta tomada de fortunas, estes cavalgaram para a vizinha Espanha, e já ali na Galiza no porto de Vigo, como grandes gentil homens fugidos da guerra civil Portuguesa fretando um barco que os levou ao Brasil, ali passando por nobres Portugueses, soube-se depois que toda a quadrilha se dedicou a cultivar as terras brasileiras, e arredores de suas fazendas nasceram grandes aldeias de gente livre e trabalhadora.

Amélia morreu ao dar á luz o seu segundo filho, Cochicho ficou em embaraços com a criança que sobreviveu, pedindo então a sua criada mestiça se casaria com ele para salvar a criança e dar-lhe uma mãe.

Soube-se depois que a filha nascida nas montanhas de Vermoim tornou-se numa poeta escritora, escrevendo para a família suas memórias, Cochicho terminou seus dias, em terras Bandeirantes.

Por: Armando C. Sousa