Segunda
sopa
Alcino
ficou mudo mas dentro de si a esperança nascia, ele acreditava
no sonho e na realidade, mas não queria intimidar sua
mãe.
Não
era louco, mas acreditava no impossível; acreditava em
mouras encantadas, acreditava em fadas ou riquezas escondidas
em penedos; acreditava que tinha ouvido a cobrinha, que ele
haveria de resgatar seu pai do degredo; acreditava no castigo
das fadas visto em seu sonho; em seu intimo tinha confiança
que as forças do bem sairiam vitoriosas; mas mais que
tudo gostaria de ouvir o nome.
Senhora
Condessa Isabel de Margarida, e vela sair com o regaço
cheio de pão saciando os famintos e abrindo a porta aos
peregrinos para pernoitar caminhando para S. Tiago.
Joli
já vinha com umas palheiras na boca como a dar lhe os
bons dias; e sua mãe já descia o escadario da
cozinha com seu bornal trazendo com ela um cheirinho a pão
quente que deveria fazer o regalo da cobrinha dos olhos azuis
par a segunda sopa.
Vamos
deixar um pouco o Alcino a levar as seus animais para o penedo
do forno e voltemos a Vermoim para ver o que se passa com os
caçadores.
Os
cães latiam ansiosos de irem espadaçar a sua presa.
Os
cavalos bem tratados estavam foliozos e impacientes; os clarins
suaram, e todos partiram na pista de seus cães; os fios
de aço atravessando os carreiros de caça lá
estavam fazendo as primeiras vitimas; em mais que um casos os
cavalos tropeçaram , cuspindo os cavaleiros indo estes
cair a charcos cobertos de lodo da floresta.
Outros foram varejados para trás dando uma pirueta mesmo
no traseiro do cavalo indo estatelando-se de focinho no chão.
Uns mancando com as pernas esfaceladas, outros encharcados até
ás orelhas, lá vieram a pé porque os cavalos
não estiveram para esperar.
A
esta hora Alcino já estará perto do penedo do
forno, vamos ver o que se passa e voltaremos. Pachorrentamente
cabras e ovelhas comiam as cristas das silvas e do mato.
Os
cabritinhos e cordeiro estavam sempre atrás das tetas
de suas mães, Joli encima do penedo do forno vigiava
o rebanho.
Alcino
depunha o seu bornal no penedo e retirava a flauta, quando de
repente sentiu que as giestas moviam e cabras e ovelhas alertavam
o ouvido; o cão latia mas sem medo...então Alcino
viu sair para o carreiro que levava ao penedo ama enorme cobra
mas de olhos reluzentes de azul cor do céu, tom suave
de meiguice e doçura.
Alcino
reconheceu a cobrinha sua amiga , mas teve medo da sua grandura;
mas logo se lembrou que um grande amigo terá um coração
ainda maior, e ela que lhe tinha restituído uma grande
esperança, seria loucura ter medo desta grande amiga;
aproximou-se e foi dar um grande beijo e um abraço á
agora grande cobra.
Esta
lhes respondeu já me cheira a pão fresco e a malhadinha
tem os uberes cheios, vai ser um regalo e uma grande surpresa
para ti Alcino, mas uma doce surpresa; Alcino pegou no penico
de esmalte branquinho que ele trouxe do quarto dos hospedes
mas que nunca tinha servido de pote da noite; mais uma vez o
passou por água e o enxugou a uma pequena toalha que
andava sempre no seu bornal.
A
malhadinha já estava junto de Alcino, e ali começou
o rapas a mungindo as tetas da cabrita para dentro do penico
e encima do pão que já tinha escarolado.
A
cobra pediu a Alcino que seguisse até á fonte
escondida, que levantasse a pedra em triângulo que logo
jorraria água para ele se lavar e que os seus olhos se
abririam para a realidade, para a magia, para o absurdo, para
o bem, para a justiça, mas acima de tudo, para o bem,
amor e tolerância.
Dizendo
todos os que acreditam em amor serão amados, todos os
que acreditam em tolerância serão tolerados, todo
o que vem por bem, o bem será sua semente e germinará;
a prova chegará a seu tempo, quando o bem aniquilar o
mal, haverá festa e paz entre os povos; mas nunca os
inimigos serão vencidos com guerras, só bombardeando
os corações duros com ternura compreensão
e ciência.
Retirou
a pedra de três esquinas, a água começou
a jorrar serenamente; com ela saia uma musica de embalar, tão
harmoniosa que mais parecia um coro celestial; entre outras
vozes pareceu que ouviu, vai agora ao penedo do forno, que alguém
te esta esperando.
Correu,
e em alguns minutos estava chegando ao penedo onde tinha deixado
seu grande amigo Joli guardando o rebanho e a cobra comendo
a sopa de pão fresco com leite da malhadinha, a surpresa
foi grande; junto ao penedo estava uma lindíssima rapariga
com trajos transparentes de mãos no ar dançando
ao som da sua flauta que tinha saído do bornal e se movia
como se fosse alguém invisível que a maneja-se.
Parou
não sabendo o que pensar, mas até o rebanho tinha
quedado de comer, e Joli estendia a lingua com olhos reluzentes
e de ar risonho.
Alcino
pegou na (croça de palha) espécie de capote de
palha* para a lançar sobre os ombros, mas logo a menina
rindo-se lhe diz, não te preocupes, só verás
pele imaginaria; Alcino eu sou a cobrinha dos olhos azuis que
muito te devo por teres acreditado nos teus sonhos, sem saberes
quebraste parte de meu encanto, e agora sempre que precises
de mim chama pela cobrinha de olhos azuis, e eu virei em teu
socorro.
Alcino,
amanhã eu te enviarei uma fada para que te ensine a ler
escrever e contar, a compreenderes a natureza e o que será
preciso fazer para bem da humanidade. Por hoje vamos em sonho
até ao Condado do senhor de Vermoim para ver o que se
passa com teu tio Conde de Margarida.
Alcino
encostado ao penedo do forno fechou os olhos e entrou em sono
profundo pelo condão da força mágica de
sua grande amiga ; deusa encantada do penedo da fraga. . a cobrinha
de olhos azuis.
Foi
transportado por uma força invisível que o ser
humano nunca conseguiu descobrir; o poder do sonho. Voando por
entre alamedas de carvalhos e castanheiros
Espreitando
por entre arbustos e charcos, subindo e descendo quase ao sabor
da brisa e do latir dos cães enraivecidos pelo despedaçar
do javali sem controle nem lei; mais adiante um homem estendido
sem movimento e sem gemidos.
Era
o Conde de Margarida, que tinha caído do cavalo quando
o javali agora sem vida, fugia dos cães e se atravessou
nas pernas do cavalo fazendo com que o Conde caí-se partindo
a coluna que o deixou paralisado e inanimado.
Os
homens do Conde de Vermoim já o procuravam por todos
os lados, estando mesmo chegando atraídos pelo latido
dos cães.
Alcino no seu sonho ouvia a voz da razão que lhe dizia
o mal dos outros não resolve os nossos problemas, mas
serás tu tua Mãe e teu Pai que tereis de resolver
as dificuldades de teu tio, tornando-lhe o resto da vida mais
doce e apesar do grande sofrimento que irá ter, toda
a aldeia irá ganhar.
Joli
latia sem parar e ao som dos latidos Alcino acordou e reparou
que pelo descer do sol eram horas de regressar ao solar do Conde
de Margarida.