Ontem e Eu



Ontem quatro da manhã meus olhos abriram para ver mais um Outono chegar a valer; mas na verdade foi minha mente que me acordou para defender o meu imune sistema que não gosta do frio a remoer na pele branca e mal curada pelo sol do verão deste ano.

Naquela noite a ventoinha de circulação de ar, continuava com sua rotação acelerada para manter a temperatura igual e toda a casa, estando o automático ainda em posição de ar condicionado; os meus sonhos encaminhavam-se cada vez mais para o pólo norte onde eu me sentia quase nu junto dos esquimós que vestiam peles de urso e de renderes.

Ao deslizar meu traseiro no gelo, escorregando para uma poça de água que fumegava, acordei no momento que batia na água, creio que foi no momento que o colo de minha esposa se aconchegou ao meu traseiro.

Tantos anos de vida, e ainda não compreendo o porquê dos sonhos.

Verdade que acordei e senti um ar estranho, que desde há muitos meses não sentia.
Deitei os pés ao chão e estava frio, caminhei para o termostato e contatei que marcava 18 Celsius, longe dos 23 em que tinha regulado a temperatura.

Então pus o termostato em temperatura de inverno deixando-o desta vez a vinte e dois Celsius.

Voltei à cama e dormi; quando o dia chegou embrulhei num casaco e fui sentir a temperatura, olhei os carros dos visinhos, estavam bem embaçados com uma bela camada de geada, o que queria dizer que a temperatura tinha descido a zero durante a noite.

O telhado de minha casa, e os telhados visinhos do lado sul estavam todos branquinhos com a geada, as minha rosas mais sensíveis, esmorecidas de morte, os pássaros tinham abandonado a árvore de meu quintal, que lhes serviu de chocadeira, donde sempre desciam quando me viam chegar, ou seja, mais minha esposa, que sempre tinha alguma coisa para lhes deitar a comer; esta adora ver os pássaros esvoaçar à sua volta, e vir pousar mesmo junto dela, as folhas da árvore como ventoinhas iam caindo, já de diversas cores; sentia já os ares do outono, e tristes recordações, batiam no meu servo, em lembranças de menino.

Ouvi-a já o badalar do sino da aldeia onde cresci, a laranjeira com as laranjas já ficando amarelecidas: o Sr. Manuel e o fiteiro acocorados a trás da parede abrigados do ventinho norte apanhando a ressaca do sol sul: não era real; mas a minha mente que recuava, e a vós de minha mãe perguntando quem seria?... Depois se sentava, e como sempre me dava os ensinamentos, que nós crianças tanto desejávamos.

Conhecia pelo toque do sino, que foi um adulto que morreu, o que era a razão da interrogação de minha mãe que a sim principiava; nestes dias ao cair da folhas muita gente morre, mas ao deitar da folha é outra mortandade.

Perguntava porquê Mãe?... Minha mãe respondia: Verdadeiramente ninguém sabe; mas os polens de alergias voam mais rápidos, os descuidos são maiores, e os resfriados entram com facilidade, depois a morte tem de arranjar sempre um motivo para culpar, ela nunca quer culpas, nem a de velhice.

Verdade! E assim minha mãe principiava mais uma remeça de adágios. Cujos ditos me tem guiado através das mais tenebrosas e engraçadas peripécias de humor.

Pronto se me dão licença aqui vão adágios com que era bombardeada minha mente de criança, e ainda resistiram ao tempo e outras mentalidades.

O bem soa; o Mal, voa) (o bom julgador, julga-se por si) (o cão com raiva em seu dono ferra) (o descuidado sempre é necessitado) (o diabo tece-as) (o futuro e destino nasce em menino) (o Habito não faz o monge) (o mar alto ó mar alto, ó mar alto sem ter fundo, mais vale andar no mar alto, do que nas bocas do mundo) (o medo guarda a vinha) (o mês de Agosto será gaiteiro se for bonito o 1° de janeiro) (o necessário deleita, o que é demais é erro) (O olho do dono engorda o cavalo) (O primeiro milho é dos pardais o segundo é para o Passarim pão pássaro) (o que é de mais molesta) (o que lá vai já foi) (o que não tem remédio remediado está) (mel duns, é fel de outros) (o rabo sempre cheira ao que larga) (saber é um poço sem fundo) (o saber quanto mais lhe deitas mais leva) (o sogro e o furão interessa debaixo do chão) (o surdo faz falar o mudo) (ovelha que berra bocado que perde) (outubro meio chuvoso torna lavrador venturoso) (ouriços de S. João, são tamanhos dum botão) (pecados de avôs os Netos os pagam) (erros de médicos a terra os cobre) (cão que ladra não ferra) (onde há choro não há cantigas) (ser feliz é poder dizer, oliveira de meu avô, figueira de meu pai, vinha que eu plantei) (a luta, olho por olho, dente por dente, só faz isso quem é doente) (olhar para a uva não mata a cede, corta-a ou foge) (sol de fevereiro mata a mãe no soalheiro) (nunca se deve perder a lição ao perder) (jogar pode ser a mer... Ninguém quer perder a mer..) (os enganos corrigidos logo, são mais pequenos) (sorrir dá voz mais bonita) (não deixes uma má palavra entrar no meio de grande amizade) (tempo passado sozinho nem sempre é perdido) (água passada não moí farinha) (e espera de teus filhos o que a teus pais fizeres)...

Amigos, ao escrever esta ultima máxima, faz me lembrar uma historia comovente... Nestes últimos tempos, um senhor que tanto trabalhou na sua vida, foi acometido de (alzeimas) para o conter numa casa de saúde custava uma fortuna, então nora e filho resolveram traze-lo para casa, mas o homem ao comer babava-se todo; comida para a toalha, para o chão, tremia com a colher... A ponto de a nora dizer, marido já chega, vamos comprar uma gamela para o teu pai... O marido muito triste, mas via o trabalho que a esposa tinha, concordou, e assim o pai iniciou uma nova vida comendo da gamela, o neto de cinco anos presenciou tudo, mas nada disse.

Ao outro dia quando os pais chegaram do trabalho o pequenino estava muito entretido batendo em pedaços de madeira... Os pais vieram beija-lo, e perguntar: Zequinha o que fazes? Ele respondeu, estou fazendo uma gamela para a mãe e o pai quando forrem velhinhos...

Os pais entreolharam-se e a esposa chorou, o marido abraçou-a, e esta comovida foi buscar o sogro para a mesa, e apesar de todos os sacrifícios a dignidade humana foi respeitada naquele homem; O netinho sempre que podia, limpava os cantos da boca do velho, e o encaminhava para ele se sentar nas escadas passando horas ao sol.

Até que um dia de outono ao cair da folha, a hora chegou, o garoto nunca chegou a acabar a gamela.

Por: Armando C. Sousa

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