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A Última Desfolhada
E a Fonte da Moura
Sacramento andava triste,
valia-lhe a velha concertina que quando ele tocava deixava todas
as moças e moços a dançar e a cantar.
Naquele ano o verão principiou cedo e ia de verdade quente,
pelo são João, claro no meu velho Portugal... aquilo
foi do melhor; Sacramento e sua velha concertina, faziam festa por
onde passava; havia amigos que se juntavam com gaitas e mesmo cavaquinhos
e onde chegavam havia dança, mas por vezes era vencido pela
nostalgia, resíduo das recordações do seu passado
de criança, ainda lhe estava na mente aquela tarde de inverno
receber os elogios do professor, pela bela redacção
sobe a família.
Sacramento esperava contar á mãe de sua alegria, entrou
na porta entreaberta e qual horror ao ver o fundo das escadas em
chamas, correu e viu sua mãe estendida e as chamas já
muito perto... Sacramento sabia que sua mãe era uma mulher
pesada e que nada poderia fazer, então correu ao quintal
onde seu pai andava podando as videiras, e gritou... Pai a casa
está ardendo e a Mãe estendida perto do fogo... O
homem correu para salvar a esposa os vizinhos procuraram apagar
, os bombeiros chegaram, mas já era muito tarde, seu pai
foi encontrado, debaixo de uma trave com a esposa nos braços,
os dois não resistiram ao fogo ficando sacramento entregue
ao seu cruel destino.
Naquela noite Sacramento ficou sem Pai, sem mãe, sem casa,
e sem ninguém... com medo, tinha-se refugiando numa meda
de palha, onde teve por companheiros os pássaros bravos e
tornilhos.
Um dos vizinhos tinha passados algumas horas procurando o Sacramento,
sem resultado; um de seus filhos era companheiro de classe e de
carteira, e pedia ao pai para lhes dar também pão,
o pai assim fez e o agasalhou quase como filho, mas dando-lhe sempre
as tarefas mais pesadas no arranjo da casa’ mesmo assim Sacramento
achava bem natural. O seu destino mesmo assim ainda era generoso
ter aquele amigo de criança. De tudo que se salvou de casa
de seus pais foi à concertina e umas fotografias, onde Sacramento
brincava com seus pais.
Nas horas vagas, este ia para o quinteiro dar aos foles e cedo aprendeu
a tocar os viras e canas verdes, malhões e rosinhas, assim
como outras musicas populares.
Os anos passaram os exames chegaram, agora seria a ocasião
destes amigos se separarem
Em virtude de os haveres do pai do Enrico ser escassos e não
poder suportar os dois no colégio; foi uma dura separação
destes dois amigos que se consideravam irmãos; Sacramento
muitas vezes se empertigava para defender Enrico, mas era inevitável
a separação, as posses eram escassas.
Sacramento foi pedir Trabalho a um fazendeiro das redondezas, que
o aceitou, mas lhe dando o palheiro como quarto, e a palha como
cobertores e lençóis.
Sacramento habituado a trabalhos duros fazia de tudo um pouco para
valer a sua alimentação, ao fim das duas primeiras
semanas pediu para lhe darem um ordenado, baseado no que realmente
ele valia... o fazendeiro apenas lhe queria dar as refeições
que eram inferiores aos de casa, e vestir-lho quando fosse preciso.
Sacramento não respondeu, sabendo do muito que trabalhava,
e do muito que tinha aprendido com o Pai de seu amigo o Sr Neca
que até esse ponto o tratou como filho.
Este, sabendo das más condições desse quase
filho adoptivo, consegui-lhe trabalho com ordenado, e dias santos
de folga ajustado por conveniência.
Os anos passaram, a cada ferias os dois amigos se encontravam e
Enrico procurava dar os melhores conhecimentos do que aprendia,
Sacramento aprendia o saber que lhe era ensinado com imenso gosto,
e sempre juntos com alguns colegas iam sempre à ultima desfolhada
antes de Enrico entrar na universidade.
Naquele tempo Sacramento com seu negocio depois do trabalho, que
era de comprar gado para um talho da vila, estava vivendo desafogado,
e pôs os olhos numa das mais lindas e bondosas moças
do lugar; ela sabia o que o pai falava de seu Sacramento, mas era
ele mesmo, o homem que ela adorava, seu pai tinha os olhos eu seu
irmão adoptivo.
Mas Camélia apenas adorava o seu Sacramento e sempre que
podia os beijos estalavam ... eles se amavam.
Um dia Camélia desaparecem, e a tristeza foi companheira
de Sacramento quase todo esse verão, mesmo as festas S. Joaninhas
e de S. Pedro não tiveram a mesma alegria...Camélia
não saía de sua mente, para onde seguiria a família?...
toda esta tinha desaparecido para onde?... todos tinham seu par,
mas Sacramento cada dia mais chi8smava naquela que tanto amava,
naquele ano chegou o dia de Enrico partir para a universidade, este
seria formado em dois anos, Sacramento amava os Irmãos adoptivo
e mais uma vez naquele ano foram à ultima desfolhado, todos
dançaram saltaram brincaram e mesmo se beijaram, apenas Sacramento
agarrado a sua concertina estava cansado e a cabeça pesada
de ter bebido para amortecer a sua dor da perda de sua amada.
Depois de tanta folia levou seu irmão a casa que este teria
de seguir viagem no amanhã para seus estudos universitários.
Sacramento depois disto ao passar pela fonte da Moura quis ir refrescar
as fontes da cabeça, depois de beber uns tragos de água
fresquinha deitou-se no paul junto á fonte.
Dizendo agora ficarei sozinho com minha adorada, vou dormir e sonhar,
e deixou-se cair atordoado talvez efeito do vinho ou da água
fria; Sacramento principiou a voar, e caiu nas ondas que o levavam
sem destino, sentia-se afogar, ao mesmo tempo que, ouvia a voz de
Camélia chamando, dizendo espera, quero ir contigo, quero
que me leves para o paraíso da felicidade, meu pai me velou;
eu voltei, estou aqui, não vás, espera por mim...
eu te adoro... sim... meu pai me levou para Paris... mas eu sou
tua, espera, espera...
Sacramento teve um grande arranco virou-se e parecia que as tripas
lhe saiam juntas com o vinho que tinha bebido, sonhara com sua Camélia...
Era quase manhã... Sacramento regulou todos os seus afazeres,
e partiu clandestino para França esperando encontrar sua
adorada Camélia.
Em menos de duas semanas de Procura seguindo informações
encontrou sua adorada...
Apenas com uma nota ao pai, dizendo sigo nos braços de meu
amado...
Mais tarde com direcção de Marselha chegou uma carta
aos pais... sou feliz, e vocês são avôs da mais
bela menina do mundo...
Estes voltaram a Portugal para assistir à festa da formação
de Enrico, que como dois irmãos faziam o orgulho da Aldeia.
Enrico lembrava-se da Ultima desfolhada e como dessa vez acompanhou
com seu cavaquinho as modas que Sacramento tocava na sua concertina
na festa de sua formação como Dr. Enrico.
Por: Armando C. Sousa
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