Se
o relógio fosse meu...
Parava-o!
Eu sei que durante setenta anos me tem obrigado a dar
uma volta ao turno do sol uma vez por ano, e que essa maravilha
em fogo, me vem visitar a cada dia, mas os anos começam
a pesar, depois é preciso contar os meses, que vem cheio
de dias, e quantas vezes esses dias vem cheios de dores e nostalgias.
Vem o nascer de sois que a luminosidade nos bloqueia o olhar;
quantas vezes queremos o pensamento também bloqueado ao
ficar a olhar uma linda rosa cheia de perfume e gotinhas de orvalho
que lhe dá ainda mais frescura.
Quantas vezes queremos o relógio parado, quando estamos
a conversar com um verdadeiro amigo, e em nossas mentes, vai desenrolando
o filme passado nas nossas meninices, com nossas bocas a fazem
o sonoro, mas já sem aqueles gritinhos de alegria.
Quantas vezes na nossa vida queremos o relógio parado para
desfrutar um amor que nos deixa extasiados e com um prazer tão
grande que queríamos que durasse por tempo indefinido.
Sim meus amigos, se o relógio fosse meu já o teria
o parado um dia em que eu era jovem e dei minha palavra de cuidar
e amar… neste queria parado o relógio biológico.
Quantas vezes não queríamos acordar de um sonho
que em tão pouco tempo nos fez viver mil e uma maravilhas,
fez-nos voltar à infância, quantas vezes nos vimos
de novo nos braços de nossa mãe, e sentimos o paladar
de seus beijos cheios de carinho, de uma doçura incomparável,
ou até o afagar de seus cabelos branquinhos, o beijar de
suas rugas feitas num rio de lagrimas de prazer; aí queríamos
o relógio parado, mas que o relógio fosse o tempo,
e o tempo o movimento da mãe natureza.
O sol ficasse brilhando no subir por entre montanhas, dando às
flores aquela suavidade de cores, de beleza mágica que
atrai borboletas e beija-flores, ali ficasse a zunir as abelhinhas
num vai e vem de doçura; sim os beija flores, aqueles passarinhos
pequeninos, mas lindos que mal se vê as asas a bater, num
equilíbrio mágico que nos faz reter a respiração
para os não intimidar; é que nesse momento sentimos
amor em viver e queríamos perpetuar esses momentos, mas
só se o relógio do tempo parasse.
Quantas vezes a nostalgia se apodera de nossa alma nos instantes
de maior significância como o descer majestoso do astro
rei por entre nuvens avermelhadas formando castelosques nunca
serão alcançados pelo nosso caminhar, mas teríamos
o desejo de ali permanecer olhado o grande esplendor do mar; ver
a espuma branquinha, o seu ondular, ora verde escuro, ora verde
claro; se tivéssemos mesmo esse grande prazer de ver mesmo
os golfinhos na sua dança e orquestrando a música
do mar com seu cantar harmonioso de sereias, então se o
relógio parasse poderíamos ficar deslumbrados com
a cor e a magia, e o som, antes da meiguice do luar se vir instalar
nos olhos e corações cheios de amor e do desejo.
Mas se o relógio fosse meu parava-o; antes das gentes de
poder, maus, e sanguinários disparassem o primeiro tiro
depois de dar a voz de guerra.
Parava o relógio antes que sua boca se abrisse, e dela
saísse a primeira mentira.
Parava o tempo em campos verdejantes, e espigas bem douradas;
sim, antes da fome se instalar e comer a ultima bucha de pão;
antes do frio gelar o sangue nas veias de tantos desafortunados.
Pararia o relógio antes das SARES entrarem no sistema respiratório
de alguém, antes da mentira lavar tudo que de bom a inteligência
possa dar à sociedade, antes desses oportunistas puderem
andar a vender mentiras com imagens pintadas de dor, fingindo
amor.
Quando houvesse atos de amor queria-os perpetuar; mas só
parando o relógio.
Estou enormemente saudoso de minutos, horas, dias, de meses de
paz; ao mesmo tempo cheio de extrema felicidade: mas sei que o
nascer é continuar a morrer e para viver neste mundo cão
onde temos vivido, é preciso continuar a nascer. E para
continuar a nascer não pode o relógio parar, fará
falta passar nove luas, depois do nosso ato da loucura da carne,
com uma mulher.
Ou então a mulher usar a ciência que Deus deixou
crescer, para continuar o viver com o nascer.
Mas se pudesse parava o relógio biológico que atrai
um homem a outro homem, nem mais uma fração de segundo
badalava.
Por:
Armando C. Sousa