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Vésperas de Natal
Estávamos
na década de 60 do século passado, duas ditaduras
implacáveis em Portugal e Espanha...
Em
Portugal o Salazarismo e a P.I.D.E. em Espanha reinavam o Franquismo
e os Carabineiros.
A pobreza se fazia sentir em demasia... fome, mesmo trabalhando;
Portugal depois de ser escorraçado de suas possessões
na Índia encetou numa guerra colonial impossível de
manter; deixando o pais cada vez mais na miséria.
França
com sua juventude desbastada e envelhecida pela segunda guerra mundial,
principiava a levantar-se e se reconstruir, precisava de trabalhadores
para se levantar, quer na indústria, na agricultura ou na
construção...
Portugal
vivia debaixo da mão de ferro Salazarista e da Policia PIDE,
certos lugares não havia trabalho, viviam da terra que tinha
sido dividida em leiras, heranças de famílias.
Estas
terras não eram o suficiente para viverem delas uma família.
O
que vos vou contar ouvi-o nos anos que trabalhei em França...
Sr. David Pinheiro vivia com a esposa e dois filhos num desses lugares
sem trabalho algum para sobreviver... os dois filhos saturados de
tanta miséria resolveram-se a imigrar clandestinamente para
franca; avisando seus pais por uma carta deixada no correio; antes
tinham dito que se ausentavam para Lisboa Procurando Trabalho.
Foi
grande surpresa para a mãe que já se encontrava adoentada,
o choque foi ainda pior.
Esta
pobre Mulher veio A falecer meses depois sem poder ver os filhos
que ainda não tinham arranjado passaporte, e a vinda a Portugal
seria cair nos calabouços da PIDE... estes sabiam que de
todas as maneiras não voltariam a ver sua mãe... cadeia
e maus tratos se voltassem... sua mãe sabia disso também...morreu
de câncer abençoando seus filhos que lhes enviavam
o que ganhavam para medicamentos e Drs.
Natal
estava a porta... estes escreveram a seu pai para por documentos
em dia e ir passar o natal com eles em França.
Com
algumas dificuldades, mas com grosas gorjetas e com sua idade conseguiu
o que queria...
Ninguém sabia que os filhos estavam clandestinos em Franca...então
vendeu a última vaquinha e se dispôs a ir viver algum
tempo com os filhos.
Naquele
dia chegou a estação de embarque de Vilar Formoso;...enquanto
esperava, sentou-se fora da estação a ver o ambiente
que era a primeira vez que ali se encontrava... tirou uma sanduíche
do saco e principiou a comer, logo ele chamou a atenção
uma ganidela de cão vira lata que procurava alguma coisa
na caixa de lixo fora da estação... ao mesmo tempo
um grupo de putos com fisgas atirando ao cão...
O
homem levantou-se e foi direito aos garotos em defesa do cão;
os putos enroscaram-se no velho homem pedindo um bocadinho da sanduíche,
mas ao mesmo tempo despojavam-no de tudo que tinha nos bolsos incluindo
os documentos que pouco antes tinha examinado e tudo estava certo.
Os
garotos depois do feito fugiram e o homem entrou no comboio que
vinha de chegar.
Uma
senhora de idade madura mas viva, presenciou alguma coisa de anormal
entre o homem e os putos; mas eram horas de entre na carruagem que
a levaria a visitar seu marido e filha que também tinham
ido clandestinos mas já tinham documentos em dia.
Chegava
o natal e ela Chegava o natal e ela ia juntar a família depois
de ter passado duas semanas com as irmãs e os velhos pais.
Sentou-se,
o homenzinho veio e sentou-se no banco do outro lado.
Logo
o alto-falante anunciava que a polícia da fronteira iria
examinar os documentos.
O
pobre do homem meteu as mãos em todos os bolsos mas nada
encontrou... logo pensou que os putos o roubaram... mas que fazer?
Os carabineiros já estavam na carruagem, e sabia que seria
preso... principiou a rezar...
Foi
quando a senhora ao lado se levantou dizendo em voz alta e desvairada...Cala-te
bruto...estúpido, pegando mesmo no jornal que tinha e lhe
deu com forca na cabeça, ao mesmo tempo que dizia baixinho;
não digas nada e vamos ver.
A
polícia vendo o homem sendo batido, vem para entrevir e perguntar
pelos documentos... esta ainda com o jornal... meu esquecido, bruto
estúpido...
O
homenzinho todo encorrilhado e calada; a senhora entregando seus
documentos, virou-se para a policia, Senhores me desculpem mas este
homem vem se esquecendo de tudo... esqueceu-se dos documentos em
cima da cómoda...
A
polícia teve pena do homem de ser batido e desfeiteado pela
suposta esposa, dizendo desta vez passa...
A
policia desceu da carruagem e o comboio principiou a rolar via (Irun)
Ultima Estação Espanhola.
O
homem olhava para a senhora, gostaria de lhe dizer obrigado, mas
esta de ar altivo continuava lendo...
O
Natal daquelas duas famílias foi mais alegre; a Senhora Matilde
contando seu feito quase heróico; o Sr. David contando a
bravura dessa mulher e o que podia ter acontecido por ter ido em
defesa de um cão vadio.
Por:
Armando C. Sousa
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