Páscoas
dos meus anos
Dia
6 de Abril do ano 2003 as 6:30 hs da manhã acordei, logo
me lembrou que deveria estar a fazer anos que nasci, mas ao mesmo
tempo recuei no tempo, e logo me lembrou que já os tinha
feito logo depois da meia noite.
Sim,
é que eu nasci em Portugal algures ao subir do monte de
são Miguel o Anjo, onde os melhores caminhos mal passavam
um carro de mato, e para subir o monte eram carreiros de cabras.
Mas
mesmo assim fui assaltado por o que teria acontecido, segundo
o que me dizia meu irmão Manuel, que apenas as saudades
podem falar comigo, e elas por vezes tornam-se em gotas nas face
que a saudade traduz.
Ele
me dizia quando nasci logo de manhãzinha cedo, foi com
minha irmã ao laranjal, agarrar a franguinha careca, que
mal tinha iniciado a por ovos, para fazer a primeira canja de
reconstruir paredes.
Naquele
tempo podiam correr todas as coisas mal para a mulher, ao nascer
dum filho.
Seria
preciso cumprir a preceito a lenda. Se nascesse rapaz seriam preciso
31 galinhas se fosse rapariga eram trinta, e elas tinham o cuidado
de deitar ninhadas a tempo para cumprir a preceito essa lendas.
Mas
não ficavam por aí, seria preciso 15 quilos de bacalhau,
mesmo daquele amarelinho Inglês e dois garrafões
de cinco litros por semana, e então a tal broa de mistura.
Farinha
milha passada pela peneira de seda, com o tal milho alvo o centeio
e o trigo.
Então
as mães saiam cá para por a dos 31 dias como lontrinhas,
e cara de veludo.
Depois
continuava seu martírio, por a criança enxuta. A
maquina de lavar mais perto era o balde e o poço ou uma
grande barreada de cinza, embranquecia, matava os micróbios
de cheiro a mijo e a mofo
Ou
então quando era dia de coradouro, lá levavam uma
grande bacia, para o lavadouro. Para poderem desenferrujar a língua,
pois coitadas, era o único divertimento que tinham
Alem
de fazer o que o Sr. Abade dizia, fazer amor só para fazer
filhos; que inocência!… …fui criado nela até
sair de Portugal.
Eu
sou daquele tempo que ia espreitar atrás da caixa do radio
para ver quem estava a falar…. Sim senhor, sou do tempo
que duas laranjas com uma varinha direita, fazia de eixo, e uma
escarrancha, era o motor e guiador, as raparigas brincavam com
boneca feita com uma meia velha, e as pedrinhas; os cacos de pratos
partido que não se podiam meter agrafos, serviam para as
mocinhas fazerem casinhas, as bugalhinhas, eram o dinheiro de
troca da brincadeira.
Também
se jogava o botão, ou se fazia azenhas com penas de bugalhos,
enfiados em pauzinhos de loureiro, fazendo-os tornar com água
do regueiro.
As
gaitas feitas com rama de cabaça, ou canas de foguetes,
e repuxos com pau de sabugueiro, cascas de pinheiro manso era
material para fazer arte, e as relas feitas com fitas de eucalipto.
O
pião era a brincadeira preferida no recreio da escola,
e todos queriam mirar no rabo do pião que ficasse na roda
traçada no terreno.
Sou
do tempo que ouvia apitar o combóio, mas só o vi
a primeira vez aos 8 anos de idade, e entrei nele aos treze, de
Caniços a Santo Tirso, para poder dizer que andei de combóio.
Sou
do tempo que se jogava ao eixo e bola feita com meia e trapos,
corria com a arca, jogava ao S. João barqueiro, e esconde
lenço, jogava à barra.
E
de noite acendia as luzes com pedras de carboneto e uma mijadela
na terra , sou do tempo que se aprendia as primeiras letras a
escrever na areia.
Sou
do tempo que a mulher andava de saia a varrer o chão e
um corpete apertadinho para mostrar o feitio do peito e das ancas.
E
sou do tempo da revolução da nova mulher, onde a
virgindade deixou de ter valor, elas para serem bonitas gastavam
rios de dinheiro, mas obtiveram a igualdade com os homens no campo
profissional, nas artes, no desporto, na liberdade sexual; neste
campo gostam de ficar por cima
Hoje
o homem não sabe como lidar com a mulher; e sua nova realidade,
estamos mesmo vendo que a mulher avançou, mas caiu na armadilha,
que ela própria armou.
Hoje
vêem-se mulheres ardendo, mas que se acham gordas, e então
não querem saber aos sacrifícios a que se submetem,
a ver se ficam magrinhas; vão para a academia de massagem,
submetem-se a lipoaspiração, a cirurgias plásticas
para cortarem as gordura.
Nas
praias deitam-se nuas, para não ficarem malhadas.
As
calcinhas é apenas uma tirinha que parece que parte a mulher
ao meio.. os peitos esses querem-nos bem cheios como pneus atestados,
e então quando as peles crescem, mais um pouco de celicone.
E os artigos de pintura , e cremes de seda custam uma furtuna
, não só para fazer raiva ao marido, mas também
ao vizinho que a quer despir com os olhos.
Ao
mesmo tempo quando chego a estes dias estamos na época
dos anos lembro-me sempre da Páscoa, por que por vezes
fiz anos nesses dias, lá ia a casa de meu padrinho para
trazer uma regueifa ao pescoço, que era o nosso troféu
para ver quem a trazia maior.
Verdade
que não gostava do tempo litúrgico dessa época,
tapavam a cara aos santos todos na igreja, com um pano roxo, cor
que eu odiava.
Era
tempo que odiava por ter de ir dizer a doutrina e levar duas canadas
se a não soubesse.
Mas
o que me custava mais era ver minha mãe chorar, porque
era tempo de pagar a oferta ao Sr Abade, as bulas e indultos para
ter autorização de comer carne que nunca existia
para comer, devido há grande miséria que pairava
entre nossa família depois que meu pai morreu.
Gostava
de ver o compasso, e os meus colegas com calças de alças
novas, os homens das opas tocando as campainhas, anunciando a
cruz,
Ainda
me lembra de andarem com uma cesta aos ovos para o Sr. Abade,
e dois dos encarregados das cestas com seus fatos novos e as opas
entrarem em zaragata, ficado com seus fatinhos e opas numa miséria;
pois tinham os ovos roubados nos bolsos todos partidos que davam
para fazer uma fritada; desde esse dia entraram apenas as cartas
em função.
Verdade
que era grande alegria depois de passar a cruz, velhos e novos
ao som da concertina viola e cavaquinho faziam uma dança
geral, que se estendia mesmo depois do luar passar, com a grande
ajuda de umas canecas, e as mocinhas na sua blusa de chita depois
de ir buscar as amêndoas ao bolço do namorado recebiam
o primeiro beijinho….
Eu
sou desse tempo!
Por:
Armando C. Sousa