As dores

 

Em casa acabrunhado pela solidão, e com medo da podridão do egoísmo, e dos que pensam em superioridade do saber e do ter, resolvi dar uns dias de descanso às dores, pensei em agarrar as tristezas pelo rabo e dá-las à folia, pegar nas decepções e embaralhá-las com a alegria.

Estou realmente cansado de ficar em casa a procurar os algozes de minhas angustias.

Então resolvi vir cá para fora apanhar as folhas amarelecidas e caídas a gora nestes primeiros dias quentes de outono.

Vou fazer uma grande festa com elas, vou juntá-las em grade monte e antes de as por no saco para limpar o meu chão, deitar-me em cima e alegrar meu coração.

Dentro de mim quero que haja uma grande festa.

Quero quando a felicidade chegar (Felicidade é minha esposa) que me veja com o meu maior sorriso, vou retirar essas marcas dos olhos; sim essas encorrilhas que vieram com a minha idade, e que me acompanham já há tanto anos.

Amigos preparem-se para me aturar com as minhas rabugices, mas eu quero ser feliz, quero passear, conversar, quero conhecer melhor a humanidade; quero arrancar a mascara da dor, e vestir a da alegria.

Quero escrever muito, mas dizer sempre as coisas muito pertinho da verdade. Mesmo que apanhe uma decepção e meus escritos não sejam publicados, porque as verdades também são ofensivas, e eu até estou de acordo que se não deve chamar feia a uma pessoa que se assemelhe a um bode, ou dizer que só digo a verdades quando são os outros, que me deixam ou não dizer-lha.

Verdade que todos falamos da liberdade… mas diga-me quem é que é livre; a liberdade só é boa com lei, mas quem faz a lei não respeita lei nenhuma, reparai na pedofilia que existe da parte dos governos e da igreja… portanto são eles, sim, são eles que fazei a lei.

Mas lá estou eu… e hoje não quero falar de coisas más, nem de tristezas; vou escolher um filme de bonecos depois de me reboleirar nas folhas que já juntei.

Hum!… creio que vou ao quarto de banho e dar uma ajeitadela nas sobrancelhas que estão a ficar compridas e brancas, vou chegar um pouco de gracian formula aos arrebitos dos cabelos que tenho, porque não quero mostrar o que sou, quero agradar a mim mesmo, dar um sorrio e um bom dia para dentro de mim, com muito prazer.

Sabem uma coisa?… agora que eu estava a pensar em tudo isso, na minha mente estava-me a rebolar com minha esposa trinta anos atrás num hotel em Aveiro que até tinha pulgas, e quanto mais as pulgas ferravam mais nós saltávamos.

Mas o mais engraçado é que eu fazia o mais que podia para agradar, até retirei os cobertores de cima de nós para não cheirar tanto o perfume que acama tinha… eeeck.

O meu maior erro foi não saber anular os meus desejos e esperar, porque se soubesse seguia a viagem até um pouco à frente de Santo Tirso e ia-me rebolar numa cama que uma cunhada solteira que tinha o maior gosto de manter a cama mesmo apetitosa.

Quero dizer limpa e asseada.

Você sabe mesmo onde eu errei. Eu hoje sei… foi em vez de anular meus desejos, fui me entregar ao dono do quarto que me alugou a cama e as pulgas, foi lógico, elas faziam parte da cama e o perfume também era assim Portugal há trinta anos.

Mas agora se não estão de acordo de me verem alegre, retirem-se porque quero ser feliz, e aquele que quiser deixar a dor e viver feliz que me acompanhe.

Vamos saltar nas folhas do outono porque não tarda nada, que temos de pegar na pá, e brincar com a neve que vem a cada ano de graça, para nós brincar a machucar as chapas dos carros… bom, deixe-me ser feliz.

Por: Armando C. Sousa

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