Palavras
companheiras
Sim,
saudades e lembranças, podem parecer comparáveis
sinônimos, talvez que nós agarramos os dois e os
lançamos na escrita, mas o sentir, é completamente
diferente.
Lembrança
vem da mente da memória.
Saudades,
essas vem dom grande aperto no coração, por vezes
é como uma bomba que faz rebentar os diques das lagrimas,
vem do nosso sentir ou do fundo da nossa alma, do nosso eu.
Quantas
vezes as lembranças nos faz rebentar lagrimas de tédio,
como aquelas que eu tenho do tempo da febre tifóide onde
via os olhos de meu irmão rolarem em branco, e a dizer
palavras sem nexo.
Quero
dizer; muitas lembranças e poucas saudades, de o ver dessa
maneira; mas ao chegarem essas lembranças, vem carregada
de saudades, desse tempo, d’outros momentos que me fez viver.
Boas
lembranças quantas vezes chegam com a primavera, com o
caminhar para o verão, com o ondular do trigo amarelecido
dos campos, com um cheiro que já cheiramos, na nossa mocidade
deixar-nos caminhar entre as espigas, para nos esconder de olhares
mais curiosos; quantas vezes a música, nos acarreta boas
lembranças, mas mesmo assim são diferentes das saudades.
Saudades
chegam mais amarradas à solidão, vem sozinha a surgir
do fundo do peito, é um aperto a quem demos muito carinho,
quantas vezes as saudades bem embrulhadas em beijos, ou em pão,
outras vezes vem dentro da imagem duma casinha que já não
existe.
Lembranças,
quantas vezes procuramos atira-las para bem longe, e então
pegamos no remoto da televisão e procuramos alguma coisa
que nos distraia dessa persistente lembrança que quantas
vezes nos embaraça.
Sim
meus amigos, lembranças dos pés descalços
e gretados pelo frio, e por vezes aqueles dentes de neve que tínhamos
de pisar: estas são lembranças que fazem doer, e
vem agarradas à saudade desse tempo de escola, da brincadeira
com o pião ou a bugalha; aqui podeis ver que são
palavras companheiras, uma queremos a arredar, a outra deixamo-la
repousar num cantinho do coração e afagamo-la com
carinho.
Saudade
é sempre macia mesmo que doa, será difícil
apagar os beijos e carinhos de uma mãe, mesmos os beijos
de minha esposa e de meus filhos não trazem o mesmo som;
sim, as saudades têm um som que nunca se cala, o coração
tantas vezes pede aos ouvidos para escutar o som da saudade, por
vezes ao som do som rebentam os diques das lagrimas.
Nós
podemos-nos lembrar das horas dos números de lugares, de
alturas ou profundidades, formulas ou receitas.
Saudade,
esse é um ponto onde se entranha e extasia o poeta, para
dar profundidade a seu pensamento, o som da saudade com que o
poeta rima as poesias, tornando-as em ternas melodias.
Lembrança
também pode ter som e não doer, ou até dar
prazer, como aquele dia de verão, na noite de S. João,
à procura do trevo, ela era moça eu mancebo.
Mas
estas lembranças vêm apenas amaciar nossa vida, e
preencher nosso eu.
As saudades vencem o medo da morte, galga distancias, atravessa
mares, voa pelos ares, as saudades desafiam a vida, fazem doer,
mas nós queremos essas saudades que nos faz chorar, manter
vivas para a vida.
A
lembrança bem e vai quase quando cremos, saudade é
o solo que governa nossa moralidade, é a bomba que faz
rebentar as lágrimas, para voltarmos a sermos nós
com mais tranqüilidade, mas com crescente saudade.
Se
nos lembramos e temos saudades de nossas brincadeiras, estas são
as palavras companheiras.
Por: Armando C. Sousa