< Há
muitos anos lá longe, muito longe!
Tudo principiava ou acabava num largo, onde desembuçavam
cinco caminhos, ali era a divisão de duas freguesias, e
três ao quatro aldeias, sem duvida era o sitio onde toda
a juventude se entretinha, o largo serviu de campo para todas
as crianças do meu tempo dar os primeiros pontapés
na bola de farrapos, jogar à barra, ao eixo, corridas de
arcas, ou de motas de pau, nas escadas do prédio que se
erguia enfrente à taberna, as mocinhas jogavam à
pedrinha, ou à noitinha as escadas eram o lugar preferido
para se contar historias que nos iam formando, o nosso inconsciente
devagarzinho tomava conta do nosso destino.
Quantas vezes subia o caminho, que se tornava cada vez mais estreito,
a ponto de ficar apenas carreirinhos de cabras e ovelhas, que
cada vez mais subia até chegar ao alto de S. Miguel do
Anjo, onde tenho ainda bem gravado na minha mente as pedras caídas
do que foi uma capelinha, creio que do santo que lhe dava o nome.
No mesmo recinto donde se poderia ver os píncaros das serras,
tantas vezes branquinhas e espelhadas, íngremes caminhos
que os pastores tinham de palmilhar, tantas vezes me perguntava,
qual será a Serra da Estrela ou a do Marão.
Na minha mente de criança pensava, se a pudesse alcançar,
as estrelas ficariam na palma da minha mão.
Via tantas vezes o sol entrar e esconder-se no espelho sem fim,
do que me diziam ser o mar, e o vento fresco que eu sentia quando
me encarrapitava nas pedras do que foi um moinho a vento, o zunir
das ondas que tantas vezes fizeram chorar aquela gente que até
nós acarretavam as sardinhas ou chicharros.
Sozinho, ali tantas vezes deixava a vós espraiar-se, sem
destino ou fim, seguir ao encontro de ouvidos que não ouviam,
apenas satisfazia o meu pensar, clamando poesia ou queixumes dum
estômago vazio, ou exalava a dor da pele dorida pelo frio
que os trapos não continham.
Justo abaixo ficava a fraga do penedo da Moura.
Sim o penedo da moura, donde se contavam tantas historias de arrepiar.
Tantas vezes a juventude se prostrava enfrente da fraga, num sanselimão
traçado em estrela de David, e ali com o livro de S. Cipriano,
cheio de lendas mágicas na mente dos crentes, e cabeças
vazias de verdades, mas cabeças cheias de medos de do impossível.
Essas lendas foram causadoras do Sr. Arnesto perder a fala; para
ficar a gaguejar para toda a vida, era homem que eu adorava como
criança; sempre um sorriso e uma mão acariciadora
sobre a cabeça dos jovens.
Um dia um grupo desses jovens resolveram desencantar a Moura,
dentro desse sanselimão, tudo em segredo..... mas nunca
ouve completo segredo e um outro grupo resolveu pregar umas partidas
a esses crentes; e com antecedência estalaram barris cheios
de pedras no cimo do penedo da fraga que servia de arraial à
capelinha de S. Miguel do Anjo.
Dentro da fraga onde se encontravam as piinhas das lagrimas escondido
na escuridão do penedo um homem de nome Capelo, esperava
o momento mágico, tudo cheio de pedras de pólvora,
os jovens iam lendo, mas o medo se estava apoderando deles, quanto
mais se aproximavam de desferir a palavra infernal; seria nesse
momento que a fraga se abriria, e vomitaria fogo e com ele o tesouro
da Moura encantada por milhões de anos, os moços
tremiam e pararam antes de desferia as palavras (abre-te inferno)
e deitas das profundezas esse tesouro....a fraga tornou-se toda
em chispas de fogo, os barris de pedras começaram a cair
formando um som ensurdecedor, do meio do fogo da fraga saiu o
diabo vomitando fogo com gestos pavorosos, (era o Capelo que tão
perfeitamente encenou o Lúcifer que todos do sanselimão
deitaram correndo serra abaixo.
Apenas o Sr. Arnesto ficou enlaçado por uma fita de eucalipto,
que se julgou preso pelo diabo, e ali ficou sem acordo, até
ser encontrado pelo grupo malandram que tinha encenado todo o
plano que se tornou em meia tragédia.
Todo o tempo que conheci o Sr. Arnesto, sempre gaguejava coooooommmmmmmmooooo
vaaaiiiiiiiisssss meeeeeeeeuuuu raaaaaapppppppppaaasssss......eu
agarrava-me a uma perna e seguia o homem encantado pela maneira
que ele falava.
Passaram-se muitos anos, mas tudo vive na minha mente como se
estivesse a passar hoje.
Ainda hoje minha mente percorre todos esses cantinhos à
procura do sonhador que eu era, esse meu ser sedento de encontrar
uma feição de amor naqueles vales charnecas e montanhas
encantadas de magia; ali sozinho recitava versos repletos de antigas
cantigas, deixando transparecer a imaginação porque
hoje estou escrevendo.
Lá longe onde vivi não existiam lagoas, e apenas
charcos, conhecia o sofrimento, mas não o mar, havia sim
grandes carvalhos donde nasciam sombras de descanso, parece que
ainda os sinto pingar maçãs de cuco juntamente com
o orvalho, ao nascer da aurora.
No ar flautavam grandes pássaros de pontas de asas brancas
que se deixavam cair como um penedo para logo se erguerem com
uma cobra torcendo-se nas garras, olhava, e encontrava o Céu
brilhante de azul, mas ao fundo onde eu dizia que terminava o
mundo uma luz brilhante dourada e umas nuvens de prata principiavam
a erguer-se.
O sol tombou, dissipando suas próprias cores, depois veio
o luar que se ergueu das trevas transformando seu mundo em belíssimas
aquarelas, como se a natureza fosse um deus que iniciava outra
vez o ciclo da vida, emergindo meu pensamento em compreensão.
Ainda hoje vivo por vezes lá longe, onde não haverá
julgamento do meu pensar, mas onde ainda vive o poeta que escreve
estas linhas....estas linhas que tudo diz mesmo calado, e vêem
ainda o passado mesmo de olhos fechados.
Com o pensamento falo ainda com os caminhantes desse tempo, que
o saber do sagrado lhe foi incutido errado.
Foi lá longe que principiei a deixar o medo, e aqui que
tomei a natureza como deus, esta alimenta de ar meu próprio
peito e os meus olhos de luz.