Caçada do destino III


Ia eu contando


Lícinio depois de tomar o chá de flor de mato e pelicom da serra, deitou-se nas peles de ovelhas que lhe serviram de cama, assim entrou no País dos deuses do sonho.
Ainda ardia a lamparina feita do sebo dos animais, quando Lícinio acordaram com o feroz ladrar dos cães, d’um salto, os dois se levantaram estremunhados, Lícinio pegou na arma e Alípio na foice roçadora correndo para for da gruta.

Mesmo com nuvens encobrindo o luar, a noite não era escura, os cães acalmaram ao sentirem Alípio mas os uivos dos lobos ouviam-se em duas direções, foi quando Lícinio viu a menos de 100 metros uma alcatéia que descia sobre o rebanho, Lícinio levou a arma ao ombro e disparou três tiros num abrir, e fechar de olhos, os cães correram e entraram numa luta sem tréguas, com o resto da alcatéia, para regressar minutos mais tarde puxando as calças de Alípio que os seguiu juntamente com Lícinio que entre tanto tinha feito a recarga da arma.

Liro, e Rolo, aparentavam ensangüentados, mas depois duma breve examina Alípio esboçou um sorriso, não encontrou feridas de gravidade nos dois cães da serra; perto depararam com dois lobos feridos mortalmente, mas mais adiante um outro arrastava-se penosamente, e foi deposto com mais um tiro da arma de Lícinio.

Os animais foram arrastados para perto de um regueiro ao descer a serra e um desvio de duzentos metros da gruta de Alípio.

A alvorada ainda estava longe, mas o luar tinha aparecido dando uma clareza morna ao planalto encostado à gruta, onde os animais pareciam calmos, mas a cadelita turquesa, estava sempre ás voltas mantendo-os no lugar.

Os dois entraram dentro da gruta com Lícinio, a congratular o feito dos cães que também souberam defender o rebanho; mas agora era Alípio que dizia muito obrigado, por Deus o ter posto no seu caminho, e o congratulava pelo feito, dois lobos duma só vez era o máximo; com certeza que irá receber o prêmio; mas que sabia Alípio de prêmios; estes eram apenas oferecidos em batidas organizadas.

Lícinio olhou o relógio, eram quatro da manhã; lembrou-se da aflição de sua mãe e de seu pai, mas nada podia fazer pois não sabia como descer a montanha sem caminhos a não ser os de animais que o poderia levar por lógica à beira da água.

A lamparina feita de sebo dos animais, ardia na gruta dando uma luz tênue, mas os dois se podiam ver, quando Alípio disse ao alvorecer vamos guiar o rebanho serra a baixo, pois o povo da aldeia vai subir a serra à sua procura, e eu não quero que encontrem a gruta, que é minha morada na serra, por tal arrastamos os lobos para a nascente, eles os devem querer mostrar no povoado….

Lícinio pondo-lhe a mão do ombro, perguntou e como vai tua escola?… (resposta) Senhor eu não sei o que é escola, meu pai não sabe ler nem minha mãe; minha irmã essa sabe um pouquinho, que Aprendeu o outro verão com gente que esteve no solar de Vilarinho.

Logo nasceu a idéia de ensinar a ler aquela criança, que lhe salvou talvez a vida, pegando num pau escreveu A B C D… perguntando se Alípio sabia o que aquilo queria dizer. Ao ouvir a resposta, não; Lícinio respondeu, isto é a chave que pode abrir a porta ao teu aprender… Tudo se modificará; Alípio, tudo dependerá de ti, queres tu aprender?…

Os seus olhos e face abriram-me num grande sorriso, dizendo, isso seria o realizar de meu sonho.

Depois de Alípio ir dar carne seca e fumada a cada cão, pegou numa espécie de malga de pau que ele mesmo tinha cravado com seu canivete e encheu-a de leite pegando um queijinho, e convidou Lícinio a matar o jejum; em breve, desceriam a montanha com os animais até ao segundo planalto; dizendo:

Toda a aldeia deve estar neste momento a caminho da montanha, procurando-o por todos os lugares possíveis, eu não quero que encontrem minha gruta; eu encaminhava-o para a aldeia, mas tenho também a responsabilidade dos animais; com eles, levaria até o sol estar a descer; mas se ninguém aparecer até o sol estar a pique, eu descerei à aldeia e trarei um guia antes do anoitecer.

Depois que chegaram ao sopé, da nascente do planalto, os animais ali repousaram bebendo a água fresquinha ao longo do regueiro, e mesmo na pequena poça que o terreno ancorava água para regalia dos animais se saciar.

Ouviu-se um pequeno ruído que vinha de muito longe, e Lícinio seguiu para um penedo mais no altinho e disparou um tiro, uma meia hora mais tarde chegava o latido de um cão, que por vezes se calava, talvez com cansaço.

Um outro tiro disparado pela Arma de Lícinio, pouco depois, ouvia-se vozes que se aproximava, três se aproximavam, um deles era o feitor do conde de Vilarinho, senhor do rebanho guardado por Alípio, outro era o pai de Alípio e o terceiro era o regedor da aldeia, que perguntou!… virando-se para Lícinio; o Senhor é o filho do Visconde Vitorio da Gama?…

Resposta afirmativa; e o regedor continuou, pedia a seu pai para ficar junto de seu estojo de pintura, que poderia ser muito cansativa a sua procura, mas afinal ainda temos a manhã a meio, e está tudo de boa saúde, até dá impressão que na serra não existem lobos.

Neste momento Alípio conduziu os três homens recentemente chegados junto aos três exemplares de carnívoros da serra, que os deixou pasmado e os cobriam com perguntas, os dois a tudo responderam sem mencionarem a gruta, apenas o pai de Alípio Tornou a cabeça para esboçar um sorriso.

O feitor disse a Alípio que iria mandar um homem para o substituir, de pois de Lícinio recriminar os homens dizendo; não se deve deixar uma criança sozinha na serra, mesmo que essa criança se saiba defender melhor que eu o saberia.

Esta criança deveria freqüentar a escola, estamos a tempo de terminar a escravatura e o analfabetismo.

Ouve uma grande festa na aldeia, que entrou noite à dentro, iluminada por grandes velas, de sebo de animais mortos para consumo. A fogueira era enorme e cada um procurava assar os seus nacos de carne espetados em varas de loureiro, havia concertinas, danças e alegria. O vinho saia da torneira oferecido pelo feitor do Solar de Vilarinho, em honra dos três lobos morto, que muito dizimavam os rebanhos locais.

Alípio estava contente, tinha certeza que iria poder dar as botas de trabalho a sua mãe. assim como os sapatos de ir à missa, ao outro dia, na feira de São Bento.

Continua…

Por: Armando C. Sousa

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