| Conto
de Natal
Caído na lama!
Fins
de Dezembro de 1958 estávamos na noite de 23 para 24, cheguei
de trabalhar.
Eram aproximadamente 6 horas da noite, estes
dias são os mais pequenos do ano.
Entrei em casa, estranhei a lareira apagada; nem um pouco de brasido,
tudo frio.
Não se ouvia um rugido dentro da casinha em que vivia.
A luz da candeia a petróleo estava apagada.
Lá fora a chuva continuava caindo impertinente, o vento soprava,
começando a fazer assobiada por entre as folhas dos eucaliptos
na bouça de Ô'res; as fitas dos eucaliptos estavam
ficando soltas e batiam anunciando tempestade. Acendi a luz de petróleo.
Corri ao quarto de minha mãe, mau agouro corria em meu pensamento.
Foi grande o meu alivio ao vê-la deitada, mas tornando-se
ao sentir o som de meus passos que se encaminhavam para ela.
Ao perguntar, mãe que se passa?... Pus-lhe a mão na
testa, senti que ardia em febre.
Fervi um pouco de água com cinco folhas de Laranjeira para
o chá não ser muito forte
Dei o chá a minha mãe pedindo para o tomar que seria
muito bom para o peito, o que ‘ela me fazia em criança’
disse-lhe: mãe vou chamar o médico, e tome o chá
quentinho!
Peguei no guarda-chuva começando a correr para galgar os
quatro quilômetros que me separavam da residência do
Dr. Lobo, que residia a 100 metros da fabrica onde eu trabalhava.
Ali chegado, vi que se encontrava no meio da ceia, ou jantar, como
lhe queiram chamar.
O Dr. ao indagar o que ali me levava, indiquei o estado febril de
minha mãe, ele vendo minha ansiedade, disse-me, os caminhos
estão terríveis, e o meu carro em más condições.
Olha, vou lhe receitar três injeções de sernesgestim
(penicilina); vais pela farmácia, pegar na receita, e faz
certeza que ainda hoje lhe seja injetada uma injeção;
eu irei visitar tua mãe, depois das festas.
Naquele tempo ninguém mesmo ninguém ousava contrariar
as ordens de um Dr.
Fiz tudo à risca, mesmo pedi na farmácia a bomba de
injetar.
Antes de entrar em casa fui pedir a Sra. Dª Matilde o favor
de vir ver minha mãe; pouca sorte, ela também estava
acamada; o Sr. José enfermeiro, tinha partido para o Porto.
Para passar as festas de Natal com a família.
Eu cismava, cismava no que havia de fazer. Então determinado,
mas com ternura, fui junto de minha mãe e disse: mãe!
Deixe-me ser seu enfermeiro por uns minutos, amanhã estará
melhor.
Minha mãe respondeu, o que entenderes, já que não
há mais ninguém.
Preparei o estojo, da mesma maneira que tinha visto no posto médico.
Da mesma maneira, o fiz pela primeira vez, no corpo de minha mãe,
aconcheguei-lhe os cobertores e dei-lhe boa noite.
O vento continuava zumbindo, e a chuva caía, por vezes rajadas
fortes de vento faziam deslocar telhas do beiral.
De já alguma pingas encharcavam a cozinha de terra em que
vivíamos, passei uma noite horrível, com o medo da
tempestade, e o de perder minha mãe por falta de cuidados
médicos e o meu atrevimento, em lhe ministrar a injeção,
sem o menor conhecimento precedente.
Cinco e meia da manhã toca o despertador, meio sonolento
levantei-me para aquecer um pouco de cevada, que tinha deixado na
chocolateira de barro atrás das panelas de pernas com o cosido
para o bacorinho.
Tudo encharcado peguei na máquina de petróleo fervi
um pouco de água para um chá de cidreira, que o servi
a minha mãe com um papo seco do dia anterior.
Servi o cosido ao bacorinho, e com a marmita com um pouco de sopa
de couves, e miolo de pão de milho esfarelado, a sopa já
estava feita á dois dias.
