Naquela Noite Quente de Natal
Pouco
a pouco me foram chegando dicas do destino daquelas duas amigas;
Uma que a fugir do perigo se metia na boca do lobo, outra ainda
tão criança tão inocente, apenas procurava
prazer na dança inebriante onde todo o corpo treme no embalar
do batuque dos bombos nos ritmos inesquecível do samba.
Uma
mocinha dos seus 16 anos que eu lhe vou chamar Iara, nome fatídico
por nunca descobri seu nome verdadeiro; usando para ela nome fatídico
como a sua amiga a conhecia, Iara... a tal que fugia do perigo
das grandes favelas do Rio de Janeiro, encontrava-se pela tardinha
pedindo trabalho, numa sorveteria duma praia a cerca de 80 quilômetros
do Grande Rio de Janeiro
Pedia
o trabalho com honestidade acionada pela fome que a devorava...
nesse momento chegava uma menina ainda mais nova saltitando com
as gaiatices que se espera de alguém de quem ainda não
é mulher; e de sinais ai atrasados do esperado por uma
adolescente.
Ouviu
a empregada dizer desculpa menina mas eu sou empregada e nada
posso fazer, a moça respondeu obrigada senhora; pode-me
indicar quando chegar o patrão? Tenho tanta fome !...
A
menina ou ouvir estas palavras, disse, espere, vou ver o que tenho,
e perguntou o preço de duas bananas com creme gelado....
ao saber o preço removeu sua carteirinha, mas faltavam
2 centavos o que a senhora disse eu pagos os dois centavos e peguem
nas bananas com o creme.
Estas
saíram sentando-se num banco da marginal, mesmo em frente
à praia onde se via tanta gente estendida apreciando o
sol e a frescura da água; estas duas meninas apreciaram
as bananas com o creme gelado olhando o mar... na conversa a menina
de nome Oliva, soube que aquela linda moça de vestidos
lavados mas gasto de cor, vinha fugindo da favela onde seu pai
sem trabalho faria tudo para sobreviver e a falta de suporte e
dinheiro, obrigou-a a fugir antes que fosse tarde; disse não
ter dinheiro ou trabalho, mas não era uma vadia, esperaria
encontrar trabalho para sobreviver.
Naquela
tarde Oliva estava satisfeitíssima por ter encontrado Iara
e poder conversar, mas ao mesmo tempo triste por saber que Iara
não tinha onde pernoitar.
Oliva
pospôs, hoje haverá um dos grandes ensaios da escola
de Samba preparação para o carnaval; se quiseres
te posso indicar a casa do Barco de meu pai e ali poderás
dormir; é confortável e estarás resguardada...
Naquela
noite. A destino foi terrivelmente cruel para aquelas duas ainda
quase meninas.
Oliva passou por casa, e muito ás escondidas, trouxe um
bom naco de queijo pão e uma bebida que ofereceu a Iara,
esta depois de comer seguiram para o salão de ensaio do
samba que terminou cerca das 11 horas da noite.
Separaram-se Iara seguia para o Barracão do barco, Oliva
seguia para casa, quando num sitio mais ermo foi agarrada e arrastada
para uns arbustos fora da estrada onde foi forçada e desflorada.
Iara
foi seguida por dois sujeitos ainda jovens que a agarrarão
obrigando a entrar no carro vendando lhe os olhos.
Aos
primeiros raios da alvorada o carro parava num caminho que deveria
ser de uma fazenda, os dois retiram a linda Iara do carro, presa
de mãos os dois fizeram turnos na sua desfloração
a pesar dos gritos dilacerantes que estes não procuram
dissimular... dento do carro outra vez a caminho da fazenda, dizendo-lhe
tu és pertença da fazenda e de nós os dois;
cerca de dois anos passaram que a Iara vivia na fazenda que não
sabia onde se encontrava.
Roupa
não lhes faltava e outros mimos, mas sentia-se prisioneira
dos dois que poderiam ter sido também assassinos, mas que
afinal os dois a disputavam a pontos de se ter batido e esfolado
bem a cara um do outro.
