Tenho saudades

Verdade, tenho enormes saudades daquele tempo da chocolateira de barro atrás das duas panelas de pernas onde o fogo ardia no meio delas; a chocolateira cheia de água com meia quarta de cevada e uma colher de café para dar paladar.

Sim, "mas" o que mais me saudade deixa é aquela tigela cheia de cevada e miolo de pão milho, logo pela manhã; quantas vezes adoçada com um fiinho de mel! Ou então uma

uma sopa com uns greiros de arroz e muita cebola.

Verdade que era tempo de miséria "mas" mesmo da calça arregaçada tenho saudades de seguir com os companheiros de escola tomar banho no riacho, escondendo as calças e camisa entre os altos milheiros, então lá saltávamos para a água, que naquele tempo poder-se-ia beber, ainda não existia esta miséria de cores e fezes na água.

Saudades daquele tempo que se rezava depois da ceia e se beijava a mão aos pais.

Saudades de ver a roupa estendida no capim ou baixo matagal, apanhando o sol da brancura, o que se dizia roupa a corar.

Depois, aquelas cordas cheias de roupa branquinha só com o cheiro de sabão, que saudades... Cada família tinha aí meia dúzia de maquinas de lavar louça, todos com um grande sorriso. Ao bater das trindades fazia-se o sinal da cruz, mas aqueles chutes nas bolas de farrapos, nunca mais esquecem.

Nem aquela cebola com sal e um naco de pão milho antes da malga da sopa de couves, hoje se chama caldo verde e é uma delicia, quando é mesmo verdinho, com duas rodelas de chouriço.

Mas a verdade é que sou do tempo em que, ouvir alto-falantes era só nas feiras e romarias e logo o primeiro gira discos que veio para a minha aldeia foi uma grande festa que ainda vive dentro de mim.

Os primeiros passos de dança que não sabia dar, mas o agarrar a mão duma mocinha e de quando em vez procurar roçar os biquinhos da moça no meu peito, era delicia tão grande que não cabia em mim; essa delicia perdura ainda na minha mente.

Nesse tempo, quando tínhamos a sorte de ver os joelhos de uma moça, ficávamos tão impressionados que procurávamos logo ir atrás dum silvado para acalmar o cavalo, oh sim... As velhas essas apenas abriam as pernas e mijavam em qualquer sitio; isso não tenho muitas saudades, porque eram mesmo só as velhas que faziam isso.

Mas daquele tempo que as moças se untavam todas de brilhantina e faziam uma poupinha a fingir cabelo ondeado.

Seguidamente veio a moda do cabelo em banana e a rede. Mas as mais idosas eram de lenço na cabeça como andam ainda hoje as mulheres que seguem a religião do Islã. Íamos à missa, mas os homens separavam-se das mulheres.

Verdade apetece chorar com saudades desse tempo, o primeiro namorar encostados à cancela, a primeira troca de anéis, o primeiro beijo roubado, e talvez a primeira zangam... O primeiro beijo consentido, e o cavalo sem freios, que procurávamos amansar! Sim, de tudo isso tenho saudades.

Como tenho saudades da galinha caseira pica no chão e daquele arroz com os miúdos e sangue, oh sim, as tripas bem lavadinhas a segurar as patas que lhe chamávamos um figo.

Saudades de puder gritar à força toda dos pulmões, do acordar com o cantar do galo do vizinho.

E do fazer papagaios de papel, e ver o que ia mais alto, das corridas de motas de pau, e ver o que tinha a mais bem feita e bonita; do andar atrás duma viola ou concertina de aldeia em aldeia, para dar duas voltinhas com as moças do lugar.

Sim, tenho saudades das festas e rumarias, das pipas de vinho e iscas de bacalhau e pataniscas, com a caneca barrenta ou aquela branquinha onde se via a cor do vinho.

Tenho saudades de amigos que não volto a ver, se tornaram em microorganismos de meu irmão que já não é, de minha mãe que partiu sem eu a poder ir ver e dar-lhe ultimo adeus.

Até tenho saudades de me sentar num carro de bois ou carroça do amigo Francisco.

Mas a verdade é que tudo que não poderemos ter é o que mais desejamos.

Até mesmo tenho saudades da alegria da pobreza, mesmo daqueles sanduíches, pão com pão e pão no meio.

Tenho saudades de como se vestiam as mulheres da minha meninice, de seus olhos com trejeitos, hoje a mulher já não tem mais que despir. Tenho saudades do fato novo no dia de Natal, ou no dia de Páscoa. Dos sinos que repenicavam à meia noite, do fogo de artifício em todas as aldeias vizinhas, das gaitas feitas dos bambus dos foguetes.

Sim, tenho saudades de cheirar a flor de mimosa, dos eucaliptos da mina terra, dos ciprestes ou a sombra das Austrálias ou Tílias.

Enfim meus amigos tenho saudades da minha meninice, e de cantar! Ao tempo volta para traz, dá-me tudo que perdiiiiiiiiiiii...


Por: Armando C. Sousa


armando.sousa@rogers.com

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