| Caçada
do destino V
Aquelas
noites no planalto da serra, eram de admirar um panorama diferente
maravilhoso; sim, diferente daquele panorama da cidade, que mal
se vêem as estrelas, e muito difícil ver cometas.
Numa daquelas noites quando ainda fora da gruta e mesmo à
luz do luar, meigo e clarinho, ainda mais visível que a luz
de sebo que iluminava a gruta que lhe servia de refúgio dos
lobos e lhes daria um pouco de conforto no repouso, os dois conversavam
e as primeiras letras que Alípio aprendia as escrevia na
areia; não o vento não as levou, foram todas absolvidas
pelo seu servo ávido de poder comunicar com as gentes do
mundo, mas que nesse momento era tão pequenino, apenas ele,
a montanha e as cabras, contando sempre com seus grandes amigos,
liro Rolo e Turquesa.
Naquela mesma noite os pais de Licínio encontraram-se num
dos cafés da instancia com o Conde de Vilarinho; depois dos
primeiros comprimentos e desejos de saúde e boa estadia,
entraram em conversas de como ia o mundo.
Nessa conversa os pais de Lícinio recriminaram a maneira
como o feitor explorava a infância e a fraqueza dos trabalhadores,
como exemplo, o Alípio e seus pais.
A criança era mais que escravizada sozinha com os lobos no
alto da montanha, com apenas 9 anos, obrigando-a a estar fora dos
carinhos de sua mãe por semana após semana, longe
das brincadeiras de sua irmã e da defesa e segurança
que lhe daria seu pai.
Cada palavra que o conde ouvia de seu amigo eram punhaladas que
o fazia arrepiar.
Na partida o conde de Vilarinho prometeu que as coisas iriam mudar.
Dois dias passaram e um dos cridos do feitor apareceu na montanha,
mas Liro e Rolo latejavam e reganhavam os dentes não deixando
o criado subir mais a montanha, até que Alípio veio
acalmar os dois grandes amigos, e os introduziu ao criado, que disse
que vinha de mando do feitor para ele descer com o rebanho á
povoação.
Alípio falou com a cadelinha Turquesa, que foi a correr recolher
todos os animais, falou também com Liro, e Rolo e disse o
senhor não se mova pois o liro o despedaçará,
eu tenho de ir chamar, o senhor Licínio que está pintando
e os meus queijinhos.
Cerca de duas horas depois, Alípio com seu alforje que era
feito duma pele de cordeiro nele trazia toda sua fortuna, que desta
vez, era destinada a sua irmã, talvez comprar chita para
uma blusa.
Licínio com seu bornal e sua mochila, neles continham as
telas pintadas e os restos de pinturas, o criado sempre que se mexia
via os dentes brancos e aguçados de Liro que como quem diz
tem cuidado homem.
Chegaram à aldeia e Alípio viu que sua mãe
chorava escondida, ele sorrateiro foi-se agarrar a seu pescoço
e dar-lhe muito beijos, perguntou porque chorava, a mãe abraçada
ao seu filho disse-lhe, temos de sair desta casa até ao fim
do mês, e teu pai não terá mais trabalho com
o feitor do Solar de Vilarinho.
Mas naquele momento, alguém batia nos pedaços de tábuas
que serviam de porta, a mãe de Alípio foi abrir e
deu de cara com Vitorio da Gama e a Dona Celina sua esposa.
Visconde da Gama disse gostaria de falar com toda a família,
e quero que a senhora seque essas lagrimas que fazem mal a esta
criança.
Então a mãe disse ao Alípio, vai a boucinha
de cima e chama teu pai e tua irmã que estão na roçada
de mato, de contrario eles só chegariam cá depois
da espadelada.
Toda a família junta a D. Celina, principiou pelas boas tardes
mesmo que o sol já se tinha escondido por detrás da
montanha e a noite se aproximava, dizendo; creio que estás
informado com a intenção do feitor, mas existem males
que acarretam bens.
De momento estão aqui 20.000 escudos, para comprar as roupas
necessárias para uma vida na cidade; se vocês quiserem
aceitar trabalhar na minha quinta em Cintra, e as crianças
irem para a escola, da quinta usam o necessário para comerem,
e eu pagarei dois salários mínimos para que a quinta
esteja arranjada, com a promessa de todos podermos estar livres
ao entardecer para fazerem o que melhor desejarem.
quando chegarem a Cintra a casa estará pronta para os receberem,
e o recheio da casa lhes pertencerá se um dia decidirem de
partir.
As duas crianças abraçaram-se com os olhos postos
na escola, e nas historias que ouviam contar da cidade, por fim
iriam ver uma, iriam viajar de camioneta e de comboio, e formavam
seus maravilhosos sonhos sem o medo do lobo e do feitor, seria a
mais bela aventura que iriam iniciar, enfim uma vida com liberdade
mas também com responsabilidade.
Os pais e os filhos aceitaram a oferta, da viscondessa Celina e
do visconde da Gama, a mãe de Alípio disse que lhe
pagaria, que isto seria apenas um empréstimo, mas logo Dona
Celina retorquiu, apenas aceitaria a chávena em que foi servido
o chá de flor de mato a meu filho, que será a mais
bela recordação da medicina da gente da montanha,
e talvez o desvendar de mistérios para o povo da Cidade desconhecido.
Terminando, Alípio ao fim de três anos entrava no colégio
com distinção, sua irmã Amélia depois
de aprender musica com a viscondessa Celina da Gama e ter feito
a sua escola com distinção mesmo atendendo a sua idade
de mocinha, aprendeu depois a tocar violino com mestria e com sua
juventude correu as mais celebres academias de música da
Europa.
Os Pais de Alípio, compraram terreno com suas economias,
mandando construir uma casinha, sem nunca deixarem de fabricar o
jardim do visconde da Gama mas desta feita apenas o pai do Alípio
trabalhava, e a mãe apenas se distraía com suas enumeras
flores e ervas de cheiro de cozinha e medicinais.
Soube mais tarde que Alípio enveredou pela carreira cientifica
de ervas de estética e medicinais, cujo nome se vinha espalhando
pelo mundo.
Licínio veio a ser um afamado pintor, seus quadros valiam
uma pequena fortuna, mas nas horas de ócio continuou procurando
ver multidões à sua volta, pintando nos pavimentos
da Cidade, muito perto das universidades inspirando os alunos para
a arte para a poesia e liberdade e igualdade da humanidade.
Fim
Por:
Armando C. Sousa
armando.sousa@rogers.com
Enviar
a um amigo
clique ao lado!!!
| |
Voltar |