Disseram, nem pio; em mim não haveria mais palavra
Teria de guardar em mim as vozes do som
Ditadores... roubaram meu eu, ser que me embalava
Roubaram-me o direito há igualdade, não lhes dou perdão
Tudo poderia existir, mas só em mim
E como poderia eu espalhar a verdade?
Ho como as coisas vão mal, neste só para alguns, jardim
Com o instrumento do silêncio, não ganho a liberdade
Covardes, mentirosos, podiam matar e mentir
Tínhamos de engolir a lâmina que dilacerava a mentira
Mas o "nem pio" tínhamos de engolir e rir
Quem sofre amigos, chega a ponto que a febre delira
Sofri tantos anos na minha mocidade, delirando
Fugi daquela terra, meu torrão para livrar-me do "nem pio"
Agora escrevendo estou o passado lembrando
Nos remendos sobre remendos para não ter frio
Não queria que meus filhos crescessem como eu na ditadura
Deixei-me enveredar por caminho desconhecido
As línguas aprendidas, e o sonhar em mim perdura
De todos os meus passos de saída em nada estou arrependido
Mas até hoje nunca mais ouvi o "nem pio" da ditadura
Soltei a voz que ecoa no meu universo poético, mas sentido
De minha mãe apenas poder ver a sepultura
Esta mágoa que ainda hoje trago comigo
Muitos anos a verdade saiu em letras minhas sem censura
Não é hoje que me deixo censurar, eu digo
Tudo morre, não existe nada que perdura
Não podendo escrever verdades é meu castigo
Mas para ti não escrevo, com censura.


Por: Armando C. Sousa

Canadá - 26/11/2005