Hoje me Apetecia Falar

 

Sim, é verdade amigos, me apetecia falar de amor; mas está tão fora de moda que quase tenho vergonha.

Gostaria de ver nascer aquele olhar sincero, aqueles olhos sorridentes, com aquele brilho profundo que penetrava no coração e o fazia arfar, mesmo quase tremer; era um gosto tão bom sentir-lhe aquele peito crescendo como dois bagos de amoras que formavam o jeito na blusa lisa sem machinhos.

Mesmo o medo de lhe tocar pela primeira vez, ou o sabor do primeiro beijo roubado: verdade não há fruta mais saborosa que o primeiro beijo dado consentido; o calor é de certeza minto mais intenso que no inferno; mas não há paraíso com mais paixão de que ficar eternamente nesse primeiro beijo de amor.

Gostaria mesmo de falar do oferecer uma flor, se não fosse vergonha. Aquela vontade de lhes dar a cheirar um cravo ou uma rosa; gosto de falar... Até tenho mesmo saudades de ir à romaria para mostrar a companheira de ar sorridente e feliz.

Ver os amigos de olhar galante e invejoso, mesmo eu a sentir um tudo nada de ciúmes por o sorriso dela, mesmo sendo apenas um comprimento de boa camaradagem.

Tenho saudades desse tempo, e gostaria de ver voltar o hábito do namorar à cancela traseira do quintal.

Mas sobretudo na romaria ir comprar duas molhinhas de rosquilos para os irmãos mais novos, e meio quilo de doces para a mãe, como recompensa de ter confiado aquele para mim grande tesouro, a mulher que amava.

Sentir no seu olhar brilhante aquele ar de felicidade que nos levava aos píncaros do amor.

Isto agora está tão fora de habito, que sinto mesmo vergonha de falar, sinto vergonha do que a juventude pensará dos nossos tempos.

Sim mulher que amaste e tu homem também, sabes bem daquele sentido de fidelidade, o grande respeito que tinhas pela palavra; sabias bem o que era pudor, coisa que o amor não deveria ultrapassar, o pudor.

Era tão bom sentir aquela sensação de estar a ficar bêbado de amor, sem ainda ter bebido daquele sumo que nos leva à eternidade, agarrados.

O nosso sentido só pousado naquele bem; mesmo que nossos olhos vissem muitas mulheres, nenhuma era igual, que tivesse as mesmas virtudes, o mesmo meigo olhar

Aquele amor sufocante que nos fazia tremer o peito, e subir louco de desejo, mas não queríamos que nosso bem se corasse de pudor.

Nós queríamos que nossas virtudes sobressaíssem sufocantes e ver um olhar brilhante como dizer que aceitava nossos defeitos, que éramos ainda um naco de pedra que poderia ser moldado num santo.

Poder ler as linhas atravessar em seus olhos cheios de querer, e por momentos julgarmos pertencer àquele amor por quem nos embriagamos

Mas dizer estas coisas é quase como um crime confessado, é quase como uma sentença declarada da nossa inocência.

Falar da amizade que deve existir entre encaixe de pessoas que deixem gritar sua ventura, seu êxtase de loucura e amor, hoje é quase um sacrilégio, mesmo que sacrilégios não existam no sentido como nos lavaram a cabeça.

Há!... Como era doce o apoio que dávamos a um amor que doía, em vez daquela palavra que faz treme e arrepia, o divorcio... esta hoje é a palavra de arremesso a cada dia; é um jogo que tem levado milhões à morte prematura; outros tantos a uma vida perversa de sexualidade errônea.

Sentir a mão pequenina de uma maciez delicada, na mão grossa e calejada e deixarem-se caminhar lado alado dá um sentimento inexplicável de uma satisfação de prazer.

Será que se deve sentir vergonha de ainda sentirmos em nó a dedicação nos momentos terríveis; como ver aquele grande amor sem dentes, sem uma perna ou braço e sentir o mesmo arfar?... sim pode, mas no meio em que vivemos, por vezes sentimos vergonha de ser diferentes; sim diferente daquele viver de conveniência.

Amor eu nunca quero ver meu casamento, ou união de corpos e bens junto à queda da falência, e com isso ver meus filhos desbaratar-se em partidos ou fugir de vergonha ao ver violentas agressões mesmo que sejam verbais.

É meu o grande amor por um lar grande, cheio de filhos e netos, sentir o calor da gente da aldeia, pela harmonia e alegria que irradiamos.

Meu grande prazer é ver os laços de família protegidos pelo amor; amo ver a família, num modo de cantoria, mesmo desafinada, mas se há no momento uma concertina ou violão ainda melhor; cantar, não pelo efeito da droga ou álcool, porque dessa maneira seria artificial; e os primeiros passos para a loucura e a devassidão.

Gosto de cantar e dançar; cantar bem alto e viver, e dançar para crescer e enternecer; isto é verdade, mas está tão fora de moda.

Seria mesmo momento de falar da felicidade e da alegria de escrever; sentir que as palavras vão direitas ao coração de alguém; palavras que tem o condão de amaciar as feridas mais profundas; Palavras que são jorros de luz que iluminam caminhos pedregosos e traiçoeiros, tornando-os numa estrada de retidão.

Felicidade é ver nascer vida da loucura, ver o vira volta da tristeza, esta a abrir em sorriso de alegria; enfim, felicidade é ter contribuído, para que haja mais saber, mais igualdade, mais pão, juntando todos us ingredientes formando linda poesia, sem usar a moda da hipocrisia...

Por: Armando C. Sousa

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