Esta
delineou um plano de fuga no camião de transporte de gado,
e passados dois anos esta estava sempre preparada para seguir.
O
dia chegou, no momento próprio entrou e escondeu-se num
compartimento de ovelhas. Depois de carregado o camião
seguiu caminho, Iara mesmo com o cheiro nauseabundo dos animais
cantava a caminho da liberdade... horas mais tarde o camião
ao entrar no matadouro da Cidade do Rio, esta reconheceu onde
estava, esta encaminhou-se para a favela onde morou, para saber
que o morro onde era sua barraca tinha desaparecido com o desabamento
de terra arrastando para a morte muitos moradores incluindo seus
pais e irmão: Iara, desesperada percorreu parte da cidade
procurando trabalho.
Mas
a fome outra vez lhe cruzou seu destino; foi preza por roubar
um pão... o juiz que lhe foi apresentado o caso da Iara;
este Juiz quis ouvir da boca dela porque realmente era acusada.
Iara
contou sua trágica historia e porque se encontrava em prisão...
o juiz homem idoso mas cheio de compreensão. Mandou o que
lhes desse liberdade, que pagaria as despesas
O juiz com os olhos marejados de lagrimas, pegou nas mãos
de Iara e implorou, dizendo;
Filha querida, tenho minha esposa mal, ainda não sei a
que extenso. Se tu puderes ajudar minha esposa enquanto fores
necessária, terás teu salário, e viverás
com nós. Iara aceitou com grande alegria.
Semanas
mais tarde a esposa do juiz chamou Iara, dizendo... minha amiga
a minha doença é terminal, câncer de mama
sem cura, os dias estão contados para mi.
Tenho reparado na bondade de teu coração, tens sido
anjo para comigo e para meu marido que muito adoro... poderás
tu prometer-me que olharás pelo Juiz quando eu morrer?...
Depois
te direi. pelo momento dorme minha senhora.
Esta
nunca mais acordou; Iara ficou com promessa sem prometer, mas
fez todo o seu possível, a ponto de casar com o simpático
homem que era mais que uma enciclopédia de conversa e saber.
Oliva
naquela mesma noite do ensaio do samba foi desflorado por um homem
que ela não conhecia, mas a foi pedir em casamento; inventou
mentiras para os pais consentirem e obrigar a garotita a casar,
Oliva estava dois dias com o marido que foi obrigada a casar por
preconceitos de religião, e fugia para casa uma semana,
mas sempre obrigada a regressar, mas aos 18 anos Oliva deixou
ficar o marido para sempre, dizendo a seus pais e irmãos,
sou eu que mando, deixem-me viver minha vida!
As
duas se reencontraram já Iara era casada com o velho mas
simpático Juiz.
Naquela tarde de Natal Oliva recebem uma má noticia e um
convite de sua amiga, para passar o natal com ela que se encontrava
muito sozinha depois que o marido morreu dois meses atrás...
Oliva acedeu..... mesa posta cheia de iguarias, cadeira vazia;
As duas se entreolharam abraçando-se cheias de dor; nada
comeram e saíram para a rua sentando-se ao lado da estrada,
chorando.
Um
homem entrou na casa enfrente que era sempre alugada a turistas
na época de verão; voltou pouco depois com um prato
de rabanadas e sopas secas e uma garrafa de vinho, desejando boas
festas, com as mão nos ombros das moças, atirou
um beijo e reentrou em casa... as duas comeram, dizendo que foi
a melhor ceia de natal... seguindo para a praia para ver o fogo
dessa noite natalícias, sempre pensando que aquele homem
deveria ser o anjo que todos esperam, quando o desespero já
não encontra saída.
Terminou
o fogo, regressaram a casa prometendo ir agradecer ao homem das
rabanadas, mas a casa estava vazia, mesmo o dono disse que a não
tinha alugado nesse ano...
Por: Armando
C. Sousa