Milagre da cruz II

A sobrinha


Naquela mesma noite a mocinha acreditando nas promessas do jovem marinheiro, com seu coração batendo como um cavalo desenfreado pé ante, pé lá foi recolhendo todos os trapos seus e de seu filho, sabia que não podia ficar naquele lugar onde a família lhe dava mal viver, e os vizinhos davam a conhecer seu desprezo. Era assim o viver antigamente, ensinar a ignorância como saber, e o desprezo como educação, a experiência seria a grande escola, o sofrimento sua universidade.

Mas a razão de viver era mais forte que todas as negruras porque passaríamos, o querer removia montanhas (digo isto porque a vida me ensinou) então a Camélia foi de encontro ao marinheiro, que lhe prometeu sabe Deus o quê àquela rapariga lindíssima, que apenas seu defeito era acreditar, era ingênua e simples; ela pobre e ignorante cria que todo o mundo era da mesma maneira, mas afinal o mundo está cheio de interesses, começando pela sua tia, que criou toda a ingenuidade naquela cabeça cheia de ilusões.

Camélia depois de sofrer o primeiro revés ainda se deixou conduzir nos braços do Marinheiro.

Lá foi ela com ele, passando dias e noites, escondida no porão, até chegar ao porto da liberdade.

O marinheiro levou a linda rapariga para um hotel, onde ela ficou pasmada ao ver tanta grandeza e riqueza, mas o marinheiro logo a desenganou, que ali não podiam ficar, que seria preciso encontrar um quarto e uma cozinha para poder viver.

Depois com muitos abraços foi-lhe dizendo que teria de partir em viagem outra vez; ficariam 3 dias de hotel pago que eram todas as economias que tinha e com elas as deixava, mas em verdade que tudo se vende, e se não encontrasse outra solução para sobreviver, teria de vender amor em vez de dar amor.

Conseguiu que ela ficasse a lavar louça no hotel, mas teria de conseguir alojamento. O marinheiro partiu, todo se passava como um sonho, agora num País desconhecido com um filho nos braços, sem casa ou cama para descansar, dormiu ainda uma noite com seu filho ao relento da noite, até que uma mão caridosa a levantou dando-lhe agasalho, encaminhando-a para melhor trabalho e ensinando-lhe a língua daquele País, aquela pessoa naquele momento foi o amor que todos deveremos dar, levantar quem cai, dar de comer aos famintos, ensinar aos ignorantes, a cima de tudo deixar pousar a mão amiga e ajudar os confusos de espírito.

Camélia acreditava cegamente em sua tia e no seu milagre da cruz, assim todas as noites orava por sua tia.

Os anos passaram, aquela linda rapariga singrou na vida sozinha com seu filho, de seu trabalho conseguiu um bom pé de meia, e assim comprou sua primeira casinha, considerando-a seu castelo.

Camélia aprendeu muito com as dificuldades, deu e vendeu amor, mas subiu na escala social da vida, que se tornou uma universidade de experiências, vencia suas tristezas cantarolando, cantigas de outros tempos, e outras que procurava poetar.

Camélia singrou sim, na vida, mesmo se pode dizer que venceu o monstro da ignorância e da pobreza.

Um dia recebeu uma noticia que a deixou aterrada, a cruz que ela tanto adorava, e que foi seu símbolo de amor, desmoronou-se num dia que o vento ciclônico assolou a ilha, juntamente com um tremor com o epicentro a bastantes milhas no mar.

A cruz caiu sobre a casinha da serra, e assim aquela cruz que proporcionou uma vida desafogada a senhora Maria, essa mesma cruz lhe deu uma morte sem sofrimento.

Fernando, muito chorou: aquela que lhes deu tanto amor, e um viver sem preocupações. Maria nunca lhe deu filhos do seu amor, mas fazia-lhe tremer as cordas do corpo a cada dia.

Fernando que nada sabia das artimanhas da esposa expandia a lenda da cruz, e da caixinha. Camélia sempre acreditou no amor que sua tia pregava, não se esquecendo do primeiro amor, que lhe o deu o filho que hoje com 15 anos estava a ficar um homenzinho; ela sempre pensou que foi servir a Deus.

Foi nessa altura, que Camélia voltou à ilha pela primeira vez, depois de partir para um novo mundo com o Marinheiro.

Ali junto aos escombros da casinha da serra e os restos do que foi a cruz do amor, Camélia prometeu a seu Deus, reconstruir a cruz, que ele mesmo, Deus, a haveria de iluminar com o vento da serra; ela acreditava em todas as lendas que lhe fizeram entrar na cabeça em criança, mas não a creditava em que outras pessoas amigas acreditavam.

A Mãe natureza, mesmo sabendo que a natureza nos alimenta, nos oferece maravilhosas flores de mil e uma cores, as árvores, de que se formam nossos tetos, o tilintar das águas das fontes, que nos sacia a sede, e nos mantém com vida, na criação de animais em que nossos olhos extasiam, e deles nós vivemos; no sopro de ar, que nos mantém respirando, porque quando nos faltar um sopro de ar, a Mãe Natureza nos recebera nas suas entranhas, para lentamente nos voltar a dar vida, mas essa ingênua acredita firmemente na cruz do amor, que a gente da ilha ergueu por de traz da casinha da serra, onde os olhos se erguiam ate ao azul do céu, ou ao braseiro cintilante das estrelas; símbolo e motivo porque se fomentaram tantas guerras, motivo do viver egoísta, e o motivo que nossos olhos nunca viram, mas com todas as lendas e mentiras que ouvimos nos faz tremer nas trevas da noite.

Livrei-me de todas as crendices ao ter de trabalhar no fundo de uma mina a 1.500 metros de profundidade, onde a escuridão era total as rochas estalavam a cada estante semeando o medo e pensamentos de endoidecer: assim, ali, atei deuses e diabos, para abraçar a natureza e ama,r a todos os elementos que ela comporta, incluindo o meu próximo.

Para mim o Deus que criou a natureza e os infinitos dos seus, é o que adoro no símbolo da natureza, minha mãe, e minha Deusa.

Por vezes a simplicidade e pobreza de espírito não morrem, para as lendas continuarem.

E até incrédulo vê milagres no que é apenas astúcia .

Por: Armando C. Sousa

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