O meu Minho

 

Será que o meu Minho é diferente dos outros Minhos ?… vou vos dar uma idéia do que era o Minho que eu conheci, que é o mesmo que ainda hoje existe em mim.

Lá ao alto bem no Geres, num sitio pouco menos que ermo existia uma taberna, casa da guarda, caminho tosco e diziam ser a fronteira do homem, bem demarcada por uns tantos rolos enormes em pedra, com inscrições que nunca aprendi o significado.

Noutra parte ao norte ficavam muralhas medievais, onde antigamente espreitavam as sentinelas, vigiando os movimentos, da ambição das gentes de Compostela, ali também era linha que dividia o condado, mais tarde província; estávamos em Melgaço.

Dali ao fundo descia o rio que deu o nome ao meu Minho, do lado de cá viradinho aos ares do sul, e ao sol Portugues, naquele saibro amarelo pedrouço, cresciam as videiras donde saia o melhor verdinho, aquele que fazia rir cantar e dançar, era o Alvarinho.

Monção, mais muralhas, mais lendas e feitos, mais gente onde o rio dividia duas nações, onde tios e primos se batiam pelo nome que tinha seu berço sua pátria, ali mais água onde a gente se desnudava para receber seus benefícios…..mas o rio seguia sua decente cantarolando.

Agora encontrava as muralhas bem fortificadas, onde se refugiava a gente de Valença do Minho, depois de desbaratar os Espanhóis que procuravam subjugar a gente do condado, gente, que antes partir que torcer.

A fronteira Minhota descia agora até Cerveira, outra raça de valor, e mais abaixo Caminha, gente que trabalhava o cobre para caldeirões, onde o azeite a ferver tem lenda, no desbaratar dos nossos irmanos. E ali já o rio principiava a abraçar e a beijar o mar, onde recebia muito do seu fruto.

Mas já em Praia de Âncora desaparecia o que deu nome a meu Minho, no ventre tenebroso e cruel do mar que haveria de banhar toda a Pátria que me foi madrasta.

Do outro lado encontrava-se gente vivendo e cultivando os píncaros que desciam em cascatas até ao Lima, gente de Soajo, Arcos, ponte do Lima, Paredes de Coura ponte da barca etc, etc. vivendo do que saía das serras, bom queijo e o cabrito montês, não falando dos bois barrozões que faziam o orgulho nas feiras e cortejos das regiões, sendo conduzidos por moças em trajos regionais, pele um pouco queimada mas macia como ceda, maçãs rosadas lábios cor de cereja, onde o ouro com as armas da casa completava o ornamento e orgulho da moça, meias branca, e chinelas no pé a bater; atrás, o homem de colete, correntes e relógio, e vara de marmeleiro que fazia parte do cenário Minhoto.

Quantas vezes essa vara de marmeleiro servia de juiz , justiça, ou algoz da feira ou romaria.

Não é menos verdade que à noitinha no lugar, ao toque duma viola Minhota ou concertina, se formavam danças donde saiam casamentos ou corações partidos, que encontravam as águas do Rio Lima, que levavam as mágoas, lágrimas, e alegrias para as depositar na barra do Cabidelo, implorando aos pés da imponente Santa Luzia, que do alto olhava sua Viana, onde tantas vezes recebeu seres humanos que derivando no mar, ali se recolhiam e expandiam até às margens do Cavado, que dizem ser do baixo Minho, mas que afinal tudo faz parte do meu Minho.

Mas é incrível , como foram construir o Mosteiro da Senhora da Penêda, naquele pequenino vale recheado de montanhas e penedos?

E os passos e Senhora da Abadia, quanta crença e força de comando, e talvez escravatura estão gravadas naquelas pedras trabalhadas, e cheias de arte.

Que beleza de trabalho naquele Mosteiro De Santa Luzia, ao cimo da princesa do Lima; em contraste com a citânia de tempos de onde não existe registro, mas estão lá para nos fazer relembrar que outras gentes passaram por o nosso Minho.

Mosteiros erigidos pelos romanos são diversos, e o Minho é fértil dessas relíquias que se estendem até as proximidades do Rio Ave com quem mais me identifico.

Um dos mais belos e antigos podem ser vistos em Arnoso de Santa Maria, ou ainda o de Landim.

Mas não nos esquecemos do Rio Cavado, aquele que banha Barcelos o conselho com maior numero de freguesias, onde o artesanato de caulino e os paladares são mais afinados.

Bom, um cosido à Portuguesa não é igual em todo o Portugal.

No baixo Minho é diferente, porque aquela penca verdinhas e tenrinhas da Povoa de Varzim, dá mais atração, e melhor sabor.

Como o Borrego Alentejano é diferente do Cabrito montês Minhoto, assim é a penca do repolho, e portanto o cosido à portuguesa do meu Minho é de longe superior (desculpem a minha opinião).

Papas de sarrabulho, só no meu Minho são reais, e os rojões tenros e saborosos só no meu Minho.

Os miúdos do porco são preparados de maneira a fazer estalar a língua na boca, de tão deliciosos, isto porque o Minho não termina nas margens do Rio Lima; as margens do Rio Ave, conhecem muito do meu Minho.

As festas do meu Minho são diferentes, porque onde há Minhotos a alegria se expande, tornando-se em danças e cantigas ao desafio, com rusgas percorrendo as artérias das Vilas.

Ver Santa Luzia, Santoinho, Peneda, Santa Marta, Penha e São Gualter em Guimarãis, S. João de Braga, Cruzes de Barcelos isto só falando em algumas das mais de 800 festas que se realizam no meu Minho a cada ano.

Fico desgostoso ao ver que parte da nossa gente Minhota, não conseguem ultrapassar o nome de sua Vila, escondem-se em ninharias, mesmo sabendo que, quando conseguirem ultrapassar, este complexo regionalista, serão uma força viva difícil de conter.

Uma grande parte da gente mais idosa Minhota ainda não acredita num verdadeiro Minho.

Desde as margens do Rio Ave até ao Rio que nos deu o nome de Minhotos.

 


Por: Armando C. Sousa


armando.sousa@rogers.com

Enviar a um amigo
clique ao lado!!!

Voltar