Disseram, nem pio; em mim não
haveria mais palavra
Teria de guardar em mim as vozes do
som
Ditadores... roubaram meu eu, ser
que me embalava
Roubaram-me o direito há igualdade,
não lhes dou perdão
Tudo poderia existir, mas só
em mim
E como poderia eu espalhar a verdade?
Ho como as coisas vão mal,
neste só para alguns, jardim
Com o instrumento do silêncio,
não ganho a liberdade
Covardes, mentirosos, podiam matar
e mentir
Tínhamos de engolir a lâmina
que dilacerava a mentira
Mas o "nem pio" tínhamos
de engolir e rir
Quem sofre amigos, chega a ponto que
a febre delira
Sofri tantos anos na minha mocidade,
delirando
Fugi daquela terra, meu torrão
para livrar-me do "nem pio"
Agora escrevendo estou o passado lembrando
Nos remendos sobre remendos para não
ter frio
Não queria que meus filhos
crescessem como eu na ditadura
Deixei-me enveredar por caminho desconhecido
As línguas aprendidas, e o
sonhar em mim perdura
De todos os meus passos de saída
em nada estou arrependido
Mas até hoje nunca mais ouvi
o "nem pio" da ditadura
Soltei a voz que ecoa no meu universo
poético, mas sentido
De minha mãe apenas poder ver
a sepultura
Esta mágoa que ainda hoje trago
comigo
Muitos anos a verdade saiu em letras
minhas sem censura
Não é hoje que me deixo
censurar, eu digo
Tudo morre, não existe nada
que perdura
Não podendo escrever verdades
é meu castigo
Mas para ti não escrevo, com
censura.