Segui para o trabalho, com a roupa ainda ensopada do dia anterior,
e pensando em minha mãe, mas tinha de seguir.
No fim do dia de trabalho 24 de dezembro, 5 horas da tarde, encaminhava-me
para casa, a 50 metros da fábrica havia um café, posto
de pastelaria, parei olhando para a montra, onde estava exposta
uma rosca de pão de milho, pensei, deverá consolar
a mãe!
Entrei disposto, essa rosca se não custasse mais de 20$00,
era o dinheiro que tinha comigo; perguntei o preço, disseram-me
25$00, abanei a cabeça, ainda pedi para me venderem metade;
mas nesse momento veio o Sr. que se encontrava ao telefone, dizendo,
desculpe, não pode ser, está vendida.
A noite estava a ficar fria e escura, cabisbaixo segui, mas ao passar
por algumas casas da freguesia de Delães, cheirinho agradável
me vinha ás narinas;
Pensando em minha mãe, acelerei o passo, 15 minutos passados,
entrava em casa; porta aberta e tudo escuro.
Fui ao quarto de minha mãe, estava vazio.
Como louco corri toda a casa, mas não encontrei; desesperado
gritei, mas que negro Natal para mim é este...Lembrei-me
que teria ido para o hospital.
Corri, corri gritando, com tanto correr escorreguei, bati com a
cabeça numa pedra e ali fiquei desmaiado caído na
lama. Alguém me encontrou caído e desmaiado, levando-me
para a casa que melhor me podia dar socorro.
Levaram-me para venda do Nequinha, que já se encontrava encerrada
para a ceia e festejar a noite de Natal.
Era uma casa farta; mercearia e taberna, onde todos eram conhecidos.
Comecei sentindo um cheiro tão agradável, música
tão suave, minha cabeça dorida,
Parecia que via estrelinhas, mas ao mesmo tempo, parecia sentir
como algodão macio passar-me na cara e braços.
Abri os olhos e vi como a cara de um anjo, mais uns segundos e reconheci
a cara: era a Lipoldina, criada da casa Nequinha; (isto cá
para nós, eu até não desgostava da moça
que me estava a por gelo na parte dorida que eu sentia gelada).
Ouvi bater à porta, e reconheci a voz de meu irmão
perguntando. Senhora Lurdinhas o meu irão está melhor?
Foram me dizer que o encontraram caído na lama! Foram chamar
por mim dizendo que o tinham trazido para cá!...
Talvez eu fosse o culpado por ter levado minha mãe ao hospital
ao encontra-la na cama
esta tarde, quando a vinha visitar.
No hospital disseram-me: Teu irmão salvou tua mãe
a administra-lhe a primeira injeção de penicilina.
Aplicaram-lhe outra, recomendando para a agasalhar, que pelas festas
seria melhor cuidar dela em casa que no hospital,
Dei boa noite e um obrigado desejando a todos Natal Feliz a todos
que me socorreram da lama, e um olhar cheio de amor a Lipoldina,
de quem senti afagos de anjo no meu sono de morte.
Com a cabeça dorida, segui meu irmão, a noite estava
fria, e algumas estrelas cintilavam nas alturas do espaço,
mais ao norte uma era a maior e mais brilhante.
Talvez aquela que me inspirou a medicar minha mãe, ou talvez
guiou aqueles que chegaram para levantar meu corpo caído
na lama.
Entramos em casa, minha mãe encontrava-se sentada ao canto
da lareira embrulhada num cobertor.
Minhas cunhadas e meus sobrinhos e o meu outro irmão esperavam
a nossa chegada, para saborear as batatas com o bacalhau de Natal,
já tardiamente derivado aos eventos sucedidos.
Estávamos a meio da ceia de Natal, quando começaram
a estourar os fogos de artifício iluminando os campanários
das igrejas.
Estavam festejando o acontecimento, que dizem que aconteceu, já
lá vão dois mil anos,
A família estava reunida, onde a mãe foi o centro
dos acontecimentos.
Estávamos felizes, os sinos continuavam badalando á
meia noite, porque era Natal!
Por:
Armando C. Sousa
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