Um dia de Mineiro

 

Em 1968 cheguei ao Canadá e tive como primeiro trabalho numa pequena companhia onde os empregados eram todos imigrantes vindos de Portugal Continental, e todos como eu tiveram de aprender o oficio.

O trabalho era manipular a borracha, e com ela construir bombas enormes para retirar do fundo da mina o (selodge) resíduos dos furos feitos na pedra donde se extraia o urânio.

Este trabalho tinha muitas facetas, e requeria muita visão e habilidade, paciência para dar tempo a que o cimento tivesse o tempo necessário para secar, os cortes da borracha tinham de ter a geometria de um alfaiate, os canos tinham de ser todos forrados com tubos de borracha, até pelo menos 25 fitos de longo e por vezes dois fitos de largo.

No espeto de trabalho os imigrantes Portugueses desde que chegassem a um trabalho venciam, e guardavam sempre uns segredos para se suporem melhores que os colegas.

Tudo isto estaria certo se não existisse entre eles uma certa inveja, e por vezes umas pedradas de traição…

Passado um ano, por motivos de simpatizar com a união, e fazer o possível para que pudéssemos formar o estatuto de nos agrupar e lutar por benefícios e segurança no trabalho,… deu razão ao meu despedimento, mesmo sem fundos e cinco filhos e um outro no ventre da esposa.

Isto aconteceu porque no ceio dos trabalhadores haver os tais (cuzeiros) que vivem com o mal dos colegas; eu fui despedido com mais meia dúzia dos iniciadores da União, que não chegou a ser.

Daí fui trabalhar para uma mina de urânio, onde continuei trabalhando até que chegou minha reforma, uma dúzia de anos no fundo da mina, e os restantes trabalhando na surfasse da mina, na surfasse retomei o meu primeiro trabalho no Canadá, com a borracha.

Mas é do fundo da mina que vos quero falar.

Cada dia despíamos o fato ao chegar aos armários onde ficavam guardados, íamos para uma sala onde se encontrava o fato de mineiro as botas e o capacete, ali tínhamos de respirar o pó de alumínio que era forçado dentro da sala, e assim era a única proteção dos nossos pulmões, contra os três amigos da radiação, (radio Dora) (radio gama) (radio ultravioleta)... Nota, muitos de meus colegas morreram de câncer, eu tenho sido um dos protegidos pela sorte, mas sempre com muita dificuldade de respirar; para viver valeu-me o ter deixado de fumar, já lá vão 17 anos;

Como todos os mineiros a cada dia pegava minha lancheira uma malinha feita do alumínio preparado para o termo não dançar dentro e partir, assim minha esposa arranjava sempre um bom lanche onde se aquecia no fogão da estação de refúgio, á prova de fumo em caso de incêndio… de vez enquanto o meu lanche desaparecia, e eu ficava apenas com o termo do café e a fruta que sempre levava, pois o trabalho de mineiro precisa ser alimentado, ou não teria forças para manejar as máquinas, e carregar com todos os apetrechos de mineiro, assim ficava sem meu alimento.

Principiou a ser isto muitas vezes seguidas e apenas pegavam meu lanche… umas pernas de coelho bem temperado, ou chouriças feitas em casa… uma boa posta de bacalhau, enfim tudo desaparecia uma ou duas vezes por semana.

Então nasceu em mim um projeto diabólico para descobrir o lambão do meu lanche.

Um dia levei chouriças feitas em casa, elas desapareceram eu nada disse ao lanche, mas na hora de regresso quando todos os homens estavam juntos esperando pelo transporte, eu levantei-me e disse, hoje alguém comeu as minhas chouriças que estavam no fogão coisa que já as trouxe preparadas para isso mesmo, é que alguém tem comido o meu lanche e eu hoje fiz a chouriças com trampa que caguei, e para lhe dar mais paladar deitei-lhe remédio dos piolhos, ora aquele que as comeu que tenha cuidado com a disenteria.

As minhas palavras foram mágicas, o meu encarregado mineiro, principiou aos vômitos esperando vomitar as tripas, debaixo duma enorme gargalhada de todos os mineiros que eram cerca de duas dúzias naquela estação, regressamos a surfasse; naquele dia, e noutros seguintes, este passado se tornou na conversa e na risota do dia, chegando mesmo aos ouvidos do capitão que despromoveu o encarregado a ajudante de encarregado e o moveu de turno para não enfrentar a vergonha desse dia de mineiro.

Verdade que as chouriças eram de grande qualidade feitas e defumadas por minha esposa com carne fresca porco da Farme e preparado em nossa frente, e o cheiro dos pitéus à portuguesa é que atraiam mais esse guloso.

Nunca mais me esqueceu esse dia de mineiro.

 

Por: Armando C. Sousa

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