Marcou-me aquela noite



Ao rever o que eu penso e porquê, apenas encontro retalhos da minha meninice e procuro relacionados.

Assim, por vezes encontro-me entre as pernas de meu tio em dias de Inverno chuvoso, quando ele se sentava à lareira no banco do lado do forno.

Outros dias, em tardes de Outono, sentado nas escadinhas, abrigadas do vento norte, via o Profeta: o “homem de dente de ouro” que nunca deixava de passar por nossa casa para consertar os guarda-chuvas, as malgas e pratos rachados.

Usava um engenho para furar a louça que desandava como um pião, manejado com destreza, com uma espécie de arco de violino com um atilho. As brocas eram feitas com varas de guarda-chuva.

A recordação é muito vã, mas aparece-me na mente como relâmpagos.

Os meios tostões que meu tio me dava, por lhe ir buscar rapé à gaveta da mesinha, isso não me esquece, assim como os dias que antecederam o Natal de 1939.

Meu tio não saía do lume e meu pai não podia levantar-se da cama.

Os anos que trabalhou na fabricação de têxtil foram-lhe deteriorando os pulmões.

Lembra-me que num dia desse Outono uma senhora lhe veio aplicar ventosas, “uma espécie de copos que retiravam a água dos pulmões”.

Enfim a fatalidade bateu e entrou: a última ventosa entornou-se e incendiou as outras, deixando o peito de meu pai muito queimado.

Drs. eram poucos, medicamentos, nesse tempo, eram menos ainda, apenas “Alvaiade” um pó branco que se misturava com azeite e que tinha o condão de bloquear o ar e de amaciar o queimado. A doença prolongou-se, minha mãe chorava.

Meu pai era um dos poucos homens das redondezas que sabia ler e escrever, e já nesses tempos os sindicatos faziam falta; soube mais tarde que meu pai foi o primeiro presidente do sindicato, e nesse Natal minha mãe recebeu um cabaz oferta do sindicato... último Natal de meu pai e de meu tio.

De manhã, ao repenicar do sino que anunciava a missa, logo meus irmãos saltavam da cama para ir ver o que o menino Jesus lhes tinha deixado.

Desconsolados vinham dizendo, só quatro rebuçados para cada um de nós.

Minha mãe chorava ao ouvir os comentários dos dois irmãos mais velhos que eu.

Minha irmã abraçava minha mãe e chorava também; essa já compreendia a tragédia que se estava a passar no seio da família.

Meu tio, passado as festas de Natal, acamou com uma pneumonia que lhes foi fatal a 15 de Janeiro.

Meu pai um dia chamou todos os filhos, casados e solteiros, e falou para todos, minha mãe a seu lado. Mas eu era tão inocente para compreender a gravidade da situação!

Lembra-me que ao outro dia estava junto de meu pai, ele retirou as mantas de farrapos, e debaixo do braço esquerdo mostrou-me uma grande ferida que deixava os ossos expostos, dizendo ser o resultado de um antraz.

Chorei imaginando sua dor, mas não me apercebia o que ele me queria dizer, quando me dizia vou-te deixar.

No dia 20 do mês de Janeiro de 1940 fiquei sem pai, o único sustento de nosso lar.
Cada dia que passava a miséria aumentava.

O sindicato, compadecido, conseguiu emprego para minha irmã que tinha 14 anos nessa altura, o meu irmão Manuel terminou a escola em Julho com a quarta classe.

Eu entrei na escola em Setembro, depois de fazer sete anos a 6 de Abril de 1940. Não tinha livros, nem cadernos, nem havia dinheiro. Levava uma ardósia partida e um caco da mesma para escrever os números.

Meu irmão Joaquim não pôde continuar na escola por falta de dinheiro para os livros e cadernos, mesmo a denunciar grande inteligência, e tendência quase para o impossível, valendo-lhe o nome de engenheiro pelas coisas bizarras que fazia para brincar... saiu com a terceira classe.

Minha mãe, de enxada na mão, trabalhava quase de sol a sol, cultivando tudo o que podia num quintal de quase 3.000 metros quadrados, procurando sobreviver com o dinheiro dos ovos e franguinhos que vendia, mas nós nunca mais soubemos o que era sabor de carne.

Com legumes e fruta íamos vivendo, especialmente laranjas, que a partir desse ano também faziam parte da receita para balançar o impossível.

Eu, nessa idade, fazia o que minha mãe mandava, lembra-me que depois da vindima se fazia a poda antes das couves serem plantadas para não as calcarem, e eu lá ia apanhar as vides e amarrá-las em molhos juntando-as num lugar perto da loja, para ficar à mão de queimar.

Enfim, fazia tudo que me pediam, pois queria ser bom.

Acreditava que o menino Jesus me traria qualquer coisa pelo Natal, como diziam os meus irmãos.

Mesmo quase ao frio, por vezes cosia com arames de rede de vedar as galinhas, as calças, dizendo a minha mãe que era para a ajudar, tal era a minha inocência.

O Natal chegou, a tristeza era enorme, naquela cozinha de terra batida.

Agarrado ao soco partido, esperava a ocasião de o por em cima da pedra da borralheira sem que meus irmãos me visem, para depois ir para a cama e pedir ao menino Jesus uma prenda; mesmo uns socos novos, porque os que trazia estavam partidos, e com tachas que me feriam os pés, a cabeça também me gelava, sem nada para a cobrir. Rezando o que sabia, e pedindo como sabia, adormeci.

De manhã acordei, já meus irmãos andavam à volta com as pinhas que tinham deixado ao borralho, minha mãe e minha irmã tinham ido à missa das 7,30 estavam quase a chegar, eu lá fui ver o meu soco, pois não tinha tamanquinho ou sapatinho...

Era o mesmo o mesmo partido e com os bicos das tachas que me feriam os pés.

Atirei pelas escadas da loja a baixo, começando a gritar, "eu não sou mau, tu é que és mau, tu é que és mau, mau, mau".

Minha mãe entrava nesse momento com minha irmã, chegadas da missa de Novais. Ao perguntar o que se passava, respondi-lhe: "mãe, tu dizias-me que se eu fosse bom, o menino me viria visitar!...

Mas ele é mau, o meu soco estava na mesma, partido e sem nada".

Minha mãe começou lacrimejando, pegou em mim no colo e sentou-me na sua cama dizendo, o menino não traz nada a ninguém, desculpa-me por as mentiras que te fizeram acreditar, o menino é uma lenda, só boa para os meninos com pais que tenham possibilidades, mas tu meu filho, nem pai tens, já está com Deus, Deus sim, esse é que te poderá fazer homem de bem, nunca deixes de acreditar em Deus, mas milagres, esses acredita que só serão feitos pelos homens.

Olha se podes vir a ser um rapaz honesto e de saber, o resto te será acrescentado".

Procurei sempre seguir os ditos de minha mãe, mas aquela noite marcou-me.

Verdades da minha vida!



Por: Armando C. Sousa


armando.sousa@rogers.com

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