| Caçada
do destino II
Como
ia dizendo no capitulo anterior; Lícinio esqueceu-se do tempo
e das horas.
O
perigo de se perder era iminente, não tendo bússola
ou sol que o pudesse guiar.
Nada
mesmo nada, a não ser o seu instinto, que tantas vezes fica
confuso com o cenário igual da natureza, e assim Lícinio
seguiu os rastros do veado que mais uma vez aparecia e desaparecia,
Lícinio na ânsia de conquistar um troféu para
sua casa de Cintra, atirou viu os arbustos mexer e correu, mas estava
a mais de cinqüenta metros de distância, quando chegou
ao sitio onde esperava ver o veado apenas o viu espreitando, agora
muito mais longe, mas uma tosse convulsa acometeu os pulmões
de Lícinio, que este sentiu a cabeça à rodar
e a vista a desaparecer, Lícinio sentou-se num penedo com
a cabeça entre as mãos até sentir que estava
mais calmo, e ver que já não andava tudo à
sua roda.
O
dia desaparecia, o tempo tornou-se ainda mais escuro com o nevoeiro
que estava a envolver os sopés da montanha.
O
moço levantou-se e principiou a caminhar com o intuito de
regressar ao solar de Vilarinho, mas quanto mais caminhava mais
longe ficava do solar sem se aperceber…
Neste
momento ouviu ao longe e mais no alto o boiar de uma voz que chamava
cantarolando, dizia, Liro anda p’ra cá,… Rolo,
anda também, trazei para aqui o gado, cá é
que se está bem... Lícinio seguiu aquela voz e foi
deparar com um espraiado encostado mais ao pico da montanha onde
o mato era baixo e muitos animais comiam as últimas cristas
de mato, do dia.
Mesmo
encostado à montanha, via-se como uma porta feita de vergas
e de giestas já ressequidas.
Correndo
apareceu Alípio segurando os dois cães, corpulentos
e de ar pouco amigo, ostentando uma larga coleira de grandes espinhos,
defesa se forem atacados a defender o rebanho, a criança
não aparentava mais que nove anos; pés embrulhados
em peles de cabritos, e uma flauta de bambu pendurada ao peito;
circulando à volta dos animais, um outro cãozinho,
de cor preta e branca, que dava pelo nome de turquesa, este em menos
de nada, juntou mais de uma centena de ovelhas, cabras, e cabritinhos.
Então
meio apavorado Lícinio disse, creio que estou perdido, e
a noite não tarda a cair.
Alípio
respondeu, eu não posso conduzir o Senhor agora e o gado
ao povoado hoje, mas o senhor pode ficar esta noite na minha gruta,
ao mesmo tempo que retirava da sacola que trazia a tiracolo, dois
coelhos mortos talvez por laçadas ou caces pela cadelinha
(Turquesa). Alípio retirou aquela porta feita de vergas,
e giestas, que dissimulava a entrada da gruta cravada na montanha,
e franqueou a entrada a Lícinio, acometido este nesse momento
por um ataque de tosse, que o deixava ofegante.
Lícinio
olhava estupefacto, (pasmado) para o recheio que continha aquela
gruta, dependuradas, vergas em estilo de prateleiras, plenas de
queijinhos, que deveriam ser delícia; por todos os lados,
se poderia ver carne fumada, de coelho, e talvez cabrito, ou carneiro;
Lícinio indagando o porquê; Alípio lhes respondeu,
parte destas carnes são para alimentar os cães, outra
para meu alimento… estas parte vem de animais atacados pelos
lobos, que eu recolho para os cães, esta aqui é de
um animal de perna partida que se não podia defender.
O resto, são coelhos, obra da cadelinha turquesa , que não
deixa escapar um, se lhe pegar: os queijos são para eu vender
sábado na feira de S. Bento, pois queria comprar umas botas
de trabalho a minha mãe, e uns sapatos de ir à missa;
seus olhitos riram-se de enorme satisfação…
neste momento os olhos de Lícinio esbagoavam acometido pelos
sentimentos que embalavam aquela criança de tão tenra
idade, e os cuidados que sentia pelos seus semelhantes e família.
Alípio
veio alimentar os cães, recomendando-lhes para guardar o
rebanho dando-lhe mil e um afagos, a cadelinha turquesa encurralou-os
num circo em pequeno espaço todos os animais, e Alípio
foi tratar dos coelhos, e de fazer um chá de flor de mato,
para acalmar tosse que acometia Lícinio.
No
solar de Vilarinho os pais estavam em enorme alvoroço pela
hora tardia, e não viam Lícinio chegar, não
conheciam ninguém, nem ninguém os conhecia na aldeia,
mas os Pais cheios de medo, foram bater na porta mais chegada ao
solar; os aldeões apenas diziam que não se aventuravam
de noite na serra, ao mesmo tempo acalmavam os pais alvoraçados,
dizendo a noite traz bom senso e sabedoria, os galhos, de uma árvore
serão a melhor cama, e pela manhã faremos uma batida
a serra…
Ao mesmo tempo Lícinio depois de comer uns queijinhos, e
um pouco do coelho preparado pelo pequeno Alípio, tomou um
bom chá de flor de mato, e folhas de pelicom da serra, deitando-se
nas peles de ovelhas, que serviam de cama, assim entrou no país
dos deuses do sonho.
Continua…
Por:
Armando C. Sousa
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