Me lembro dos barcos de casca de pinheiros
mansos
Outros feitos de papel na minha meninice
Corridas, a pé descalços
como gansos
Cosia os rasgões nas calças
para que a pele cobrisse
Com ramos de sabugueiro fazia repuxos
Com arames de rede de galinha fazia
minhas setas
Me escondia nos arbustos ou buxos
Com um sopro, as setas de arame atingiam
metas
Tinha barcos com velas a que eu soprava
Não sabia o que eram ondas, nunca
tinha visto o mar
Quando me cansava da brincadeira os
barcos amarrotava
Construía outro melhor após
o dia madrugar
Olhava meu retrato tremido na água
que parava
Quando nascia o sol ficava nela a me
mirar
Ouvia as horas no badalar do sino
Esperava ouvir minha mãe me chamar
Era esta minha vida de menino
Depois de comer a sopa mal untada
Ia ver minhas azenhas trabalhar
As que instalei no reguinho
No nascente de água pura do lugar
Mais tarde quando minha mãe me
chamava
Pegava num pauzinho no terreiro
Ia aprender letras rabiscar
Foi meu lápis e meu quadro primeiro
Quando o dia se esvaia,
Mas restava ainda um pouco depois da
ceia
Satisfazia mais um pouco minhas alegrias
Aprender com meus irmãos a escrever
letras na areia
Hoje idoso no p/c é onde passo
meu dia
E leio meus poetas sem candeia
E a luz elétrica que leio e escrevo
poesia.
Por: Armando
C. Sousa
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